A economia da cultura em tempos de pandemia

A economia da cultura em tempos de pandemia

A economia da cultura em tempos de pandemia


Sandro Schmitz dos Santos – Analista e Consultor Internacional, Doutorando em Economia pela SMC/Genebra, e, Sócio-Diretor da Austral Consultoria & Investimentos


Parece um paradoxo falar em economia da cultura durante um período tão crítico quanto o que estamos passando, tendo em visto que, desde março de 2020, o mundo está em stand by.

Apesar disso precisamos falar, debater, e, principalmente traçar os novos rumos da cultura não apenas nesta pandemia, mas no pós-pandemia, assim como preparar o cenário para o risco [real] de futuras situações semelhantes ou iguais. Antes de mais nada é fundamental delimitar o que seja economia da cultura.

Podemos definir economia da cultura como o ramo da economia que estuda a relação entre a cultura, em todos os seus setores, e os fenômenos econômicos. Preciso destacar que difere de economia criativa cujo conceito é mais amplo e abrange muito mais setores.

Para dimensionarmos a força deste ramo econômico de acordo com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) o setor cultural compõe 2.84% do PIB nacional, algo em torno de 170 bilhões de reais em números de 2019, e, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) representa 5.7% dos ocupados no Brasil.

A economia da cultura em tempos de pandemia

Em outras palavras, sim, cultura importa do ponto de vista econômico. A grande questão a ser manejada agora é como fazer a retomada?

Um dos pontos mais tensos da campanha de 2018 foi o financiamento da cultura pelo estado. Ainda que muitas críticas sejam legítimas, lembrem que ideologia pode pender para qualquer sentido, é essencial que o setor não dependa única e exclusivamente do financiamento estatal para o desenvolvimento de projetos culturais.

Infelizmente, no Brasil hoje, é possível afirmar que mais de 90% dos projetos culturais estão vinculados a leis de incentivo em algum nível federativo.

E, em virtude de vários entes federados não honrarem os compromissos assumidos e a União limitar o uso da renúncia fiscal, muitas empresas fecharam as portas a projetos aprovados nesses editais. É necessário buscar novas fontes de recursos. Mas, para isso é essencial mudar a cultura do setor artístico no país.

Temos que implementar o conceito de indústria cultural. Estabelecer programação de produções, continuidade. Buscar lucro. Não é feio lucrar, especialmente por um trabalho bem-feito.

Artistas, até onde sei, tem as mesmas necessidades das outras pessoas, comem, bebem, vivem, adoecem, enfim. Hollywood produz em torno de 700 filmes por ano, destes em torno de 20% são distribuídos em nível mundial, as vezes nem isto.

Em regra, os blockbusters financiam os filmes conceito e filmes B realizados por Hollywood onde testam roteiristas, técnicos, atores, e, todas suas equipes.

Existe um enorme desafio hoje, e, um enorme desafio na retomada. O país que menos gastou na pandemia usou 101% do PIB em 2020, ou seja, ficou em débito. Iremos ter tempos difíceis mesmo na retomada, pois as leis de incentivo, pois estas operam com renúncias fiscais e os orçamentos não irão ter muito espaço para efetuar estas renúncias.

Mas, existem soluções e irão ser encontradas. Apenas dentro de um viés colaborativo com o mercado irá ser possível estabelecermos uma retomada segura. Mas, é essencial se abrir ao diálogo, caso contrário, não há muito a ser feito.