Brinquedos com inteligência artificial conseguem conversar com crianças, memorizar preferências e adaptar respostas.
Entretanto, por trás de uma interação aparentemente inocente, surge uma pergunta: quem tem acesso às informações que a criança compartilha com uma máquina?
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou, em 13 de outubro de 2026, um alerta sobre os riscos desses dispositivos. A orientação, fundamentada em documento técnico publicado no dia 9, ganhou repercussão nacional em reportagem da Agência Brasil, em 21 de outubro.
Além da privacidade, os pediatras destacam possíveis impactos no desenvolvimento emocional e a necessidade de maior transparência dos fabricantes.
Segue o fio 🛝
- Brinquedos com inteligência artificial podem coletar informações pessoais das crianças, levantando questões sobre privacidade.
- A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta para os riscos desses dispositivos e pede maior transparência dos fabricantes.
- O tratamento dos dados deve respeitar a Legislação Brasileira, incluindo a Lei Geral de Proteção de Dados e o ECA Digital.
- As interações com brinquedos inteligentes podem impactar o desenvolvimento emocional das crianças, mas precisam ser acompanhadas.
- Famílias devem investigar quais dados os brinquedos coletam e como são tratados, garantindo a segurança da privacidade infantil.
O que os brinquedos com inteligência artificial fazem com os dados das crianças?
Imagine uma criança contando ao brinquedo que está triste, tem medo de alguém ou enfrenta dificuldades na escola.
Dependendo da tecnologia, o dispositivo pode captar sua voz, converter a conversa em texto e transmitir informações para servidores externos.
Nesse processo, os dados podem percorrer diferentes etapas:
- O microfone registra a fala da criança.
- O sistema processa a informação localmente ou pela internet.
- A inteligência artificial interpreta a solicitação e produz uma resposta.
- Conforme as configurações, o serviço pode armazenar conversas ou preferências.
- O fabricante define políticas de conservação, compartilhamento e exclusão desses registros.
Contudo, esse percurso não é igual em todos os produtos. Alguns processam comandos no próprio dispositivo, enquanto outros dependem de serviços na nuvem.
Por isso, os responsáveis precisam saber quais informações o brinquedo coleta, onde ficam armazenadas e por quanto tempo permanecem disponíveis.
Quando a inteligência artificial se transforma em companhia
Outro aspecto envolve a relação emocional entre crianças e máquinas.
Os brinquedos inteligentes podem utilizar expressões carinhosas, responder com aparente empatia e demonstrar interesse pelas experiências infantis.
Entretanto, essas respostas não representam sentimentos humanos.
Segundo a SBP, uma revisão científica publicada na revista Pediatrics aponta o risco de crianças interpretarem sistemas de inteligência artificial como amigos ou cuidadores.
Além disso, os efeitos dessas interações sobre o desenvolvimento socioemocional ainda carecem de estudos de longo prazo.
Isso não significa que toda tecnologia seja prejudicial. Porém, brincadeiras livres, amizades, leitura e convivência familiar continuam fundamentais para o desenvolvimento infantil.
Privacidade infantil: o que determina a legislação brasileira?
A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) determina que o tratamento das informações de crianças e adolescentes respeite seu melhor interesse.
Além disso, o ECA Digital, Lei nº 15.211/2025, em vigor desde 17 de março de 2026, ampliou as exigências de proteção no ambiente digital.
A legislação estabelece responsabilidades para fornecedores de produtos e serviços digitais abrangidos por suas regras. Entre as medidas estão mecanismos de proteção à privacidade e restrições ao uso de dados para publicidade direcionada.
Consequentemente, a responsabilidade pela segurança das informações não pode recair exclusivamente sobre as famílias.
Os responsáveis também podem solicitar informações sobre o tratamento dos dados, correções e, nas hipóteses previstas em lei, sua eliminação.
Publicidade e perfis de comportamento: quais são os riscos?
Uma conversa aparentemente simples pode revelar hábitos, preferências e aspectos da rotina familiar.
Caso o fabricante utilize essas informações para construir perfis, poderá identificar padrões de comportamento e interesses pessoais.
Além disso, sistemas conectados podem apresentar ofertas comerciais, assinaturas e mecanismos de engajamento.
Nesse contexto, a SBP recomenda atenção especial aos produtos que associam conversas abertas à coleta de informações pessoais.
A proteção deve começar no desenvolvimento da tecnologia, antes que possíveis problemas atinjam seus usuários.

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Como proteger a privacidade infantil nos brinquedos conectados?
Antes da compra, algumas perguntas ajudam a identificar riscos:
- O brinquedo possui câmera, microfone ou conexão com a internet?
- Quais informações coleta e por qual motivo?
- As conversas ficam armazenadas?
- O fabricante compartilha dados com outras empresas?
- Existe uma opção para apagar gravações e históricos?
- Há classificação etária e supervisão parental?
Depois da compra, vale revisar as configurações, atualizar o sistema e desativar recursos desnecessários.
Da mesma forma, é importante conversar com a criança sobre os limites da tecnologia.
Se o fabricante não apresentar informações claras sobre privacidade e segurança, a SBP recomenda escolher outro produto.
Em caso de irregularidades, as famílias podem procurar o fornecedor, o Procon, o Consumidor.gov.br ou a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
A infância não pode se transformar em um banco de dados
Os brinquedos inteligentes podem oferecer experiências educativas e novas possibilidades de interação. Contudo, inovação não significa automaticamente benefício.
Assim como ocorre com outras ameaças digitais, abordadas pelo Cultura Alternativa no artigo Ciberbullying: crianças não sabem como denunciar, informação e acompanhamento familiar ajudam a proteger a infância.
Portanto, o debate precisa ultrapassar a escolha individual dos pais e alcançar fabricantes, pesquisadores e autoridades públicas.
Afinal, uma criança pode esquecer o que contou ao seu brinquedo. Mas quem garante que a tecnologia também esquecerá?
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria: nota de alerta sobre brinquedos com IA, 13/10/2026
- SBP: Brinquedos digitais, orientações para famílias e pediatras, 09/10/2026
- Agência Brasil: Pediatras alertam para riscos de brinquedos com IA, 21/10/2026
- Agência Nacional de Proteção de Dados: ECA Digital
- Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, Lei nº 13.709/2018
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