Lobão: “Ser conservador não é ser retrógrado”

Lobão

Lobão é um dos artistas mais prolíficos do Brasil. Sua arte surgiu do fundo do palco, onde ficam em geral os bateristas, e foi tomando a cena por inteiro. E não só a cena musical, mas também a política. Hoje o cantor, compositor e multi-instrumentista é figura atenta e participante dos movimentos e guinadas da sociedade brasileira.

Sua folha de serviço é gigante. É sócio fundador do Rock Brazuca dos 80s, trabalhou pela moralização da indústria fonográfica, foi editor de revista, apresentador de televisão, produtor dos próprios discos e de álbuns dos colegas, escritor Best-seller, vencedor de Grammy. Além de tudo isso, ajudou a eleger e a destituir presidentes.

Um trabalhador incansável, um cidadão participativo e um homem de opiniões transversais. Lobão recebeu generosamente o portal Cultura Alternativa para uma entrevista antes do show que fez em Brasília no sábado. Política, cultura e cidadania são assuntos dos quais o artista não foge, nem perde oportunidade de ser profundo e contundente. Acompanhe.                           

Lobão

Qual é o papel do artista no Brasil de hoje?

O papel do artista nunca muda. Ser artista é ser artista em qualquer tempo, em qualquer época. E você tem que simplesmente cumprir o seu papel de artista sem se intimidar com os tempos que variam. Mas eu acho que o artista tem que ter sempre, além da participação como artista, uma participação também como cidadão. Uma coisa está intrincada com a outra. Você tem que ser um bom artista e pra isso você tem que ser basicamente uma pessoa corajosa, para enfrentar todo tipo de ameaça, precariedade, intempéries, etc.

Que tipo de influencer falta para ajudar a dar uma direção mais clara ao País hoje?

Isso é difícil de dizer. Eu não sei nem dizer se existe esse tipo de pessoa. Eu acho que a sociedade brasileira é uma sociedade doente desde sua gênese. Nós temos uma cultura escravocrata, paternalista e patrimonialista gritante. O Brasil só não é um retrocesso porque ele nunca andou pra frente. Então seria uma incoerência dizer que estamos retrocedendo. Nós estamos paralisados. É a Terra do Nunca! Eu sempre falo que a Semana de Arte Moderna de 22, mesmo que involuntariamente, pois o Mário de Andrade não fez o Macunaíma com o intuito de enaltecer os nossos piores defeitos, causou um efeito ruim: Nós já éramos um país problemático e tivemos um movimento ético, estético e cultural que acabou enaltecendo os nossos piores defeitos. Então nós vivemos de tentativa e erro. Tentativa e erro é Liberdade, já dizia Nassim Taleb. Mas o brasileiro usa de tentativa e erro e se envaidece com os erros. Você é malandro, você rouba… Se você não colar na escola você é otário, se você estudar demais você é otário. Darwin se fosse estudar a sociedade brasileira iria rever a sua Lei do Mais Apto, porque aqui vale a Lei do Inapto. Quanto mais inapto você é mais você sobe na escala social. Aqui vivemos numa Mediocracia. No Brasil se enaltece o menos sábio, o mais malandro, o que mais rouba. Você vê pelos presidentes que a gente tem: Lula, Dilma, Bolsonaro. Eles não estão ali por acaso. Estão representando fidedignamente a sociedade doente que é a sociedade brasileira. Não basta um influenciador, precisamos de um processo, que deveria acontecer não com uma pessoa, mas com uma camada de pessoas. E eu não consigo enxergar essa camada de pessoas. Você tem uma alternância de Poder, mas você não tem alternância de mentalidade. O Poder passa da Esquerda pra Direita, mas a mentalidade de ser indulgente, de atacar o outro e de ser complacente consigo próprio continua. O outro é que é o culpado você é sempre o puro. Você vê isso nos mínimos detalhes da sociedade brasileira. Você vai ao supermercado e você leva uma fechada de carrinho, todo mundo avança sinal, joga lixo na rua, forja, mente. No Brasil não se tem um espírito de convivência. Aqui o outro é sempre um otário, sempre um objeto para ser engambelado. Então, é muito difícil a gente achar que alguém vai influenciar positivamente, pois esse influenciador vai ser visto como um perdedor, um otário e ninguém vai ser influenciado por essa pessoa que vai querer tirar essa crosta de maus hábitos do brasileiro. Acho um problema muito sério e muito difícil de ser resolvido.      

Nós já tivemos sociólogo, operário, advogado e até dono de lojinha de R$ 1,99 como presidente da República. Nos ministérios tem oura miscelânea de formações e profissões, inclusive artistas e desportistas. Qual é o perfil ideal para conduzir a coisa pública no Brasil?

