Brasil! Mostra a tua cara…

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Brasil! Mostra a tua cara…

 

Na música “Brasil”, o compositor, e por que não dizer, o profeta Cazuza provoca politicamente a passividade do povo brasileiro e, ao mesmo tempo, denunciava a corrupção e os negócios escusos que as negociatas políticas faziam na nossa cara e nada acontecia. Nessas últimas eleições, essa provocação de Cazuza foi respondida. O Brasil mostrou uma face de intolerância e de revanchismo. São dois pesos e duas medidas para defender o paradigma da vontade do povo e o processo eleitoral foi o palco para vermos de frente a nossa própria cara.

 

Inusitadamente, o foco do pleito eleitoral foi à polarização entre o candidato de extrema direita, o conservador Bolsonaro contra o representante da esquerda pelo Partido dos Trabalhadores. Muito além de ser o candidato Haddad, o antipetismo irracional traz à tona uma posição clara da população, um notório sentimento fascista que se formou e que tem identificado como sendo a sua ideologia política. Um sentimento que tem provocado conflitos entre familiares, vem separando antigas amizades e provocado muitas agressões gratuitas.

 

Saudades da ditadura militar de tempos atrás? Não, nem pensar. Hoje, muitos não viveram esses tempos de terror e cerceamento de direitos e liberdade, mas o sentido é uma identidade cúmplice com o autoritarismo escrachado que o candidato conservador esbanja em suas declarações conhecidas mundialmente, como a exaltação ao Torturador da ex-presidente Dilma, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, na votação do processo de impeachment, ou mesmo na demonstração explicita de discriminação e desrespeito às minorias étnicas, LGBTI+, na desvalorização da mulher como ser produtivo e inteligente, e contra a igualdade de gênero.

 

Na disputa tínhamos doze candidatos, mas tudo ficou ao redor da disputa Bolsonaro X Haddad. Em todos os casos se ouvia apenas uma justificativa: “… só vou votar nele para o PT não voltar ao poder…”. Porém, e os demais candidatos? Nossos eleitores não se deram ao menor trabalho de analisar planos de governo, projetos políticos, propostas desses candidatos, o ódio ao PT foi tão grande, que mesmo questões que incitam à violência, o armamento da população civil, extermínio da população quilombolas e das reservas indígenas, nada disso tinha significado como valores éticos e morais para balizar a índole do futuro presidente do país.

 

Politicamente, a cultura provavelmente poderá ser mais uma vez vítima do descompromisso e do descaso, como aconteceu quando o presidente Temer fechou o Ministério da Cultura deliberadamente e precisou de um grande movimento contrário envolvendo a sociedade e a classe artista em geral, que o fez reconsiderar de sua decisão. A população desconhece os mecanismos que movem a economia da cultura, e muito menos como funciona a Lei Rouanet. Acreditam cegamente em boatos que a Lei deixa o Governo Federal destinar uma verba milionária para que determinados artistas consagrados recebam verdadeiras fortunas de forma livre e sem critérios. Essa Lei é o nosso principal mecanismo de fomento à Cultura no Brasil, e é a lei que estabelece as normativas de como o Governo Federal deve disponibilizar recursos para a realização de projetos artístico-culturais.

A verdade é que empresários que bancam projetos e são manipulados por algum político, não é um problema da Lei e sim da corrupção que tem se estabelecido em todos os níveis do governo federal, estadual e municipal, uma doença crônica que precisa ser tratada com controle social dos setores envolvidos. Entretanto, esquecemos que muitos postos de trabalhos são criados nessa economia da cultura que segue normas específicas, seja nas diversas áreas de produção, ou no aluguel de máquinas e equipamentos, palcos, iluminação, na gastronomia e em tantos outros setores que estão envolvidos. A corrupção não é só do político, mas também do empresário que se sujeita à negociata, ambos estão ganhando.

 

O retrocesso político por meio da cultura de uma sociedade, a falta de memória, a perda do patrimônio imaterial e da tradição, são sintomas da decadência da civilidade de um povo. Em sua definição genérica, Edward B. Tylor  diz que cultura é “todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade“, cabe a todos nós, que fazemos parte dessa sociedade, não medir esforços necessários para preservá-la e fortalecê-la enquanto plena expressão do povo brasileiro.

 

Wellington de Mello

Publicitário, Designer Gráfico e Fotógrafo

**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha do Cultura Alternativa.