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Um camaleão não é um David Bowie, por Carlos Dias Lopes.

David Bowie

Piadas de redes sociais à parte, o que me motiva a escrever este artigo é a grande quantidade de textos sobre David Bowie publicados após sua morte sem qualquer informação original e relevante.

Em quase todos havia a comparação com o pobre lagarto da família dos iguanídeos.

É um clichê quando se trata de escrever sobre o músico inglês dos olhos desencontrados. E clichês servem mais a encobrir e do que a informar, induzem mais à preguiça do que instigam a curiosidade.

O resultado é que aqueles que conheciam apenas superficialmente David e sua obra perderam excelente oportunidade para saber mais sobre este grande artista pop em atividade há meio século.

Bowie estava longe de ser um grande músico. Também não era um pensador sofisticado. Tão pouco um artista original. O que David fez de maior em sua vida de artista foi inventar uma maneira de sobreviver como… artista, para que o homem por trás dele pudesse viver e morrer dignamente como qualquer outro ser humano.

Sim, consideremos que o idoso britânico David Robert Jones morreu no dia 10 de janeiro de 2016 aos 69 anos como qualquer um de nós poderia ter morrido: de doença ruim.

Grandes como Elvis Presley e Michael Jackson morreram pelo motivo de serem o que eram: Elvis Presley e Michael Jackson, personalidades maiores do que a vida.

Morreram de dentro para fora, desmilinguidos pela avassaladora engrenagem que os sustentava como estrelas cintilantes, da qual todos queriam tirar uma faísca do brilho. Aí incluídos os fãs, o público as multidões.

Mesmo John Lennon morreu de ser John Lennon, embora de causa externa.

Assim como Elvis e Jackson, Iggy Pop e Lou Reed quase sucumbiram à engrenagem. Nos anos 70, Bowie encontrou a ambos moral e artisticamente destruídos. Então, teve a idéia que o fez pioneiro e único: inventou roda própria para sua vida de artista preservando-se como homem e, por conseguinte, podendo continuar a exercer seu ofício… de artista. Brilhante!

A partir daí, não era David Bowie quem estava sob as luzes da ribalta, mas uma criação dele. Deu vida aos astros Ziggy Stardust, Thin White Duck, ao platinado cantor convidando “Let´s Dance”, ao Tin Machine; e os matou ele próprio ao fim de ciclos de sucesso, histeria e redundância, antes que as engrenagens o fizessem.

O leitor objetará: “Mas nem todos sucumbiram”, citando os exemplos de Mick Jagger e Ozzy Osbourne como gente da geração de Bowie que está muito viva por aí. É verdade. Mick e Ozzy fazem ginástica todo dia para se apresentarem saltitantes sobre um palco. Mas são como palhaços do próprio circo, repetindo com insistência o mesmo número sem graça. Artisticamente morreram de inanição ainda no século passado.

Bowie deu muito duro na vida até conseguir virar um dos maiores rock stars do Ocidente. Começou pintando parede de estúdio e servindo de iguaria sexual a executivos de pequenas gravadoras londrinas (aquele que desse uma chance ao jovem David, levaria de brinde a possibilidade de transar com ele). Fez até espetáculos mambembes de mímica. Alguns de seus discos são musicalmente toscos. Pode-se afirmar isto até mesmo de “Rise and Fall of Ziggy Stardust…”, que o alçou à condição de lenda em 1972. Outros são fracassos reconhecidos como “Tonight” e “Never Let Me Down”. E houve a megaturnê da gigantesca “Glass Spider”, sob a qual dividia com atores e dançarinos uma cena abertamente kitch.

Não era David Robert, eram suas criações. Com elas, as boas e as nem tanto, o artista Bowie conseguiu se equilibrar entre Arte e comércio, performance e marketing, escapando ao final com a dignidade intocada, a saúde em razoável estado e muito dinheiro no bolso.

Em público morreu embaixo da pele de sua última personagem, Lázarus, causando grande impacto com as imagens em tons frios de um quarto onde um homem combalido se contorce em espasmos, flutua e some dentro de um armário de madeira. O clipe alcançou milhões de acessos nas redes sociais.

Lázarus ressuscitou para as multidões o artista Bowie, recluso há mais de uma década, enquanto David Robert Jones morria em discrição, como uma pessoa ordinária.

Carlos Dias Lopes é músico e jornalista. Considera “Low” (1977) o melhor e mais influente disco de David Bowie