Uma pessoa a mais discreta possível, eu acho que quanto menos alarde essa pessoa fizer em relação à sua personalidade melhor, acho que o Fernando Henrique e o próprio Temer tinham esse perfil. Você não sabia muito da vida particular deles, e nem se deve saber. Na Suíça, por exemplo, o serviço público é encarado como uma espécie de serviço militar. Não é coisa de político. Você tem de ir lá, passar um ou dois anos tendo que administrar a coisa pública, num sentido pragmático. Deve-se destituir qualquer possibilidade de a política ser uma profissão. É uma imoralidade você ganhar dinheiro com a coisa pública. Ganhar dinheiro com política é uma das coisas mais insólitas que se pode ter. Deveria ser um salário baixo, um tratamento espartano para justamente afugentar os oportunistas. Você tinha que ter uma estrutura para poder chamar o cara que tem um amor incondicional por fazer funcionar a coisa pública. Antes de tudo, cortar todos os privilégios e transformar o trato com a coisa pública no seu afazer principal. É imoral, obsceno você transformar a política em profissão. Eu sou da opinião que para cuidar da coisa pública a pessoa tinha que conhecer a Constituição, o Direito Internacional, saber falar outros dois idiomas, inclusive bem o Português. Essas coisas básicas. Entender de Legislação se você vai legislar, ter um curso básico de Direito. Se você vai ser prefeito ou governador, você teria de ter um curso de Administração pra saber administrar a coisa pública. São coisas mínimas. Você não pode ser um fulano de tal qualquer que tá ali por oportunismo. Quanto artista decadente vira político! Vai pra política pra poder tirar proveito.

Quando é que o país vai alcançar uma velocidade de cruzeiro nesse processo democrático que já dura mais de 30 anos? Ou nunca vamos alcançar essa velocidade de cruzeiro e nossa História vai ser sempre atribulada?

Como eu falei antes, a gente é uma sociedade doente e muito primitiva, muito tosca e grotesca. Você vê pela cultura que temos hoje. O que as pessoas gostam de assistir na televisão, o gosto musical delas. Isso não é de graça! As pessoas acham que gosto não se discute, mas gosto é discutível e é preocupante, compromete todo um cabedal de características culturais que são assustadoras no caso do Brasil. Não vejo que, pelo menos no nosso tempo de vida, a gente vá ver uma mudança significativa, nem na vida dos nossos netos. Se tiver alguma mudança será para pior, porque existe um efeito cumulativo. Veja só: As pessoas vão procriando. Idiotas que se procriam. Então em dez anos você vai ter um número exponencialmente muito maior de idiotas, vivenciando a idiotice em maior número. Nós estamos numa democracia. Então qual é o nosso futuro? Ser governado, ser regido por idiotas, por mais idiotas ainda.

O que participar ativamente da vida política te traz de retorno pra tua vida pessoal?

Eu não acredito que tenha que haver esse tipo de condicionalidade. Um cidadão tem que participar da vida política. Eu detesto, não suporto política! Mas não posso ficar calado, porque é muito gritante a nossa situação. É o que eu falo: Brasileiro não é uma condição, é uma condenação. Geopoliticamente falando, somos um dos maiores países do mundo, mas devemos ser um dos menores em significância e relevância no cenário internacional. Um país falado no resto do mundo como o país da bunda, do futebol, que nem tanto mais é; e da exportação de matéria-prima. Não temos relevância nenhuma! A proporcionalidade do tamanho geográfico em comparação com a desimportância magnifica que nós temos em relação à comunidade internacional revela o nosso destino. Somos o arraial do cu do mundo. Não temos muito como sair disso. De novo eu falo do efeito cumulativo. Em qual setor do país há indícios de que isso possa mudar? Em nenhum! A gente só tem acúmulo de coisas ruins crescendo a cada dia.

Você é uma pessoa que fala e é ouvida. Diante de tanta desordem política e social, isso é suficiente pra acalmar teu coração? Ou você nunca se acalma? O que as pessoas igualmente conscientes, mas sem uma voz, podem fazer para se acalmar?

Eu sou calmo pela própria natureza porque eu me alimento do meu mundo. O meu país sou eu. Eu acordo cedo, eu trabalho feito um louco… Eu prospero porque a minha vida independe do externo. Eu sempre primei pela minha independência por mais que eu me relacione com a precariedade externa. O meu mundinho é um parque de diversões de mim mesmo. Eu me satisfaço muito com os atributos que eu me imputo. Eu faço uma agenda para mim: vou aprender, vou escrever livros, vou aprender outras funções musicais. Fico o tempo todo em função disso. Eu penso assim: Se o Brasil é um lixo, eu não sou. Então eu não tenho por que ficar nervoso, caso contrário eu morreria neurastênico. Eu tento fazer o que eu posso porque eu não sou nenhum autista. Eu me auto sustento em termos de satisfação comigo mesmo. Faço tudo para que eu possa dormir satisfeito e divertido. E eu quero dizer isso pras pessoas: olhem pra si mesmas e se divirtam consigo próprios.

