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O destemido balé das bailarinas cegas

A bailarina Marina Guimarães e o cão Duke. TONI PIRES
Escola de balé para cegos ajuda a levar coragem para realizar um sonho de diversos alunos em São Paulo
“Um, dois, três, pula, quatro. Olha o copo d’água na cabeça! Não deixem ele cair! Estica mais esta perna!”.
Os comandos da professora de balé Fernanda Bianchini, 38, davam o tom dos passos finais para a apresentação de fim de ano da turma infantil da escola que leva seu nome, na Vila Mariana, em São Paulo.
“Abaixa os ombros! Sorriso no rosto!”, repetia, ao som de uma animada música clássica. “Verônica, hoje à tarde virão os príncipes e as cinderelinhas. Vamos fazer o ensaio completo, tá?”, disse Fernanda para Verônica Batista, 28. “Tudo bem”, respondeu a aluna e também professora na escola, enquanto se alongava antes do ensaio começar.
A apresentação final seria em dois dias. Depois disso, algumas turmas seriam suspensas para as férias, outras ainda teriam algumas poucas aulas antes do Natal. Logo após as crianças, começaria o ensaio das adultas, que encarariam uma série de repetidas apresentações de balé clássico, seguidas de sapateado. Muitas das alunas passariam aquele dia inteiro na escola.
As aulas de dança da turma de bailarinas de Verônica, todas na faixa dos 30 anos, é assistida por um aluno especial: Duke, um pastor alemão adulto. Passa horas no canto da sala, posicionado abaixo da barra, acompanhando com os olhos vidrados a cada rodopiada que sua dona, Marina Guimarães, 31, dá de costas para o espelho. Duke é um cão-guia e já está acostumado com o ambiente.
“Vou tomar um café, Duke, você fica aqui?”, disse Marina ao cão, que levantou-se no mesmo instante e postou-se prontamente ao lado da bailarina, acompanhando-a até a pequena cozinha da escola. Marina, que é também funcionária pública, nasceu prematura e perdeu a visão quando teve sua retina queimada ainda na incubadora. Assim como ela, grande parte dos alunos da escola não enxerga nada ou quase nada.
Marina faz aulas de balé desde os 10 anos de idade, quando começou a aprender a dança na ONG Instituto de Cegos Padre Chico. Ali, ela conheceu Fernanda Bianchini, que fazia trabalho voluntário com a família na instituição. “Eu fazia balé desde os três anos de idade. Quando estava com 15, fui convidada pela ONG, onde eu já era voluntária, para dar aulas às crianças que eram assistidas pelo local”, conta Fernanda. Quando recebeu o convite, titubeou. “Achei que eu não conseguiria, nunca tinha dado aula antes, ainda mais para crianças tão especiais”.
A bailarina e professora, e hoje também fisioterapeuta, lembra que, na época, os pais lhe deram um conselho valioso. “Eles me disseram ‘filha, nunca diga não para um desafio, pois são sempre desses desafios que partem os maiores ensinamentos que temos nas nossas vidas”. Com isso em mente, Fernanda decidiu aceitar o convite. “Mas não foi simples”, lembra.
“No primeiro dia de aula, fui ensinar o primeiro passo o echappé sauté, que a bailarina tem que saltar abrindo as pernas e saltar de novo fechando as pernas. E pra ficar mais fácil o processo de ensino e aprendizagem, eu disse a elas: imaginem que vocês estão saltando fora de um balde e depois dentro de um balde”, recorda-se a professora. “Aí, para a minha surpresa, uma aluna levantou a mão e disse ‘tia, mas o que é um balde? Eu nunca vi”. Neste momento, Fernanda percebeu que tinha que primeiro entrar no universo dos deficientes visuais, para só então apresentar o seu mundo, do balé clássico, para eles.

Deste pensamento nasceu a metodologia que ela desenvolveu para ensinar suas alunas cegas a dançar balé. As aulas são todas por contato físico: as alunas tocam o corpo dos professores para entenderem em qual posição estão. “Os saltos são iniciados com elas deitadas, com as pernas para cima”, explica Fernanda, que foi fazer pós-graduação em equilíbrio e postura.
