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Domingo, 05 Novembro 2017 10:32

“A prenda” – um poema de Mia Couto com gostinho de infância

No livro “Vagas e Lumes“

A PRENDA

 

O menino

recebeu a dádiva.

 

Era o seu dia, assim disseram.

 

Estranhou:

os outros dias não eram seus?

 

Se achegou.

Espreitou.

 

A oferenda,

era coisa nenhuma

que nem parecia existir.

– O que é isso?, perguntou.

– É uma prenda, responderam.

 

Que prenda poderia ser

se tinha forma de nada.

 

– Abre.

 

Abrir como

se não tinha fora nem dentro?

 

– Prova.

 

Como provar

o que não tem onde se pegar?

 

Olhou melhor.

Fixou não a prenda,

mas os olhos de quem a dava.

Foi, então:

o que era nada

lhe pareceu tudo.

Grato,

retribuiu com palavra e beijo.

 

O que lhe ofereciam

era a divina graça do inventar.

 

Um talento

para não ter nada.

 

Mas um dom

para ser tudo.

 

Mia Couto

 

No livro “Vagas e Lumes“, págs. 105 e 106

 

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