FAROESTE À BRASILEIRA, por Paulo Lima

Bacurau filme escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles .

Num filme com tantas camadas de representação e referências como “Bacurau”, é natural que se tenha também iguais camadas de recepção da parte do espectador.

A ideia de obra aberta encontra ali pleno sentido, com seu repertório de significados farto e variado que vem à tona aos poucos.

Os diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles investiram numa colagem de gêneros diversos, tendo como microcosmo uma pequenina cidade do interior do sertão nordestino, para estabelecer a metáfora da violência colonial, do grande invasor opressor versus o pequeno oprimido, que resiste.

Bacurau, o povoado, é a alegoria de um processo histórico em que dominadores encontram a resistência dos dominados. 

A mescla de estéticas cinematográficas, com destaque para o faroeste, projeta o longa-metragem a anos-luz de distância da mera representação naturalista. 

A arte transfigura o real prosaico já visto e revisto não apenas no nosso cinema, mas na nossa literatura. Deus e o diabo sob as hostes de Glauber, Lampião e John Ford. 

Ou, em termos de literatura, a violência dos meridianos de sangue de Cormac McCarthy encontrando a secura de Graciliano Ramos.

Bacurau é um lugarejo pacífico, vivendo sua própria dinâmica de desejos e tristezas, até que se torna alvo de um grupo de turistas americanos psicopatas mancomunados com um inescrupuloso político.
Em suas ações, os invasores contam com a parceria de um casal de brasileiros do Sudeste.

O grupo de estrangeiros interfere no radar e tira Bacurau do mapa, corta a comunicação e a luz, isolando o vilarejo, com o objetivo de liquidar seus moradores. Depois de sofrer muitas perdas, a população se dá conta da ameaça e prepara-se para a luta.

Idealizado em 2009, o roteiro ganhou uma nova dimensão no Brasil atual. Pelos elementos colocados, é como se conversasse diretamente com a violência física e simbólica a que o país vem sendo submetido com a ascensão da extrema-direita, exercendo sobre quem vê o filme um efeito catártico. 

Mas seu apelo é universal. É em Bacurau e é no México fronteiriço aos Estados Unidos.

É em Bacurau e nas selvas do Vietnã bombardeadas pelo napalm dos americanos. 

É em Bacurau e na Argélia enfrentando o colonizador francês. É a astúcia sorrateira do mandacaru surpreendendo as modernas armas de destruição.

Nesse insólito e potente faroeste à brasileira, invertem-se os papéis tradicionais dos mocinhos que dizimam índios. No país de ponta-cabeça, o “happy end” contempla os oprimidos. Ao menos no cinema.

Trailer:

Paulo LimaPor Paulo Lima
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