Clarice Lispector – por Rosa Ramos

Clarice Lispector

Clarice Lispector

Há exatos 100 anos, nascia na Ucrânia pós-guerra civil Clarice Lispector, cânone da literatura brasileira. Diante da perseguição aos judeus na época, a escritora chegou, aos 2 anos, ao Nordeste do Brasil, onde viveu até os 14 anos de idade.

No dia de seu centenário, celebrado nesta quinta-feira (10), a autora se torna cidadã pernambucana, título concedido pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe).

Tenho que ter paciência para não me perder dentro de mim: vivo me perdendo de vista. Preciso de paciência porque sou vários caminhos, inclusive o fatal beco-sem-saída. [Lispector, Um Sopro de Vida]

É sempre na inquietude que nos perdemos de nós mesmos. Clarice vem nos dizer que se perde de vista, e é isso: perder de vista a si mesma é tornar-se invisível aos próprios sentidos.

Recentemente, troquei uma foto do meu perfil no Facebook por uma imagem de Ashley Mackenzie, onde a figura feminina começa a desmanchar-se pelos olhos, torna-se cega por dentro, deixa de enxergar a si mesma.

Tanto em Marcel Proust quanto em Machado de Assis, os olhos femininos remetem ao mar. No primeiro, em Albertine, de A Prisioneira, lemos “Seus olhos azuis – mais alongados – não tinham guardado a mesmo forma; continuavam sim da mesma cor, mas pareciam ter passado ao estado líquido.

A tal ponto que, quando os fechava, era como quando com cortinas se impede de ver o mar”, remetendo ao impedimento, ao emparedamento (cortinas) que a maioria das mulheres sofrem ao longo da vida, daí a necessidade de “paciência”, como nos diz Lispector.

 Clarice Lispector

Em Machado, temos Capitu, de Dom Casmurro, com a mesma referência trazida em “seus olhos de ressaca”: “Traziam não sei que fluído misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.

Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me”.

Aqui, esta que se desmancha em ressacas é valente, ‘misteriosa e enérgica’ como uma tempestade em alto-mar, mas ainda assim, mulher a que se rotula e que termina por ser a vilã da história.

Desmanchar-se de e em si mesma é esse retorno ao mar, ao líquido útero, ao confortante lugar de onde saímos, ainda que para trilhar caminhos que nos levem ao “fatal beco-sem-saída.

Clarice é sempre dividida em muitas mulheres, muitos caminhos. Em Perto do coração selvagem, ela diz: É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque quando tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

Livro escrito entre 74 e 77, pouco antes de sua morte, nada mais precisava de sentido, apenas a explosão dos sentimentos, na maioria das vezes, duros, áridos. Em algum de um sopro de vida, o eu-lírico declara: De repente as coisas não precisam mais fazer sentido.

Satisfaço-me em ser. Tu és? Tenho certeza que sim. O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência. De certo tudo deve estar sendo o que é.

Rosa Ramos

Publicação enviada em 2015.