Marlui Miranda lança “Fala de Bicho, Fala de Gente”, com cantigas de ninar dos índios Juruna

Marlui Miranda lança “Fala de Bicho, Fala de Gente”, com cantigas de ninar dos índios Juruna

Produzido pelo Selo Sesc, disco tem 15 canções baseadas em criações transmitidas de geração a geração

Reconhecida como a mais importante intérprete e pesquisadora da música indígena do Brasil, a cantora, compositora e pesquisadora Marlui Miranda lança nos dias 2 e 3 de agosto no Sesc Santana o CD “Fala de Bicho, Fala de Gente: Cantigas de Ninar”. Produzido pelo Selo Sesc, que em 2014 completa 10 anos de existência, o disco reúne 15 músicas compostas a partir de cantigas de ninar feitas por índios da tribo Juruna.

Com mais de 30 anos dedicados ao trabalho com índios, Marlui iniciou a pesquisa para o novo disco em 2010, com uma imersão na cultura Juruna. Em visitas ao povo, conheceu pelo menos 49 cantigas de ninar, e decidiu adaptá-las às 15 que compõem o CD.

“O registro das obras tem enorme importância para formação de um acervo. A cultura indígena sempre foi transmitida por via oral. São mais de 400 canções. No povo Juruna todos cantam, dançam e tocam as flautas”, observa Marlui.

“Não foi tarefa fácil abordar esse repertório, pois há uma restrição cultural envolvendo sua execução: depois das cinco horas da tarde não se costuma interpretá-las, já que, segundo a crença dos jurunas, isso poderia afetar as pessoas mais vulneráveis, as crianças, fazendo-as cair num sono letárgico, podendo até não acordar mais”, completa.

De acordo com a artista, todo o repertório foi aprovado pelos jurunas, que, inclusive, acompanharam as gravações via Skype. “Logo apresentei uma proposta de adaptar as cantigas, para não revelar totalmente sua estrutura original e, sim, cobri-las com uma textura de harmonia, improvisos, acordes, percussões, pequenas alterações em sua linha melódica”, lembra Marlui.Shows

Marlui lança o CD em shows no Sesc Santana, nos dias 2 e 3 de agosto. Estará no palco acompanhada dos jurunas Tarinu e Yabaiwa, vindos do Xingu, que se apresentarão cantando e tocando flauta. O show também terá participação especial do músico norueguês John Surman, no sax, clarone e flautas.

Nelson Ayres (piano), Rodolfo Stroeter (contrabaixo) e Caíto Marcondes (percussão e bateria) também acompanharão Marlui. São eles os responsáveis pelos arranjos, improvisos e texturas musicais desenvolvidos no trabalho em parceria com a cantora.Dez anos de Selo Sesc

O lançamento do CD “Fala de Bicho, Fala de Gente: Cantigas de Ninar” faz parte das comemorações dos 10 anos do Selo Sesc, braço do Sesc São Paulo que divulga o que há de melhor na música brasileira.

“A confiança do Sesc nos pressupostos da diversidade cultural se baseia nos valores da convivência e da troca entre diferentes, ideias que se manifestam no novo disco de Marlui Miranda”, afirma Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo.

Neste ano o Selo Sesc já lançou um álbum duplo de Tetê Espíndola (“Pássaros na Garganta/Asas do Etéreo”), o CD “Plugins Amazônicos”, do tecladista Renato Neto, o DVD “Brazilian Contemporary Music”, que registra a apresentação de Caíto Marcondes e Eva Gomyde no Lincoln Center em Nova York, e o CD “Cage +”, que, junto com os CDs “Berio +” e “Ligeti +”, fazem parte da Série + (proposta de incentivo à produção de peças inéditas de compositores brasileiros por meio do diálogo com obras consagradas do repertório da música do século XX). E ainda serão lançados em 2014 os CDs “16 Valsas para fagote solo” (Fabio Cury), “Só Isso e Nada Mais” (Olivier Toni), “Conversas com Versos” (Eugénia Melo e Castro) e “Mãe C arinhosa” (CD póstumo de Cesária Évora).Marlui Miranda

Marlui Miranda já tocou com Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Naná Vasconcellos, Milton Nascimento e Jards Macalé. Também teve composições gravadas por Ney Matogrosso e Sá & Guarabira, além de criar trilhas para cinema e música para teatro. Em 1979 lançou seu primeiro disco, “Olho d’Água”.

Recebeu bolsas de apoio à pesquisa no Brasil e no exterior, como da Fundação Rockfeller, a The John Simon Guggenheim, Fundação Vitae e RioArte. Com um projeto de preservação e recriação da música indígena da Amazônia brasileira, tornou-se consultora da música indígena em filmes e eventos, gravou mais discos e produziu espetáculos – um marco foi a missa indígena criada a partir de músicas de tribos e apresentada na Catedral da Sé, em São Paulo, em 1997 – com a participação da Orquestra Jazz Sinfônica e coral.

Em 1996, passou a integrar o Grupo Pau Brasil. Em 1998, participou do disco “O Sol de Oslo”, com os brasileiros Gilberto Gil, Rodolfo Stroeter, Toninho Ferragutti, com o músico norueguês Bugge Wesseltoft e com o percussionista indiano Trikot Gurtu.Repértório do CD

1- Duku duku

2- Kaibi dukasela

3- Yuparana

4- Yaita yaita

5- Abina wabaku tade

6- Apï ayâ txuxi txuxi

7- Mande uzakazaka

8- Padû, padû, padû

9- Kuadî abïa

10- Alukade wase

11- Apï abaku da

12- Ude lawila maku

13- Anana de wata

14- Makaxi pararaku

15- Wara wara O CD “Fala de Bicho,