Exclusivo – Coca-cola azul e o coração verde brasileiro, por Fabiana Carvalho

Começo este texto com espanto e curiosidade.

 

O espanto se deve à minha sensação de, pela janelinha do avião, avistar, pela primeira vez, a grandiosidade brasileira materializada por aquela “coisa” famosa conhecida de nome pelo mundo todo: a Floresta Amazônica. Eu me senti meio índia, só que ao contrário. Uma índia da cidade sem contato com aquilo que poderia ser comum. Talvez sejamos mesmo uma “civilização-descivilizada”. Os olhos brilham de curiosidade, é como ver a neve pela primeira vez. A gente que mora na “cidade grande”, muitas vezes nem percebe nossa proximidade com o natural de onde viemos e de nossa responsabilidade sobre tudo. Enxergar assim, a olhos nus, e não em um momento de propaganda da Amazônia da tv, é de espantar. Espantar primeiramente com a diversidade e tamanho do nosso Brasil e que aquela “coisa verde”, designada como o maior bioma (um conjunto de diferentes ecossistemas, que possuem certo nível de homogeneidade) do planeta, está bem aqui, no meu País, diante das minhas vistas. Eu me senti no livro “Brasil, país de futuro”, do austríaco Stefan Zweig, ao descrever o Brasil como um gigantesco território com suas florestas verde-escuras e sussurrantes e seus rios ritmicamente sonoros. Sem falar que esta floresta também abriga a maior bacia hidrográfica do mundo, e é nela que se encontram Rio Negro e o Rio Solimões. Não, não é só uma dupla sertaneja, é o encontro das águas claras e escuras que se misturam em meio à floresta. 

Que aliás, ao contrário do que se propaga por aí, o rio Amazonas é o mais extenso do mundo, não o Nilo. O Amazonas supera o Nilo em 140 quilômetros. 

Fui a trabalho, e por isso não tive tempo e a agenda não contemplou visita à este cartão postal das águas, mas, gentilmente, no hall do hotel que fiquei hospedada no centro de Manaus, ganhei uma caixinha com os postais da cidade e um deles era o famoso encontro das águas.

E aí me vieram mais curiosidades fazendo-me sentir uma índia reversa novamente. Assumo, eu não sabia! A Amazônia, chamada de Amazônia legal, compreende 9 estados, entre eles, o Maranhão. Caramba, Maranhão faz parte da Amazônia! Sim, faz por conta das delimitações legais em prol do desenvolvimento deste bloco verde.

Agora sobre a metrópole amazonense, Manaus. Bem, a palavra “manaus” significa “mãe dos deuses”, na língua dos índios Manaós. Ela é uma cidade interessante, uma cidade que oscila com a simplicidade do povo e com a projeção internacional das riquezas naturais. O povo tem uma feição parecida e muito próxima aos traços indígenas (oh!). Lembrem-se da minha “indiosidade ao contrário”, por isso, para mim, essas percepções devam ser registradas. 

No centro da selva amazônica, ela é uma cidade que conserva monumentos de requinte e estilo europeus. Eu achei lindíssimo o teatro, suntuoso, imponente e me contaram que a acústica é sensacional. E como todo centro urbano, pude perceber a pulsação da cidade. Graffitis curiosos, que não fotografei, mas vi repetidas vezes, onde chamavam-me a atenção nos muros coloridos, desenhos de uma mistura de et com índios (talvez expressasse a alma de turistas urbanoides como eu). Carrinhos de comida popular espalhados nas praças mostraram a relação e semelhança com o que já estamos acostumados a ver nos grandes centros das capitais brasileiras.

Sobre comida, em um jantar típico amazonense nos serviram “pirarucu na casaca”, esse peixe de água doce em uma receita que o “veste” com banana. E serviram, ainda, arroz com pato ao tucupi (o pato é previamente assado e após destrinchado é levado a uma fervura leve num molho de tucupi, pimenta de cheiro, cheiro verde, alfavaca) e jambu, uma erva típica da região. E de sobremesa um sorvete de açai, e diga-se de passagem, que açai! O melhor que já provei.

Não visitei, mas ouvi falar muito por lá da Zona Franca de Manaus, atual motor da economia amazonense. Na oportunidade, visitei uma grande amiga que mora lá, Luciane, que me recebeu com a receptividade típica da região. Ficaram faltando algumas coisas nesta viagem, conhecer a Zona Franca, brincar e tirar foto com o boto rosa e tomar uma coca-cola em latinha azul. Em Parintins, na época do festival dos bois,  a rivalidade é representada pelas cores Azul (Caprichoso) e Vermelho (Garantido), e para marcar as diferenças, neste festival folclórico que acontece anualmente em junho, eles fazem coca-cola do rótulo azul! Ironia ou não, é bom lembrar que não basta ter a maior bacia hidrográfica do planeta, tem que ser o único lugar do mundo com coca azul! Americanismos baratos a parte, foi muito bom conhecer o coração verde do Brasil.

 

 

Coca-cola azul e o coração verde brasileiro, por Fabiana Carvalho

* (Colaboraçao ao Cultura Alternativa  com texto de sua autoria)