Letrista é poeta?

Letrista é poeta?

Letrista é poeta?

No princípio música e poesia era uma coisa só, mas em determinado momento se separaram. 

A poesia vai além do poema, há muito poema sem poesia alguma, apenas amontoado de palavras rimadas, é comum rimar bugalho com alho e emocionar plateias. A falta de virtude no país é tão terrível que alguém ajuda um idoso atravessar de um lado para outro na rua, tira foto, coloca em redes sociais e comove a nação, se brincar ainda é eleito deputado federal.

É a sordidez a-poética de um país sem lirismo, não o gesto de ajudar um idoso atravessar a rua, mas a falta de normalidade dessas ações que faz com que um gesto simples seja considerado salvação nacional.

Esse tempo neo-parnasianos, prosa rimada, enfadonha de autoajuda que chamam por aí de poesia é fruto de poetas que têm alergia a leitura. Quer se livrar deles? Pergunte quantos livros leram nos últimos meses ou quais são seus autores preferidos, ouvirá uma coleção de nomes retirados de livros didáticos, mas adoram aplauso, como nessas infames academias de letras em que a lógica é: aplauda-me que te aplaudo também.

Nem toda poesia musicada fica interessante. Até 1960 a poesia era uma arte popular, faziam-se homenagens a poetas até em escolas de samba, mas foi neste período que a poesia tornou-se a arte marginal no Brasil e perdeu espaço para música.

O motivo foi que muitos poetas abraçaram causas como: luta contra a ditadura, defender direitos humanos, minorias ou liberdade sexual, não que antes não o fizessem, mas ouve um longo período de poesia introspectiva e preocupação em criar uma poética com sotaque e cores brasileiras. 

 O sistema foi expulsando a poesia e poetas do debate público, escolheu seus poetas sistemáticos (aqueles que escreviam sobre um país tropicalíssimo abençoado por um bom deus vestido de verde oliva) e incentivou coisas doces como a Jovem Guarda que mostrava um país de jovens apaixonados que só queriam alguém para casar e ser feliz. Escolheram até um rei para juventude. O Brasil sempre teve essa mania bizarra de reis e rainhas para tudo.

Foi neste período que começaram a chamar compositores de poetas e os poetas mesmo foram esquecidos ou levados à condição de que poeta bom é poeta morto, inclusive nos cursos de Letras, cemitérios de autores, labirinto da vaidade intelectual e um pouquinho de ressentimento (com alguma razão), já que no Brasil jornalistas se tornaram especialistas em tudo e em literatura são capazes de lerem um livro por semana e ainda resenharem.

Então a questão sempre foi política. Não é de hoje que poetas são marginalizados, desde a República de Platão que eles foram “convidados” a se retirarem do debate público. Platão acreditava que poetas eram serem perigosos.

Há compositores que são poetas, suas letras poemas vão além da mera condição de enfeite para músicas, dentro de suas obras é possível fazer um recorte poético, e nem todos que publicam poemas têm realmente voz poética em seus versos. É uma questão cultural mais para o leitor de que para o artista.

É constrangedor ouvir simplórios letristas nomeados de poetas, a palavra poeta foi vulgarizada no país, poetas nascem e morrem no mais pleno obscurantismo, enquanto um medíocre compositor é sem vergonha alguma chamado de poeta.

Para mim, poeta antes de tudo é leitor, tem consciência histórica do seu ofício e da sua contemporaneidade, bons poetas são aqueles que conseguem esse diálogo histórico e sabem que de versos “bonitos” vive o inferno.

Eu sou leitor, tenho meus poetas mortos e vivos aqui comigo, tenham também meus compositores preferidos. Em tempos inquisitórios a arte que me alimenta é aquela que indiferente a perguntas e respostas se mantem na vanguarda da oposição.

Nada pior para arte que servir a ideologias sejam de esquerda, direita ou centro. As mais nobres causas humanas não pertencem à ideológica alguma, a arte é arte por ser antes de tudo libertária.

Por Ediney Santana, para o Cultura Alternativa

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**Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha do Cultura Alternativa.