Senado Memorável: Sebastião Azevedo e o legado da Família Cegrafiana
Tempo de Leitura – 9 minutos
“Família Cegrafiana” tornou-se uma definição inseparável da caminhada profissional de Sebastião da Silva Azevedo dentro da Gráfica do Senado Federal. Natural de Espera Feliz, o antigo servidor converteu a experiência adquirida ainda jovem nas oficinas tipográficas cariocas em uma trajetória marcada por aperfeiçoamento técnico, liderança administrativa e participação decisiva na modernização industrial do Senado. Além disso, sua história acompanha uma fase importante da evolução das artes gráficas brasileiras, atravessando o período da composição manual até os sistemas industriais de impressão em cores.
Filho de cafeicultor, Sebastião nasceu em 22 de setembro de 1950. As primeiras recordações da infância remetem ao ambiente rural mineiro, cercado pelos cafezais cultivados pela família. Entre as imagens preservadas na memória aparecem a colheita do café, o beneficiamento dos grãos e a intensa floração branca das plantações, comparada por ele aos ipês e às cerejeiras. Entretanto, a morte prematura do pai modificou profundamente a vida familiar. Aos seis anos de idade mudou-se com a mãe e o irmão para o Rio de Janeiro, cidade que se tornaria fundamental para sua formação humana e profissional.

Posteriormente, o ingresso na Escola de Artes Gráficas do SENAI abriu caminho para sua especialização técnica. O curso profissionalizante de Tipógrafo durou 18 meses e reunia atividades práticas com estudos ligados à história gráfica, famílias tipográficas, composição visual e cálculos técnicos aplicados à paginação. Depois da formação, Sebastião atuou durante três anos em oficinas gráficas e tipografias cariocas como Compositor Manual, consolidando experiência numa época em que o setor exigia habilidade artesanal e enorme precisão operacional.
Tabela de conteúdos
- Senado Memorável: Sebastião Azevedo e o legado da Família Cegrafiana
- A chegada a Brasília ampliou os horizontes profissionais
- Capacitação técnica impulsionou a modernização da Gráfica
- Gestão inovadora fortaleceu o ambiente industrial
- Assessoria estratégica ampliou sua atuação institucional
- Senado Memorável resgata quase cinco décadas de dedicação
- Cultura Alternativa Agradece
A chegada a Brasília ampliou os horizontes profissionais
No dia 28 de julho de 1971, Sebastião desembarcou em Brasília acompanhando o senador Danton Jobim para trabalhar na Gráfica do Senado. A efetivação ocorreu em setembro daquele mesmo ano. Apesar da bagagem acumulada na tipografia tradicional, foi contratado inicialmente como Auxiliar de Paginação e lotado na Seção de Fotolito, área responsável por um novo sistema de impressão que começava a transformar os processos gráficos da instituição.
Naquele período, a Gráfica buscava elevar a qualidade da reprodução de imagens e modernizar seus métodos industriais. Sebastião iniciou suas atividades como Retocador de Fotolito. Pouco tempo depois passou pelo setor de cópia de chapas e, movido pela vontade de crescer na carreira, transferiu-se para a área de fotografia de fotolito. Anos mais tarde alcançou a função de Fotógrafo Gráfico, considerada estratégica para a cadeia produtiva da impressão.
Além disso, a década de 1970 apresentou um enorme desafio técnico: a reprodução de fotografias coloridas. Nem a Gráfica do Senado nem o mercado gráfico brasiliense dominavam plenamente aquela tecnologia. Curioso e determinado, Sebastião, ao lado do colega Sebastião Vilas Boas, iniciou testes baseados em catálogos técnicos enviados junto aos novos equipamentos adquiridos pela instituição. O empenho despertou o interesse da Diretoria, que enviou ambos para treinamento na representação da Kodak em São Paulo e posteriormente para estágio na Laborgraf, referência nacional em impressão colorida.

