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Lições que ‘Spotlight’ te ensina sobre o jornalismo

O filme é uma homenagem às redações de jornal, esses lugares românticos e duros e tão deliciosamente século 20

Mas traz também lições perenes para jornalistas de todas as épocas e para os milhões de ombudsmen da imprensa nas redes sociais.

1 – É o sistema, estúpido

Chega ao Boston Globe Marty Baron (Liev Schreiber), um diretor de fora com fama de cortador de vagas, e ele poderia ser só isso mesmo. Mas o filme recorda o poder de armas imprescindíveis para o jornalismo: desnaturalização e distanciamento.

Quando o editor resolve revisitar um tema com novo ângulo e novos recursos é que a mágica acontece. O maior dos especialistas e cavador de notícias exclusivas vai sempre precisar de alguém para fazer as perguntas básicas e não tão básicas. O “follow the money” (siga o dinheiro), a lição clássica do Todos os Homens do Presidente (1976) para o escândalo que derrubou Richard Nixon, se soma ao “get the system” (mostre os problemas do sistema).

Poderia ser mais uma história sobre maçãs podres na Igreja Católica e virou uma reportagem sobre o sistema corrompido da instituição com impacto mundial. Reflita: quem está na cadeia de comando das atrocidades que vemos por aí?

2 – Agradeça a essa gente mal vestida e monotemática

Raramente há grandes reportagens com informações exclusivas – por definição, algo que alguém poderoso não queria que viesse a público – se não há por trás um jornalista que se obcecou por um tema, ficou até mais tarde, provavelmente brigou com familiares e amigos por causa disso, encheu o saco de alguém, talvez o do próprio editor. Enfim, virou monotemático.

De quebra, o filme revela ainda outra dura verdade: somos uma classe que se veste mal. Pobre da atriz Rachel McAdams com essas pantalonas horrendas (descontado o custo fim dos 90, aqui o que New York Times escreveu sobre isso). Seja como for, uma salva de palmas para esses bravos pelo mundo, e uma reflexão da ombudsman da Folha, Vera Guimarães: jornalismo investigativo é o mais caro e o que mais sofre com a crise do modelo de negócios do setor.

3 – Os cínicos não servem para essa profissão

Se você, como eu, saiu do cinema frustrado por nunca ter feito uma reportagem que abalasse a República, console-se pensando que o sol nasce para todos.

Há os que veem as árvores, há os que veem as florestas – o jornalismo precisa dos dois. A equipe do Spotlight tinha o Mike Rezendes (Mark Ruffalo) no braço investigativo, mas tinha Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) na rua. Sem ela, sua entrega e seu esforço de empatizar com o entrevistado, faltaria uma peça importante. Pfeiffer lembra, como diria o jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, que os cínicos não servem para essa profissão.

4 – Vai mesmo ignorar o doido de redação?

O filme redime um personagem típico: o doido da redação. Todo veículo enfrenta milhares de telefonemas e e-mails prometendo o furo (a notícia exclusiva) do milênio, assim como ativistas e especialistas (verdadeiros e fakes) nos mais variados temas.

O filme prova que o Boston Globe errou ao ignorar o insistente Phil Saviano e sua pequena associação das vítimas de abuso. Jornalismo requer paciência e curiosidade, mesmo quando isso é um desafio.

5 – Há mudanças e mudanças

Já no final do filme, os jornalistas comemoram poder publicar na Internet a cópia dos documentos sobre os casos de abusos e pedofilia e o efeito multiplicador que isso teria. É um índice do que a Internet ofereceria ao jornalismo já naquele longínquo 2001.

Além de bagunçar o modelo de negócios do jornalismo do século 20, a rede trouxe muito mais gente para a conversa, novos formatos e possibilidades. Há temas que, não adianta torcer o nariz, vão ficar melhor em listas tipo BuzzFeed: dos dez mandamentos às melhores cenas de gatos. E para outros não há como escapar da reportagem. Marty Baron, o diretor do jornal filme, agora comanda mudanças no Washington Post.

6 – Que notícia você leu sobre a Assembleia de São Paulo?

Exibido nos cinemas, o trailer alternativo é uma meta-homenagem: diretores e atores comentam da importância do jornalismo para a democracia, comentam que o Boston Globe é apenas metade do que era em 2001 e falam do perigo da morte dos jornais locais nos EUA, que fazem um tipo de jornalismo insubstituível. Pense com eles: qual a foi a última notícia que você leu sobre a Assembleia de São Paulo?

7 – O charuto, às vezes, é apenas um charuto

É tarefa do leitor saber o que está lendo, onde está lendo e como as características políticas e ideológicas de quem publica pode influenciar o material. Dito isto, um título que você achou um acinte ou a ausência daquela pauta que ninguém viu, só você diferentão, podem ser apenas produto de um mau dia de um jornalista ou incompetência mesmo.

Como diria Freud, o charuto às vezes, é só um charuto. A cara do personagem de Michael Keaton quando descobre que ele mesmo deixou a pauta dos abusos sistêmicos passar sob seu nariz quando era editor é desoladora (e reveladora).

8 – Bom repórter tem sorte

Alguém alguma vez me disse que bom repórter tem sorte. Se você for obcecado e persistente, você multiplica as chances de sorte, de a fonte amolecer e resolver te contar algo, como em algum momento o ótimo advogado faz com o repórter interpretado por Mark Ruffalo. De acordo. Mas, às vezes, sorte é sorte mesmo. Você disse a palavra certa, na hora certa, estava no lugar certo e fica se sentindo tocado pelo deus do jornalismo.

9 – Independência é melhor que engajamento

O editor Baron vai até ao poderoso cardeal da Igreja em Boston e diz: é melhor para o jornal ser independente do que seguir na relação de compadrio com a instituição. Deveria ser o básico, mas não é, especialmente em uma época em que muitos leitores cobram adesão às mais diversas causas e partidos e estrilam quando confrontados com qualquer abordagem crítica se o assunto em questão for o de sua predileção.

Fonte brasil.elpais

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