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Além das praias, motoristas do Uber são um show em Floripa, por Zildenor Dourado.

FLORIPAFLORIPA
Praias encantadoras , além de camarão e ostras, são destaques em Floripa. Isso não é novidade alguma.
Além das praias, motoristas do Uber são um show naquela ilha mágica.
Eles dirigem  de bermudas, contam histórias e revelam a diversidade cultural brasileira.
As praias são mesmo deslumbrantes: desde as mais distantes como a da Guarda do Embaú, Brava, Matadeiro, Bombinhas, Quatro ilhas, como ainda a paradisíaca Praia Mole, lá  pertinho da muvuca da  Lagoa da Conceição, destino obrigatório dos visitantes, sempre extasiados com as belezas naturais do lugar.

 Eu já sabia de tudo isso quando levei a família para desfrutar uma semana de paz e sossego naquela ilha mágica, apesar dos numerosos argentinos que infernizam as areias, com suas caixas de som  estridentes  e canções do nível da Anitta para baixo.

O que não esperava é que outra atração especial nos garantisse momentos de descontração: os motoristas do  Uber.

Logo no primeiro dia da tão aguardada praia levamos um susto daqueles, quando chamamos um Uber para nos levar do Centro   praia Mole _ aquela que  fica colada na bucólica Galhetas, onde os alternativos  adoram andar nus. Mas isso é outra história…

O que importa para o desenrolar desta narrativa é que quando o motorista chegou ao hotel e  nos pediu para confirmar o itinerário,  reagiu de uma forma inédita, algo inimaginável para qualquer turista:

   _ Vocês me arrombaram, porra!”

_ Mas o que houve?  Qual o problema? _ indaguei, preocupado, diante da cara de revolta da mulher e filhos, com aquele protesto em  linguagem tão inapropriada para  motoristas do Uber.

Depois descobriríamos  que  trabalham normalmente de bermudas na cidade, o tempo todo _ o que já prenuncia o clima de informalidade predominante no volante.

_  Vou levar umas duas horas para chegar ao destino… vocês têm que certeza que querem ir para  a Praia Mole? – reforçou sua  estranha indignação.

 _ Mas qual seria a melhor opção ? _ indaguei, em busca de uma conciliação de interesses.

_ Tudo vai estar congestionado hoje, a cidade tem turista por tudo que é canto e o trânsito está com fila (como eles chamam engarrafamento) por tudo que é canto. “Se o prefeito me chamasse eu mudava esse tráfego todo em direção às praias” – anunciou, como um líder da oposição.

Naquele clima de insegurança o  motorista partiu resignado em direção à praia. Logo, desfez a cara feia e nos pediu para fazer uma goianada  arriscada  no trânsito porque não queria ficar sem gasolina – o que atrasaria ainda mais nossa complicada viagem.

 Durante o trajeto  o camarada foi se soltando (ele não era catarinense, mas paulista) e nos  obrigou a ouvir todos os seus investimentos imobiliários na ilha, seus problemas familiares e queria até acordar minha mulher para que ela também fizesse parte da nossa conversa. Acho que ficou mais excitado quando eu disse que era jornalista.

Finalmente nos despedimos em clima de paz, mas ele logo sentenciou: “Essa foi a primeira e última corrida do dia. Chega!

Ninguém merece um trânsito desse”.  Ele estava com razão… não sei por que me pediram pra dar uma nota bem baixa para o coroa sincero.

Logo mais à noite,   voltamos no Uber de uma moça bem sorridente. A menina tagarelou tanto ao volante que meus filhos notaram meu desconforto em não poder opinar com tempo dividido sobre as dicas de passeio que ela nos oferecia, com destaque para a romântica praia de Santo Antônio de Lisboa.

Ela se empolgara tanto com a descrição da vista do mar que até errou o   melhor trajeto para o hotel. Perdoada, contudo. Ela disse que adorou nos conhecer, apesar de sermos de Brasília…

A moça simpática não deixou de falar que fugira do caos de São Paulo e estava ali na cidade tentando redescobrir novos caminhos de  vida. E  fez uma recomendação: “Fujam das praias do Norte,  cheias de argentinos, pois lá traficantes de drogas estão brigando por pontos de venda”.

 No dia seguinte os jornais da ilha estamparam em destaque uma execução sumária no local onde ela  anunciara o perigo.  A  motorista, também administradora de empresas, mostrou-se uma competente sibila.

Interessante ainda o motorista de Mato Grosso do Sul que demonstrou não conhecer nada da cidade. “Só estou aqui há dois meses. Depois de ganhar um dinheirinho  e conhecer todas as praias eu vou embora”

O jovem motorista, mais um dos desolados concurseiros deste  País,  alegou-nos que não teria coragem de indicar uma churrascaria qualquer: “Eles aqui não sabem fazer churrasco.  É só sequência de camarão e peixe grelhado”

A visita que fizemos à Churrascaria Riosulense comprovou que havia exceção. Pelo menos uma.

Inesquecível o capitão bombeiro _ outro boquirroto  _ que  estava ganhando a atenção da minha filha ao falar do amor  à igreja,  à  profissão. Disse que sentia prazer em fazer bico com o Uber, para conhecer pessoas.

Mas causou mal-estar ao se declarar fã do Bolsonaro. Ele ainda  mostrou no percurso o  elegante prédio onde morava, na orla.  O filme dele, contudo, estava  queimado  com as mulheres feministas a bordo. Era uma chama que não poderia apagar, coitado.

O  que jamais imaginara é que faríamos uns três passeios seguidos com um motorista paranaense,  corretor de imóveis nas horas vagas, que fez de tudo para que não parássemos de rir.

Às vezes,  quase pedi a ele mais atenção com os caminhões que ultrapassava  quando  fazia discursos eivados  de críticas ao baianos, mesmo sabendo que eu era um deles.

Ele nos contou inclusive que trabalhava de madrugada e emendava  no volante  a manhã inteira. Enfatizou, sem modéstia,  que era um excelente churrasqueiro e devorava sempre todo tipo de comida  gordurosa.

Confidenciou-nos com incrível bom humor que enfartara poucos dias antes, mostrando inclusive cicatriz no braço rechonchudo. “Você só não pode enfartar aqui  no carro com a gente”_ foi uma das minhas primeiras provocações.

“Fique tranquilo”, respondeu, “já cortei o miolo do pão da minha dieta. O resto o médico liberou”

 Numa das viagens lhe pedi  indicação de presente para levar para meu filho.  Ao demonstrar que  não ouvira direito o que falei, apontou uma  enorme sorveteria na beira da estrada,  ressaltando que  era muito boa.  “Mas como vou levar sorvete para Brasília, seu maluco?”. Ele se desmanchou em gargalhadas _  e encheu o carro de alegria.

Nossa jornada acabou de modo inusitado: o irreverente motorista  sugeriu-me que o adicionasse no facebook  Fez até um apelo para que  ficássemos mais uns dias em Floripa  a fim de  participar do churrasco em sua casa em  comemoração ao seu aniversário. “Eu não vou cobrar mais nada,  já ganhei dinheiro demais de vocês, meus amigos…”

 Saí de Floripa  com uma promessa interior: voltarei lá para ver se o cara é bom mesmo na picanha, no porco à  pururuca, na costela desossada _ que gabava-se como seus “imperdíveis” pratos principais, enquanto viajávamos de barriga vazia e ele mostrava a fotos da mulher e  filhos, todos gordinhos como ele.

Os banhos ao sol e  chuvarada que tomou conta da ilha  poderão ser esquecidos em breve, a descoberta da riqueza humana presenta na ilha jamais.

 

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