Capacitação técnica impulsionou a modernização da Gráfica
Assim que retornaram do treinamento, os dois profissionais colocaram em prática os conhecimentos adquiridos. Os resultados apareceram rapidamente e permitiram à Gráfica do Senado atender demandas envolvendo reprodução fotográfica em cores, avanço considerado altamente moderno naquele contexto histórico. Consequentemente, Sebastião passou a integrar um grupo de servidores diretamente associado à transformação tecnológica da produção gráfica legislativa brasileira.
Paralelamente ao crescimento funcional, iniciou o curso superior de Comunicação Social no CEUB com bolsa integral concedida pela Fundação Educacional do Distrito Federal. Entretanto, um episódio marcou negativamente sua trajetória acadêmica. O Diretor Industrial decidiu expandir os serviços gráficos coloridos para o segundo turno e Sebastião foi designado para a nova escala. Mesmo explicando sua condição de estudante noturno e bolsista integral, não conseguiu flexibilização. Como consequência, precisou trancar a matrícula e perdeu o benefício estudantil, concluindo a graduação apenas dois anos depois mediante recursos próprios.
Outro momento delicado ocorreu durante o episódio conhecido como “Trem da Alegria”. Naquela fase houve suspensão salarial por três meses e grande insegurança sobre a continuidade das contratações realizadas anteriormente. Existia inclusive o risco de encerramento das atividades da Gráfica. Contudo, segundo Sebastião, a chegada de gestores como José Lucena Dantas e posteriormente Agaciel Maia devolveu estabilidade administrativa ao ambiente interno. A crise, paradoxalmente, fortaleceu ainda mais os laços entre os trabalhadores, consolidando o sentimento coletivo posteriormente identificado como “Família Cegrafiana”.
Gestão inovadora fortaleceu o ambiente industrial
No início de 1981, a chegada de Marcos Vieira à Diretoria Executiva inaugurou um período de profundas transformações. Ao lado de dirigentes como Francisco Olímpio Pereira Marçal, Mário César Pinheiro Maia e Geraldo de Brito, foi implantado um Plano Diretor que modernizou cargos, salários, instalações físicas e políticas de qualificação profissional. Nesse cenário, Sebastião assumiu a chefia da Seção de Fotolito.
Durante sua administração foram implantadas novas técnicas de montagem, adquiridos equipamentos modernos e promovidos cursos de aperfeiçoamento destinados aos servidores. Além disso, Sebastião participou diretamente da elaboração do novo Plano de Classificação de Cargos e Salários, contribuindo para institucionalizar setores técnicos ligados à fotomecânica, fotografia, montagem, cópia e retoque.
Posteriormente, em 1988, foi convidado para atuar na Coordenação de Produção como Supervisor de Controle. Sua bagagem técnica e visão ampla do processo industrial colaboraram para a reorganização operacional da produção gráfica. Pouco tempo depois participou da criação da Coordenação de Planejamento Gráfico, ao lado do servidor Max Bassan. A dupla passou a planejar toda a logística de pré-impressão, impressão e acabamento, definindo máquinas, matrizes, formatos e controle rigoroso do papel, principal insumo do setor.

Assessoria estratégica ampliou sua atuação institucional
Em 2001, Sebastião recebeu convite do Diretor Industrial José Farias Maranhão para atuar como assessor da Diretoria. Inicialmente relutou, afirmando ser homem de “chão de fábrica”. Ainda assim, aceitou o desafio e passou a desempenhar funções administrativas, técnicas e estratégicas.
Entre suas atribuições estavam o atendimento aos usuários da Diretoria, apoio às chefias técnicas, participação em reuniões e auxílio na descrição de equipamentos e insumos destinados aos processos de aquisição. Além disso, participou da elaboração de um Catálogo de Máquinas e Equipamentos Gráficos contendo especificações detalhadas e parâmetros operacionais. Outro projeto relevante foi o “Cegrafinho”, revista em quadrinhos voltada aos visitantes da Gráfica do Senado. Sebastião produziu os textos enquanto o servidor José Tadeu Alves ficou responsável pelas ilustrações.
Posteriormente, integrou comissões de licitação, promoções e gestão de contratos terceirizados. Mesmo exercendo funções estratégicas, decidiu retornar em 2011 à Coordenação Geral de Produção para reassumir atividades diretamente ligadas ao setor operacional, encerrando sua jornada funcional na chefia do segundo turno.
Senado Memorável resgata quase cinco décadas de dedicação
No início de 2013, Sebastião percebeu que havia chegado o momento da aposentadoria. Somando os anos trabalhados no Rio de Janeiro, o período exercido em atividades insalubres e a longa permanência na Gráfica do Senado, acumulava aproximadamente 47 anos de contribuição. O pedido de aposentadoria foi protocolado em outubro daquele ano e publicado oficialmente no mês seguinte.
Entretanto, a despedida não representou rompimento emocional com a instituição. Ao recordar sua caminhada, Sebastião enfatiza o orgulho pelo trabalho desenvolvido e o profundo respeito pelos colegas que dividiram experiências ao longo das décadas. Além disso, faz questão de agradecer à esposa pela compreensão diante das extensas jornadas profissionais que frequentemente ultrapassavam o horário doméstico e reduziam momentos de convivência familiar.
Ao final dessa história permanece um sentimento inequívoco de pertencimento. Para Sebastião da Silva Azevedo, a Gráfica do Senado não foi apenas um ambiente profissional. Tornou-se espaço de crescimento humano, realização pessoal e construção de vínculos duradouros. Um legado resumido por ele em poucas palavras: “Sou um ser essencialmente Cegrafiano”.

Cultura Alternativa Agradece
A equipe do portal Cultura Alternativa agradece profundamente ao senhor Sebastião da Silva Azevedo pela generosidade em compartilhar memórias, experiências profissionais e detalhes históricos fundamentais para a construção desta edição especial do Projeto Senado Memorável. Seu relato preserva parte importante da evolução técnica e humana da Gráfica do Senado Federal, contribuindo para a valorização da memória institucional brasileira.
Além disso, registramos nosso reconhecimento ao trabalho dedicado de Fernando Araújo, coordenador da equipe de Criação & Arte, pelo empenho contínuo na organização, produção editorial e valorização cultural das histórias que integram o acervo do Cultura Alternativa.
Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa

