Sarau Cultura Alternativa 2026 com Anand Rao e André Coelho - Cultura Alternativa

Sarau reúne André Coelho e Anand Rao em música e poesia

Sarau Cultura Alternativa 2026 reúne André Coelho e Anand Rao em música e poesia

Tempo de Leitura: 8 minutos

Entre memórias, literatura, instrumentos, inteligência artificial e projetos para o futuro, o Sarau Cultura Alternativa 2026 mostrou como a criação artística pode acompanhar diferentes fases da vida

O Sarau Cultura Alternativa 2026 recebeu André Coelho para uma conversa em que música, literatura, tecnologia e experiências pessoais se cruzaram durante quase uma hora. Ao lado de Anand Rao, editor-chefe do Cultura Alternativa, o convidado percorreu o formato que orienta o projeto: ontem, hoje e amanhã. A trajetória apresentada, contudo, revelou algo que ultrapassa uma simples cronologia, pois mostrou como diferentes interesses podem se reencontrar quando alguém decide retirar antigos projetos da gaveta.

A abertura apresentou a estrutura de divulgação do Cultura Alternativa e, ao mesmo tempo, explicou a proposta do sarau, gravado pela internet para posterior circulação nas diferentes plataformas do grupo. O encontro ganhou rapidamente caráter musical, porém, quando Rao apresentou “Invisível”, composição recente que aborda a sensação de não ser ouvido e a experiência de se tornar socialmente invisível em uma realidade marcada por preconceitos.

Música apareceu antes da literatura

A relação de André Coelho com a música começou ainda na infância. A mãe gostava de cantar enquanto realizava as tarefas de casa, enquanto o pai, vindo do Rio de Janeiro, tinha forte ligação com a percussão e participou dos primeiros momentos do movimento que posteriormente se consolidaria na ARUC. O ambiente familiar, portanto, colocou instrumentos, ritmos e melodias no cotidiano do futuro escritor.

Aos 12 anos, ele ganhou do pai um violão que conserva até hoje. Aprender música naquele período exigia métodos muito diferentes dos atuais, pois não havia internet, aplicativos ou milhares de aulas disponíveis instantaneamente. Revistas de cifras, músicas retiradas de ouvido do rádio e conhecimentos compartilhados entre amigos, desse modo, formaram sua primeira escola.

A mudança da família para o Cruzeiro ampliou essa experiência. O contato com festas, carnaval e rodas de samba despertou, então, o interesse pelo cavaquinho. Vieram posteriormente o banjo e diferentes instrumentos de percussão, enquanto a experiência musical avançava também para a composição. A literatura, curiosamente, acabaria surgindo por esse caminho.

Das composições para os livros

Durante a faculdade de publicidade, André precisava desenvolver um produto e imaginou um “livro-presente”. Como precisava preencher suas páginas, decidiu transformar letras de músicas em poemas e acrescentar algumas crônicas. A experiência, entretanto, não permaneceu apenas como trabalho acadêmico e abriu espaço para uma produção literária que continuaria nos anos seguintes.

Em 2019, um encontro com integrantes da Academia Cruzeirense de Letras representou outro ponto importante. O músico e escritor aproximou-se da instituição e permaneceu ligado a ela, chegando posteriormente à presidência. Após quatro anos à frente da entidade, deixou o cargo em agosto de 2026, quando Rafael Fernandes assumiu a presidência, tendo Ana Carolina como vice-presidente.

A poesia apareceu também em um momento afetivo do sarau. Coelho recitou “Sorriso de Princesa”, texto que nasceu inicialmente como música dedicada à então namorada. Passados 35 anos, aquela “princesa”, entretanto, continua sendo sua companheira. A história, por isso, deu à leitura uma dimensão que ultrapassou a criação literária e alcançou a memória do próprio relacionamento.

Um acontecimento mudou a relação com o tempo

A parte mais pessoal da conversa surgiu quando André relatou ter sofrido um AVC em 16 de outubro de 2025. Segundo seu depoimento, a rapidez da esposa em levá-lo ao hospital e o atendimento recebido foram fundamentais. Ele permaneceu oito dias na UTI e enfrentou alterações na voz e nos movimentos do lado direito do corpo, mas relatou estar atualmente próximo de uma recuperação integral.

A experiência modificou, sobretudo, sua relação com os projetos adiados. Perceber a fragilidade da vida fez com que atividades deixadas para depois passassem a ocupar o presente. O bandolim, dessa maneira, voltou ao centro de sua rotina. Ele retomou atividades ligadas à orquestra de bandolins e voltou a estudar na Escola de Música, além de participar de coral e iniciar estudos de violino.

Essa retomada artística transformou a agenda do aposentado. Música, teoria, ensaios, escrita e instrumentos passaram novamente a fazer parte da semana, enquanto novos interesses surgiram. Entre eles está, inclusive, a impressão 3D, tecnologia que Coelho vem explorando para desenvolver objetos e até instrumentos e peças de criação própria.

Inteligência artificial entra no sarau

A tecnologia apareceu ainda por outro caminho. Rao apresentou uma experiência musical desenvolvida com inteligência artificial a partir de um poema autoral. A demonstração abriu, dessa forma, uma conversa sobre as possibilidades dessas ferramentas para quem escreve ou deseja experimentar música, mesmo sem dominar tecnicamente um instrumento.

Coelho afirmou enxergar a inteligência artificial como ferramenta de trabalho e criação, embora tenha ressaltado a importância da participação humana. Para ele, a tecnologia pode auxiliar processos, porém não deve substituir a inteligência pessoal. A discussão encontrou, nesse sentido, pontos de contato com a própria trajetória do convidado, marcada tanto por métodos antigos de aprendizagem musical quanto pelas possibilidades oferecidas atualmente pelo ambiente digital.

O encontro reservou ainda espaço para Brasília. Ao lembrar que a capital não possui mar, André apresentou versos que transformam o céu brasiliense em oceano e o barco de papel em veículo imaginário. Literatura, cidade e memória, assim, voltaram a se encontrar.

Assista à live

O encontro completo entre André Coelho e Anand Rao está disponível na TV Cultura Alternativa no YouTube. Assista à live e acompanhe, na íntegra, as músicas, os poemas, as histórias e as reflexões compartilhadas durante o Sarau Cultura Alternativa 2026.

Aproveite, também, para se inscrever na TV Cultura Alternativa e ativar o sininho de notificações. Dessa maneira, você será avisado sempre que publicarmos novos saraus, entrevistas, músicas, debates e outros conteúdos produzidos pelo Cultura Alternativa.

Compartilhe o programa com amigos e pessoas interessadas em música, literatura e cultura. A participação do público, além disso, fortalece a produção independente e amplia a circulação dos artistas, escritores e demais personagens que passam pela TV Cultura Alternativa.

Projetos saem da gaveta

O futuro apresentado no sarau já começou. Coelho revelou estar trabalhando em três livros, desta vez distantes de uma produção exclusivamente poética. Entre os projetos estão trabalhos de ficção, contos e uma obra dedicada à experiência vivida durante o AVC. Segundo seu relato, antes do episódio ele também enfrentou uma parada respiratória, circunstância que pretende reconstruir literariamente.

A conversa reforçou, desse modo, uma ideia que atravessou diferentes momentos da gravação: projetos permanentemente adiados podem nunca encontrar o momento considerado perfeito. A aposentadoria, as experiências de saúde e a retomada dos estudos fizeram André reorganizar prioridades e, consequentemente, transformar desejos antigos em atividades concretas.

O sarau foi dedicado à memória do professor Filemon Félix, falecido recentemente. Rao recordou a ligação do educador com a língua portuguesa, a literatura, as academias de letras e também com o Fluminense, além de lembrar, nesse contexto, um trabalho musical realizado anos atrás a partir de poemas do professor.

Ao final, o encontro deixou música, poesia e tecnologia em segundo plano diante de uma questão ainda mais ampla: o uso consciente do tempo. Entre bandolim, violino, livros, impressão 3D, inteligência artificial e novos projetos, André Coelho apresentou uma fase na qual o futuro deixou de significar espera. Passou, principalmente, a ser construído no presente.

Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa