GUILHERME RODRIGUES – Poemas como pedras rolantes

Gui

GUILHERME RODRIGUES – Poemas como pedras rolantes

 

Nossa poesia vive um dilema. Não está  presente na vida das pessoas. As vozes poéticas contemporâneas existem, mas estão escondidas nas gavetas e pequenas publicações. Muitos e muitos volumes são lançados e não extrapolam sua ilha.  Faltam leitores, promotores/divulgadores, críticos de poesia. E mais, faltam, principalmente, poetas que compreendam a dimensão da arte poética.

É compreensível que, nesse campo minado da invenção, muitos nomes surjam e quase nenhum conserve sua voz ativa. Ainda mais que não há espaço para o poeta e a poesia no dia-a-dia, no corre-corre exacerbado das pessoas que precisam e querem ganhar dinheiro. O poeta tenta mostrar o seu trabalho, sua voz e sua verve, e logo é engolido pelo que está estabelecido, virando padre, pastor ou professor acadêmico. Isso quando não se transforma em letrista, apresentador de televisão ou político. Na maioria das vezes, todos priorizam outras “profissões” e se transformam em poetas de gabinetes, quando não poetas de Internet. E passam a vida, deixando a vida pastar.

Mas toda essa introdução é para falar de um poeta vindo de Manga/MG que apareceu em meu caminho em Maio de 2002 e nunca mais saiu das minhas “retinas”. Inclusive, é esse o termo que dá título ao livro que se encontra comigo para eu tecer algum comentário. E eu realmente não sei o que fazer. Tenho todas as dificuldades, e mais algumas que invento, para criar prosa sobre poesia.

Guilherme Rodrigues me apareceu no Auditório do Centro Cultural Hermes de Paula, durante o projeto Palavras & Ideias/Grandes Escritores, quando recebíamos meu saudoso amigo Roberto Drummond, que, naquela noite, falava para um público enorme sobre sua obra, principalmente a respeito do seu livro Hilda Furacão, que havia sido adaptado para TV. Após a explanação do Roberto, abrimos para as perguntas. Muitas pessoas interrogaram o escritor, entre elas, o jovem poeta de Manga, que, antes de fazer sua pergunta, se apresentou, falou de onde vinha, da importância do autor de Cheiro de Deus e A morte de D. J em Paris na literatura contemporânea e em sua formação pessoal, e fez, enfim, a pergunta que agora já não me lembro mais qual foi. Mas me lembro bem de ter dito a ele que não precisava usar seu nome completo, bastava “Guilherme Rodrigues”, que já era bem sonoro. Inclusive, o Roberto Drummond, antes de respondê-lo, reforçou minha tese. E naquela noite saímos os três para jantar e a conversa foi ótima.

Depois, em Outubro do mesmo ano, nosso poeta voltou a Montes Claros para participar do Salão Nacional de Poesia Psiu Poético, onde podemos nos conhecer melhor, e ele teve a oportunidade de travar conhecimento com poetas como Waly Salomão, Nicolas Behr, Alice Ruiz, Makely Ka, Mirna Mendes, Wagner Rocha, Anelito de Oliveira, Karla Celene Campos, Mano Melo, Adélia Prado, Guido Bilharinho, Jovino Machado, Renato Negrão, entre outros.

Em 2003, já morando em Montes Claros, começou a participar ativamente dos trabalhos desenvolvidos na área cultural da cidade, mostrando sua qualidade e inquietação poética, como também toda sua força e expressão com a oralidade, sendo inclusive homenageado pelo Psiu Poético, em 2004.