Que palavras você endereçaria especialmente a um jovem do Brasil de hoje?

A mesma coisa que eu acabei de falar. Vale para todo tipo de pessoa: Tenha uma vida interior intensa, cultive a sua vida interior, seus interesses que são independentes de qualquer situação. Outro dia eu li que um morador de rua passou no vestibular porque estudava com livros pegos numa biblioteca pública. Nada pode deter uma pessoa interessada. Procure coisas pelas quais você se interesse e se apaixone por essas coisas. A única salvação é a pessoa ter paixão pelas suas atividades. Você tem que se seduzir, procurar, ser curioso. Você pode ser um cozinheiro, um arquiteto, um poeta, um médico. Que tudo seja feito com paixão e que isso seja o seu alimento.

John Lydon falou que o Conservadorismo é a nova Contracultura. Isso é só uma onda ou uma evidência de que a Humanidade anda sem criatividade, sem rumo?

Nada disso! Fernando Pessoa era um conservador. T.S Elliot era conservador. Você tem grandes inovadores que são conservadores. No Brasil temos um atavismo muito errado por achar que as pessoas que são conservadoras são atadas ao passado. Isso não tem a ver com o conservadorismo. O conservadorismo é uma doutrina que é uma sapata sólida da sociedade que tem uma conexão com os mortos e com os que estão por vir. Só isso! Se você tem consideração com os mortos você vai entender que tem um monte de gente que nasceu antes de você que pensou e trabalhou pra esse mundo existir. Tem que levar em consideração esses caras. Não pode dizer que nada disso foi relevante e matar os mortos. Assim como não se pode matar os que vão nascer. Temos que cuidar do por vir e também do que já foi. Todo país de alta vanguarda geralmente é monarquista. Os países mais loucos são monarquistas: o Japão, a Inglaterra, a Holanda, a Suécia, a Dinamarca e a Bélgica. Os mais avançados e os mais liberais são os que tem uma sapata conservadora. Tem as melhores indústrias, os melhores artistas, maior ousadia na moda, no design, nos costumes, nos filósofos. O movimento antiescravagista veio da Inglaterra. Foram os conservadores republicanos que fizeram um movimento contra os escravagistas nos Estados Unidos. As pessoas não entendem isso no Brasil. Aqui acham que o conservador é um mero retrógrado. Isso não existe. No Brasil, na verdade, as pessoas reacionárias são confundidas com conservadoras. O Bolsonaro, por exemplo, não tem nada de liberal nem de conservador. É um reacionário, um retrógrado. O movimento de contracultura sempre pega, de uma forma ou de outra, elementos pra chocar o status quo. Nós, por exemplo, tivemos a Semana de Arte Moderna de 22 que foi contra o Academicismo, o Parnasianismo e o Beletrismo do século XIX. Mas como ela se tornou uma hegemonia que vai fazer 100 anos em 2022, virou status quo. Virou um Academicismo. Então o que acontece é que o fluxo da vanguarda vai em outra direção. O pessoal de 22 era contra a rima. O que é de vanguarda atualmente? O Rap. E o Rap usa a rima. A rima então é um elemento conservador, mas tá sendo usada pela vanguarda. Essa dialética as pessoas não entendem. Por exemplo, o status quo da Semana de 22 é a favor da precariedade, da pobreza cosmética, do feio, do desdentado, do pobre, mesmo que cenográfico. Então se você for contra isso, você ficará do lado do Belo, da rima, você vai querer escrever um romance inteiro, com pé e cabeça, você vai querer fazer um filme de alta qualidade, em vez de um feito com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. Isso tudo é o quê? Uma cabeça conservadora, não é? Eu gosto de ler romance com início, meio e fim. Eu gosto de assistir filmes de alta qualidade, seja qual for a narrativa. Então tudo isso são parâmetros que vão de encontro ao status quo. Isso é alternante com o que nos está sendo imposto. Aí você usa uma linguagem para dizer que não quer ser imposto por ortodoxias. A vanguarda, a contracultura sempre vai lidar de um forma dinâmica e dialética com o poder. Se o poder é assim e assado eu sou frito e cozido!    

Entrevista: Carlos Lopes

Fotos: Karem Vasconcelos