João Macdowell e os minutos da vida em “New York City”

Ouvindo Yellow Jackets e os carros de polícia e do corpo de bombeiros de Nova York

João Macdowell foi tema de um filme de Mario Salimon. No seu facebook consta que ele faz parte da International Brazilian Opera Company e reside em Nova York. Marcio Henriques, arquiteto e mago na cidade de Brasília, me colocou em contato com ele utilizando este veículo difundido e maximizado por Mark Zuckerberg, o facebook. Tentamos de todas as formas nos encontrar até que decidimos que a melhor forma seria enviar uma entrevista via e-mail. Ele adorou dizendo que assim sairia mais coêsa com as idéias e eu odiei, pois, este tipo de entrevista sai fria, as pessoas copiam e colam currículos, é simplesmente tétrico, horrível.

Eu em Nova York durante 15 dias, João morando aqui e não conseguimos nos encontrar. O que nos venceu. As agendas e o tempo corrido da vida atual. As pautas que foram objetos do Cultura Alternativa. A vontade louca de abraçar Nova York de todas as formas. Os caminhos que João tem que enfrentar para vencer no segmento profissional que abraçou.

E fiquei pensando o que perdi. E pedi para não ter perdido nada. Afinal de contas entrevistar alguém que lide com ópera seria uma pauta inusitada tanto para o Cultura Alternativa quanto para mim. Tão raras são as pautas neste gênero musical. Pensei em escrever uma carta privada para Macdowell, mas, tudo ou quase tudo na minha vida é público. E resolvi me render e revelar a todos que fomos derrotados por nossas agendas.

Se fomos derrotados por elas é porque elas nos comandam. Na Arte, Cultura e Jornalismo temos que abraçar todos e tudo, lutar infinitamente para que nosso caminho possa ser respeitado. Em sendo assim, muitas vezes perdemos para o tempo, que é o senhor da razão. Nunca pensei que ia chegar a vivenciar tamanho fato, a minha agenda tem me vencido, eu preciso domá-la, dominá-la, tê-la como minha filha e não ela a mim.

É importante que todos nós realizemos tudo. Mas, é importante que façamos o seguinte, não percamos a vida de vista, senão apenas a saudade vai nos restar. Muitas pautas que cobri aqui foram feitas em parceria, outras para minimizar custos, mas, esta seria uma contemplação, uma viagem, uma magia, iria amamentar meu coração. E eu a perdi. Ainda tentei marcar com Macdowell que usa pouco o Whatts App, via Messenger do facebook, mas, ele estava em viagem, e volto para Brasília com o gosto amargo de não ter entrevistado este brasileiro, que vive em Nova York, e vive pasmem… De ópera.

Mas, ouço Yellow Jackets e suas composições sempre alegres, com harmonias e melodias deliciosas, e ergo minha cabeça prometendo a mim mesmo que não serei escravo da minha agenda. Romperei com ela quando sentir que ela me tem, me domina, me escraviza. Isso não pode acontecer na vida de um homem que teve dois cânceres e vive cada segundo como se fosse o último. Isso não pode acontecer.

E sigo em frente. Hoje rompendo com a minha forma de agir, tentei sair à noite, de repente, me levantei da cama para atiçar um novo caminho diferente do cotidiano. E me rendi a uma breve chuva ininterrupta na cidade de Nova York. Será que foi a chuva ou o medo de romper com o que faço sempre, o cotidiano, a mesma atividade. Poderia comprar um guarda-chuva na esquina mas, o medo de romper com a agenda me fez voltar e escrever este artigo.

Ele pelo menos rompi com a maioria dos textos que escrevi aqui. Nestes três dias que me faltam nesta cidade que sinto já vivi, vou enlouquecer por dentro, colocar nos ouvidos sons, olhar para as pessoas, suas roupas, o brilho dos seus olhos e escrever algo que me diga que estou vivo e ainda sou aquele poeta louco da UnB, criador do Show do Arroto, rompedor de tantas vicissitudes e vícios, revolucionário enfrentou o capitão Azevedo, barbudo que viajou o Brasil como hippie.

Aguardem meus textos destes três dias, mesmo que jornalísticos, tentarão de alguma forma traduzir meu sentimento que é intenso e imenso quando estou em Nova York, cidade que faz parte do meu roteiro pela vigésima-segunda vez e já vou preparar o terreno para voltar aqui em 2016. Que venham palavras poéticas em textos jornalísticos, loucuras na alma, e que a partir de amanhã, dia que antecede meu aniversário, que eu comece a escrever de forma diferente, dizendo tudo que não disse desde o dia que cheguei em 2015 em Nova York, terra que é minha vida e meu amor. Que venham palavras azuis, cinzentas, ou de qualquer cor mas, que venham palavras diferentes das que já escrevi.

Anand Rao

Editor do Cultura Alternativa