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Teatro negro e brasileiro por Cristiane Sobral

Cristiane Sobral

Pesquisas acadêmicas têm mostrado que os artistas afro-brasileiros ainda estão marginalizados

Pesquisas acadêmicas têm mostrado que os artistas afro-brasileiros ainda estão marginalizados no campo da arte pela pouca visibilidade ou pelos critérios de exclusão marcantes nas produções distantes do universo canônico.

Como personagens, raramente são protagonistas, ou mesmo secundários, e quando surgem, estão caracterizados de forma estereotipada. Fazem parte de um grupo restrito, que no caso brasileiro, contribui de forma mínima para a representação dos 97 milhões de afro-brasileiros, segundo o último censo do IBGE (2010). A nação brasileira, com um quadro de desigualdade e exclusão encoberta pelo reforço cotidiano do mito da democracia racial, possui um espaço potencial para o encontro com o espectador de um teatro de contornos estéticos a proclamar as matrizes culturais constitutivas da história da resistência negra.

Não é fácil sobreviver como artista cênico no Brasil. Muito menos como artista negro. Um teatro a reafirmar a identidade negra no Brasil apresenta-se como um espaço de resistência. Para as atrizes negras, máximo desafio. Muitas searas de preconceito estão em questão.

Mas o caro leitor deve estar se perguntando que é teatro negro? Existe um teatro branco? Pense em quantas peças de teatro você já assistiu na vida? Quantas contavam com atores e atrizes negras em cena? Que personagens representavam? Que histórias essas peças contavam? Agora pense que viverá por um dia o papel de um diretor de teatro de renome e que estará escalando atores para interpretar o papel de um renomado médico dono de uma clínica em uma grande metrópole. A que etnia pertence o médico? Qual a sua cor?

É possível definir o Teatro negro como um movimento de resgate dos valores da negritude brasileira, da sua própria cultura, dos meios de criação e reflexão sobre a experiência negra. Por meio do estudo e da análise de diversas produções do teatro brasileiro em vários momentos da história oficial, é fácil perceber que a personagem negra raramente aparece, o que caracteriza a invisibilidade da população negra no campo social, ou então aparece de forma estereotipada, com alguns lugares de representação e identificação cristalizados desde o período da escravatura.

As personagens negras, portanto, são apresentadas a partir do ponto de vista eurocêntrico e dominante, quase nunca em um contexto centrado na experiência negra. Na maioria das produções teatrais, os papéis destinados a negros e negras estão limitados a um contexto de subalternidade marginalidade e servidão que ignora a vida destes seres humanos que vieram ao Brasil e outros países da diáspora em situação de escravidão. Homens e mulheres de origens diversas com muitas histórias de lutas e vitórias, civilizações, cultura e conhecimento além da chaga da escravidão. A memória da resistência negra tem sido silenciada. Os caminhos da participação negra no teatro e do teatro negro têm uma trajetória diferente ainda não totalmente explorada pela historiografia oficial. Isso pode ser explicado historicamente consultando as origens da participação dos artistas negros na cena teatral brasileira. Invisibilidade não quer dizer inexistência. Em outra ocasião espero poder abordar aqui o universo das companhias de teatro negro no Brasil de hoje que se estendem por todas as regiões do país com as mais diversas poéticas cênicas. O teatro negro brasileiro está vivo e atuante em que pesem as dificuldades de patrocínio e demais desafios do teatro de grupo.

Para reconhecer a especificidade das manifestações do teatro negro brasileiro, é preciso entender seus códigos próprios, esses códigos terão que ser analisados dentro do contexto dessas produções e não poderão ser valorados a partir de critérios construídos e adotados como referenciais para outros sistemas culturais. A especificidade do teatro negro tem um destino intencional, que precisa ser reconhecido como o seu valor, a sua beleza, o seu sentido de beleza, muito além do sistema universal de beleza, totalmente questionável, variável de acordo com os contextos culturais.

Todo teatro tem um destino. O teatro grego teve o seu, o teatro medieval também. O teatro elisabetano, sem dúvida, construiu cenários diante de um mundo com necessidades específicas. O diretor de teatro e dramaturgo Augusto Boal destinou a sua obra, isso é fato. O teatro africano é vivo e totalmente calcado na tradição. Existem inúmeras outras formas de fazer teatro. O teatro, forma de representação estética da realidade, está sempre a questionar o seu próprio tempo, a apontar caminhos. Sem esse olhar antropológico diante do fenômeno teatral, cairemos no equívoco de julgar como improcedentes ou inconsistentes todas as manifestações culturais que não atendam aos modelos hegemônicos.

Cristiane Sobral

Atriz, Escritora, Diretora da Cia de Arte Negra Cabeça Feita há 17 anos, Coordenadora de Modernização na Fundação Cultural Palmares/MinC.

Está em fase de conclusão de sua pesquisa de Mestrado sobre o Teatro Negro na UnB

Mestrado em Arte.

Blog: www.cristianesobral.blogspot.com

Contato: crisobral2@gmail.com

Créditos das fotos

Fotos do espetáculo “Estátuas de Sal” da Cia de Arte Negra Cabeça Feita. Em cena: Cristiane Sobral, Thiago Jorge e Zizi Antunes.

Dramaturgia: Silvia Paes.

Direção: Edson Duavy.

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