Como se pode perceber, nosso poeta não brinca em serviço. E com seu Retinas, ele quer se apresentar de forma mais plena para os possíveis leitores de poesia em nosso país. E, de cara, ele diz no poema que abre o livro: “lixam-se as folhas do dicionários/ e a língua do poeta se lixa/ de suas luminosas crostas/ e pedras preciosas// e agora que restas/ que não mais a gordura/ que só o oco – que sobra –/  e que a poesia,/ com seu rosto, trabalha,”. Para os leitores/pessoas contaminados com o peso do dia-a-dia, aulas acadêmicas e o massacre das informações, deglutir poesia é muito difícil. Falta invenção para o leitor ler poetas inventivos. E Retinas, de Guilherme Rodrigues, traz muito dessa erudição criativa que compõe o universo da tradição da poesia de invenção do nosso país, sacudindo esse comodismo intelectual.

Na dicção do nosso poeta, sua voz vai cruzar com Oswald de Andrade, Drummond, Gullar, Augusto de Campos, Waly. E nessa polifonia se torna difícil definir o que é mais forte na poética de Rodrigues, que desponta em várias direções. O que vemos, com certeza, é que não dá para ficar indiferente ao seu repertório. No poema que chama para o título do livro, por exemplo, ele diz na seção “incorporo a retina”: “meu olho é olho/ e o que incorpora// meu corpo é porto/ do olho que avista”. Já na seção “a retina me incorpora”, lemos: “meu corpo para/ a um olho estranho// que, por ser olho,/ é um corpo vivo// que, por ser outro,/ é um corpo estranho// e por ser olho,/ mais estranho ainda”.

O poeta, concentrado em sua criação, cria voos longos e amplia suas buscas no poema “o duplo”: “desfaço-me-se/ do olho do outro que estás sendo/ desfaço-me deste outro:// este (aquele em mim)/ que em mim se formou/ e me embaça// este que precisa ser/ constantemente/ morto/ solto/ sob a rédea – vigília”.

Em “manga I – geopoesias (I)” nosso autor nos diz: “não digo de manga  (cidade-e-caroço)/ manga se não-se-fala por si/ e se cala, nódoa, em mim e à minha revelia// manga descreve em mim sua incógnita”. Há um embate e um debater-se do poeta com sua origem. Ele, um nômade, que nasceu em São Paulo, viveu em Manga até o fim da adolescência, e há dez anos vive em Montes Claros, declara, com suas entranhas, todo o sentimento, todo o amor e dor que nutre por essa Manga “abstrata” que o acolheu. Esse sentimento volta a chacoalhá-lo no poema “apontamento pelas zonas do-que-em-mim”: “saudade é negócio perigoso, moça-grande/ carro desgovernado que vai dar/ em um barranco de manga/ em uma rua curta de januária/ em um beco de são paulo/ ou numa praça de montes claros // – ainda que lá não esteja –// (…) saudade é negócio sinuoso, moça-grande/ que rodeia a morte (que nos inspeciona)/ que a reconhece em luta e absurdos/ documento nuvem/ que em nós resgata – ainda que não –”.

Nosso poeta mostra conteúdo e reflexões em todo itinerário do seu livro Retinas, desenhando um caminho comprometido com o melhor da arte poética: “onde se lê poesia/ leia-se: poesia mesmo”. Sem excesso, mesmo com as britadeiras do cotidiano e o barulho das leis do silêncio, a forte dicção do nosso poeta ecoa com Diana de Hollanda, Eduardo Lacerda, Marli Fróes, Lara Araújo, Bruno Brum, Patrícia Giseli, Estrela Leminski, Wagner Vieira, reverberando a nova voz da poesia brasileira. 

 Aroldo Pereira

Poeta e curador do Salão Nacional de Poesia Psiu Poético

Autor de Cinema Bumerangue e Parangolivro

COMENTE ESTA MATÉRIA – É MUITO IMPORTANTE PARA NÓS

É muito importante para nós que você teça seus comentários sobre esta matéria. Reponderemos sempre todos. Basta você colocar o nome, se quiser colocar o email melhor. Essa é uma forma simples e alternativa de recebermos retorno sobre nossas publicações. Comentários considerados ofensivos serão retirados, mas, críticas construtivas serão mantidas. Anand Rao e Agnes Adusumilli