Exposição integra a arte às memórias olfativas

exposição Diário de cheiros

Exposição em cartaz no Museu de Arte Contemporânea, obras de Josely Carvalho remetem aos cheiros das emoções.

Cheiros de perfumes, vinhos, flores, pimenta se espalham pelo espaço entre estilhaços de vidros.

Os aromas se misturam e, sob o som forte de algo se quebrando, levam o espectador às suas próprias histórias, remetem à fragilidade dos sonhos.

É essa conexão com a memória olfativa que a mostra Diário de Cheiros – Teto de vidro, da artista Josely Carvalho, brasileira radicada em Nova York, propõe no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP.

A artista Josely Carvalho compõe novas formas para os vidros quebrados – Foto: Divulgação

“Os diversos cheiros nos remetem às lembranças”, explica Josely. “O olfato é o meio para resgatar a memória individual e coletiva.” A artista apresenta sua obra integrada pela gravura, pintura, vídeo, fotografia e sons, que aguçam a percepção do público mesclando o virtual e o real.

A mostra se divide em duas instalações. Na primeira, chamada Estilhaços, há taças de vinho quebradas que, segundo a artista, se traduzem em seis memórias olfativas – prazer, ilusão, persistência, vazio, ausência e afeto -, definidas por escritores convidados por Josely em breves legendas poéticas. A artista também espalha entre os cacos os seus textos com reflexões sobre a arte e vida.

 

“O vidro intacto não esconde segredos, porém seus cacos guardam confidências.”

“Sou uma apaixonada pelo vidro, sua transparência, sua fragilidade e sua força quando quebrado”, conta.

“O vidro intacto não esconde segredos, porém seus cacos guardam confidências. Não desejo que taças quebradas sejam metáforas de momentos despedaçados de nossas realidades, mas sim fragmentos de prazer, de angústia, de dor, talvez mesmo de desespero. Existe um viver sem encanto e amargura?”.

Recompor cacos em novas formas e significados é a intenção de Josely. O visitante interage com as obras, abrindo os potes de vidro para sentir os diferentes cheiros ou escrevendo e deixando as suas impressões em vidros vazios de perfume.

 

A segunda instalação é chamada de Resiliência, com outros seis diferentes cheiros: pimenta, lacrimae, anoxia, barricada, poeira e dama da noite.

“A construção do cheiro de resiliência iniciou-se com a memória das manifestações de 2013, no Rio de Janeiro, principalmente no Leblon, onde os vidros de lojas e bancos foram estilhaçados”, explica a artista. “Os cacos de vidro me remeteram às imagens na Síria, nos Estados Unidos, no Brasil e muitos outros países.”

 

Cheiros remetem às lembranças, destaca a artista – Foto: Divulgação

Para a curadora da mostra, Laura Abreu, Diário de Cheiros – Teto de vidro completa um ciclo de pesquisas estéticas, plásticas, sensoriais e de vivências da artista. “Teto de vidro simboliza as barreiras transparentes que a sociedade impõe às mulheres e às minorias.

Na mostra, o vidro em sua dualidade, de força e fragilidade, se revela além das formas e o olfato é solicitado, além do sentido do olhar e do tato, proporcionando uma experiência expandida e singular.”

Taças quebradas são relacionadas aos fragmentos de prazer – Foto: Divulgação

A arte de Josely é compartilhada com o visitante do MAC. Embora reflita a sua experiência diante dos fatos, faz questão de abrir espaço para a opinião do público. Katia Canton, curadora do MAC, observa nas instalações uma teia híbrida, onde a artista costura a relação tempo/espaço de maneira espiralada e contínua. “A intenção da artista é quebrar a santidade da obra de arte, sendo a interatividade parte integral da exposição.

O público é convidado a tocar, cheirar, ouvir e ver”, observa. “O sentir permite a abertura da memória. Ao segurar em suas mãos as esculturas levando-as ao nariz, consequentemente os sentidos do olfato e do tato são ativados. O mito de que uma obra de arte não pode ser tocada é quebrado nesta exposição.”

 

A exposição Diário de cheiros – Teto de Vidro, de Josely Carvalho, está em cartaz até 6 de maio, às terças-feiras, das 10 às 21 horas, e de quarta-feira a domingo, das 10 às 18 horas, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP (Avenida Pedro Álvares Cabral, 1.301, Ibirapuera, em São Paulo, telefone 11 2648-0254). Entrada grátis.

 

Museu de Arte Contemporânea de São Paulo