LIQUIDIFICADOR POÉTICO por Tanussi Cardoso – MULHERES DO FUTURO

LIQUIDIFICADOR POÉTICO

LIQUIDIFICADOR POÉTICO – MULHERES DO FUTURO

Coluna de Tanussi Cardoso

Por muitos e muitos anos, negou-se à mulher o prazer. Mas, tempos idos, para o bem de todos, aceitamos, hoje em dia, que homens e mulheres possuem igual capacidade de sentir prazer, bem como igual desejo físico.

Entretanto, não faz muito tempo, religiosos, filósofos e outros seres pensantes faziam-nos entender, ou melhor, aceitar que o desejo e o prazer só poderiam ser aceitos como forma de perpetuação, proibindo-se à mulher o sexo somente pelo prazer, já que o seu corpo serviria, principalmente, à perpetuação da espécie. Logo, os homens pensavam e as mulheres subordinavam-se a suas ideias, oferecendo-lhes o prazer corporal. Ao homem, a autoridade; à mulher, a obediência familiar.

A partir dos 80, principalmente com Simone de Beauvoir e o seu “O Segundo Sexo”, essa visão começa a se deteriorar. É ela quem afirma que ninguém nasce mulher: “torna-se mulher”. Ou seja, o feminino é fruto menos biológico do que um produto da civilização machista. O feminino é o que o homem fez. Conforme nos ensina JOSÉLIA ROCHA, “o sexo é biológico, mas o gênero (feminino, masculino) é uma invenção: não existe na natureza. É uma construção”. E continua: “De fato, a natureza humana é indivisível, mas a necessidade de controlar os seres é que propiciou a interação gênero/sexo e dividiu os espaços entre público e privado.”

Assim, as mulheres são quase invisíveis à sociedade, com seu campo demarcado, histórica, social, política e, de forma principal, religiosamente, desde o seu nascimento, com seu papel passivo de reprodutora, dona-de-casa, mãe e esposa.

Hoje, em quase sua totalidade, as mulheres estão “livres”. Em 1960, a revolução da pílula anticoncepcional começa esse movimento embrionário da revolução sexual, da libertação sexual, das amarras do sexo como reprodução, à descoberta, finalmente, do corpo, não somente como espaço reprodutor, mas, principalmente, como espaço do prazer.

É aí que a mulher sai para o trabalho, começa a se organizar e viver fora do ambiente doméstico e familiar, começa a ter seu próprio dinheiro e a não depender tanto do macho/viril/homem/marido. Ela aprende que pode ter tesão, e parte pra luta. É a igualdade dos direitos entre homens e mulheres; uma vida compartilhada, não mais submissa e passiva. Ela deixa de ser objeto para ser, também, sujeito de suas ações.

E começam a se inserir no campo intelectual com mais vigor. É óbvio que muito antes dos anos 60, muitas mulheres já se faziam reconhecidas nos campos literários, das artes plásticas, da música, do teatro, do cinema, porém, eram casos de talento individuais, quase nunca chegavam como uma onda, um movimento, como aconteceu depois dos 60. O campo das artes vira uma espécie de cânone libertário.

É nesse campo, que elas passam a se expor, a transgredir padrões, a colocar seus sentimentos de amor, dor, frustração, alegria, sexo; é nesse campo que elas deixam, enfim, de se sentirem envergonhadas por sua condição de mulheres, mas, ao contrário, exultam diante dessa nova descoberta: a de que seu corpo, seu sexo, só pertence a ela, e cabe a ela a afirmação dessa condição. É na libertação da linguagem que a mulher expande seus horizontes: políticos, eróticos, amorosos, ecológicos, contestatórios. Acabou-se o medo. Acabou-se a culpa. Acabou-se o degredo. Acabou-se a opressão.

Até meados do século XIX, a produção literária das mulheres era muito pequena. Porém, é no século XX que surge algumas vozes femininas, como Gilka Machado, e inicia-se a quebra do mundo androcêntrico e da submissão intelectual das mulheres. Elas partem pra briga e, apesar de timbres, sons e tons diversos, abrem as páginas de seus livros e mostram, sem pudor, alma, corpo e sua visão de mundo. Sem censura, mas, ainda contraditória, como nos ensina HELENA PARENTE CUNHA: “o dilema de grande parte das mulheres pós-anos 60, ainda hoje cindidas entre a aventura da transgressão libertadora, mas eivada de incertezas e perigos, e a herança da tradição patriarcal, dominadora”.

Em 1939, em sua “Viagem”, Cecília Meireles se perguntava: “Em que espelho ficou perdida a minha face?”.

Quais seriam, nos tempos atuais, as questões da grande poeta? Agora, que a mulher buscou não só a sua face, mas, também, a sua voz? Mas o que importa mesmo é saber que, hoje, aqui, agora, a voz da mulher, através da poesia, tem mostrado uma consciência cada vez mais atuante em sua relação com o seu corpo, lugar e com as grandes transformações da sociedade. Um espaço de invenção, onde a liberdade deixa de ser sonho, para ser um direito real. Mulheres inúmeras.

Todo esse introito é, simplesmente, para fazer aqui, agora, homenagem a todas as poetas, que, com a sua força vital, nesse mundo, ainda, tão estupidamente machista, valorizam, não só a nossa Literatura, mas tornaram-na mais humana e, consequentemente, mais generosa, bela e iluminada.

Cheia de contradição, essa poesia, muitas vezes, não foge daqueles estereótipos que inventaram para elas, mas estão aí, lutando por seu espaço, se desnudando, dando a cara à tapa. São guerreiras da paz, mas, sabem estimular, igualmente, a ordem criativa das palavras.

Assim, graças a essas mulheres-poetas, não se repudia mais o trabalho literário das escritoras, como no tempo de Gilka Machado.

Para finalizar, quero dizer que só quem se permite a fotografia interna, o susto, a surpresa, a exposição; só quem se permite a poesia diária, o medo, a assombração cotidiana; só quem se alimenta do suor da carne, do espírito, do brilho das facas sabe a dor da liberdade, das asas soltas, como um poema único, merece ser chamada de poeta. Muito obrigado por vocês existirem!

Tanussi Cardoso é poeta

Texto Publicado em POSTED em ABRIL 28, 2015 – Atualizado 07.08.2019