Literatura – Por Ediney Santana

Conto Literário

Literatura

O diabo apareceu em minha porta, tinha cartão de crédito, duas lindas prostitutas, joguei água benta, a mesma água benta do meu avô Leó que lá nas matas dos nossos sertões salvou nossas mães da solidão de morrem na infância, caminho entre árvores tristes da Praça da Purificação, minhas saudades envelhecidas cantam teu nome.

Hoje encontrei calangos que vivem no meu quintal, já não sentem medo de mim. Me olham como se tivessem sempre de luto, eterno e trágico luto, os calangos e meus dois Cachorros, Perséfone e Francisco são meus melhores amigos em Brasília.

Não gosto da Clarice Lispector, sinto sono e cansaço quando leio suas histórias, mas seus olhos de tão profundos e trágicos  me comovem. Hoje no meu quarto aconteceu o congresso de todos solitários do mundo, mil línguas se lambiam na babel sagrada do amor que só os solitários sentem.

Quem anda sobre águas não tem medo do fogo que é outro corpo sangrando amor em outra alma, hoje no meu quarto aconteceu o congresso internacional dos corações felizes, no canto da sala, olhos iluminados , corações sagrados.

Literatura: quero caminhar ao teu lado quando a noite chegar, a Bahia é tão triste, tudo tão gelado que se derrete ao calor do meu coração a bater pertinho do seu, não morre quem se faz vida para além disso que somos, vivemos alma e literatura barroca.

Não me espanta meu lado mal, não me traz orgasmo meu lado iluminado de borboletas, beijo a navalha e me masturbo olhando a fotografia triste de um corpo sem carne, me abraça gametas e pelo chão fica meu amor, olho meus dedos e mãos sujas de Via-Láctea. Quem sabe de mim sou eu.

Sou eterno gerúndio intransitivo, minha língua roça canteiros selvagens, nada que sou é perfeito, mas amo corações nus como o meu tão somente também é. Quando chega a noite sinto tanta falta de você, literatura dentro de mim, olhos abobalhados de quem sabe que amar não é o mesmo que ser feliz.

A música toca, alguém faz aniversário.  Olho a serpente na parede do meu quarto, tudo tão lisérgico quanto Tony Maro inventando canções para sua curta vida assassinada, tudo tão barroco quanto Dinho Fagundes revivendo renascimentos improváveis nesta Bahia triste triste triste tão triste e triste absolutamente triste como os olhos de quem escapa de um terremoto e não sabe se ainda vivo ou morto.

✔ Por Ediney Santana, para o Cultura Alternativa

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📍 **Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha do Cultura Alternativa. 📍

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