Das aulas na ONG, Fernanda abriu sua própria escola, em 1995. Hoje, 350 alunos aprendem balé, sapateado, dança do ventre e teatro. A maioria, assim como Marina Guimarães, a dona de Duke, portadores de deficiência visual completa ou parcial. As aulas são gratuitas e por isso, a escola, que também recebe deficientes físicos, auditivos e intelectuais, é mantida por doações de empresas e pessoas que acreditam no projeto. “Temos mais de 100 pessoas na nossa lista de espera”, orgulha-se Fernanda. “As pessoas não percebem que a deficiência pode entrar na vida de qualquer um a qualquer momento”.
“Olhei para o portão e disse: eu vou”
Verônica, a aluna e professora mencionada no início desta reportagem, é um desses exemplos de pessoas que foram pegas de surpresa. Aos nove anos, começou a sentir fortes dores de cabeça. A família a levou ao médico, mas não houve nenhum diagnóstico. Passaram-se meses de dor até que ela fosse parar no hospital já sem enxergar nada. Estava com um tumor na cabeça, que, mesmo após a cirurgia de remoção, levou consigo toda a sua visão. Pouco tempo depois, Verônica recuperaria 5% do que perdera e assim ela permanece até hoje.
Na época em que perdeu a visão, Verônica se recorda que as demais crianças não queriam mais brincar com ela. “Elas tinham medo de ficar cegas também”, diz. A escola, ela conta, quase lhe foi tirada também. “Minha avó era quem tinha de me levar e buscar todos os dias, mas ela foi ficando cada vez mais cansada”, conta ela, que perdera a mãe muito cedo e fora criada pela avó. “Até que ela me disse que não me levaria mais”. Aquele seria, de fato, o primeiro grande desafio de Verônica. “Eu podia ficar em casa para sempre, ou encarar meu medo”, diz. “Então eu disse à minha avó que ia sozinha. Comecei a descer as escadas de casa na esperança de que ela estivesse atrás de mim, mas ela não estava. Me lembro de chegar lá fora, olhar para o portão e dizer ‘eu vou”. Chegando na escola, a primeira coisa que Verônica fez foi ligar para a avó e contar onde conseguira chegar. Depois disso, seus passos ficaram cada vez mais largos.
Frequentar as aulas de balé seria seu segundo grande desafio. “Eu não tinha apoio da minha família, mas tinha a vontade de dançar”, conta. Sozinha, ligou na escola de balé de Fernanda, perguntou sobre um ponto de referência, pegou o ônibus e foi. Chegando no ponto, pediu ajuda a um taxista que, por conhecer o bairro, sabia onde era o local. “Ele me deixou na porta da escola. E eu nunca mais parei”. Hoje, Verônica é aluna e professora de balé e dá aulas de braile também.
“O balé me levou à Paralimpíada”
Marina Guimarães, além do apoio de Duke, também conta com sua família. “Eles sempre me apoiaram. Mas quando eu era criança, fazia natação também e meus pais diziam que com a natação eu poderia ir para a paralimpíada”, lembra ela. Mesmo assim, decidiu deixar a piscina e se dedicar somente aos palcos. O que ela e nem sua família esperavam é que o balé, este sim, lhe levaria aos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012. “Fizemos a apresentação de encerramento dos jogos”, conta. “Foi super difícil, porque a música tinha um delay e ouvíamos no fone de ouvido em um tempo, e fora do fone, em outro. Não podíamos usar os dois fones, pois tínhamos de escutar também os professores, que ficam na coxia, nos dando as orientações”, lembra ela. No final, deu tudo certo. “Acabei, enfim, indo às paralimpíadas. Acho que de alguma maneira era para eu estar lá”.
Chegar na escola de balé de Fernanda Bianchini é entrar em um outro universo. Principalmente se não estiver acostumado a conviver com um dos 6,5 milhões de brasileiros que têm alguma deficiência visual. Na entrada, a equipe que trabalha na escola logo aconselhou a reportagem: “se vocês vão tirar foto, fiquem no canto direito da sala, porque as alunas podem esbarrar nos equipamentos e derrubar sem querer”. Dá medo mesmo. Mas não é pelos equipamentos que podem cair. É de não saber usar os termos corretos, de sentar ou parar em algum lugar que é passagem das alunas, de brincar com o cão Duke enquanto ele está em horário de trabalho. Parece que ali todo mundo tem algum tipo de medo. Só as bailarinas que não têm.
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