Músico Independente: opção pessoal ou “dos outros”

Foto de João Antônio Pereira – Articulista do Portal

Músico independente: opção pessoal ou dos “outros”

Por João Antônio Pereira

Ao ser convidado para escrever artigos para este site, tratando sobre a música independente em Porto Alegre e no RS, pedi um dia de prazo para decidir – demorei dois. A resposta tardia deveu-se a uma dúvida, simples, mas com tamanha força que seria capaz de determinar o aceite ou não da tarefa: como abordar o assunto?

Pensei em muitas possibilidades. Todas elas, porém, partiam do mesmo princípio “eu penso/eu acho”.

Mas, falar do que penso não será, propriamente, jamais, falar do que É. Para poder falar do que É, pensei que deveria calçar as sandálias franciscanas e ir a campo: assistir a shows, comprar revistas, ler jornais alternativos, ler revistas alternativas e tantas outras atividades que quase perdi fôlego antes, mesmo, de começar. A tarefa mostrava-se de difícil (se não impossível) consecução, já que tomaria grande parte do meu tempo – que é escasso. Mas, então? Como fazer?

A solução veio rápida quando pensei na quantidade de amigos que tenho que trilham o caminho da música independente. Assim, pensei em falar sobre música independente a partir da visão dos protagonistas: os músicos. Foi em conseqüência desse arranjo que fiz comigo mesmo, que partiu a iniciativa de fazer uma série de entrevistas com músicos de tendências variadas e de diferentes realidades sociais e econômicas, para que, juntos, tentássemos responder a uma questão que, no meu entendimento, por sua investigação, levaría-nos a uma visão atual da cena musical independente de Porto Alegre e do RS. E a questão posta foi a que dá título a esta matéria: Músico independente: opção pessoal ou dos “outros”?

Primeiro, vamos analisar a pergunta: o que quero dizer/saber com ela? Muito simples: se alguém, ao decidir trilhar o caminho da música independente, o faz por ser essa a sua posição ideológica ou o faz porque essa é a única solução mercadológica para alguém que não conta com outro apoio senão o da crença em si?

Na realidade em que vivemos, aqueles que detém o “capital” não estão dispostos a aplicá-lo em negócios cuja probabilidade de retorno financeiro não esteja à altura de suas ambições. E música é um negócio de alto risco. De alto risco porque, mesmo quando falamos de alguém que possua reconhecida técnica e domínio das ferramentas necessárias para elaborar um produto de altíssima qualidade, isso, ainda, não é garantia de que o público consumirá esse produto. O “gosto”, por ser característica humana individualíssima, ainda está atrelado a questões como: humor, momento, predisposição. Ninguém poderá garantir, antecipadamente, que determinado artista será um sucesso de público porque seu trabalho é ótimo.

Algumas ferramentas, entretanto, quando adequadamente utilizadas, podem interferir para o bom resultado mercadológico de um produto musical. Dentre essas ferramentas, a mais eficiente é o marketing, com seu poder de convencimento tal que é capaz de levar um grupo social a consumir alguma coisa mesmo que não precise dela – e, até, mesmo que não goste dela. Mas, apesar da existência de tais ferramentas, que podem contribuir decisivamente para o sucesso de um produto musical, esta não está disponível a todos, seja por que é cara, seja por que o próprio artista desconhece as técnicas para sua perfeita aplicação.

Em segundo lugar, podemos analisar a questão dos espaços para divulgação da música, mais especificamente os bares, restaurantes, hotéis, clubes, associações, casas de cultura e tantos outros. Apesar de haver muitos desses equipamentos em uma cidade como Porto Alegre, a quantidade deles que oferece estrutura para a apresentação presencial em seus recintos pode ser chamada de inexpressiva. A dita “música mecânica”, ou seja, aquela que é disponibilizada via rádio, internet ou CDs e DVDs, é a mais difundida entre esses estabelecimentos. O músico, assim, torna-se um peregrino, batendo de porta em porta, na esperança de ser vitimado por um lance casual, por um instante iluminado quando a sorte lhe sorri, quando finalmente conseguirá um lugar onde possa expressar, publicamente, sua arte, que é, também, seu trabalho.

Em terceiro lugar, não podemos esquecer o público. Quem vai assistir ao músico? Com que freqüência? E quando vai, vai pelo artista ou por outro motivo? É muito comum chegar-se em um determinado lugar onde alguém está tocando, ao vivo, e as pessoas estarem falando alto, entretidas entre si, e o músico fica apenas como mais um elemento decorativo da cena. Tal situação não é apenas desestimulante para o artista, mas, também, irritante. E podemos acrescentar outra, antagônica a esta primeira, que é a de pouquíssimas pessoas comparecerem, quando o músico propõe-se a mostrar o seu trabalho autoral: esta, talvez, seja a mais devastadora para uma pessoa criativa.

A esta altura, com base nestas primeiras impressões (muito superficiais, diga-se de passagem, tendo em vista os muitos aspectos que não foram abordados), penso que já podemos arriscar uma resposta à pergunta proposta, que seria mais ou menos assim: o músico torna-se independente levado pelo entorno que o exclui e pelo interno que o desanima, diante das dificuldades que tem de enfrentar quando tenta levar adiante o seu projeto de vida, que é viver da arte que pratica. Mas, reforçando, esta é apenas uma primeira impressão. Se irá sustentar-se, não podemos afirmar. Ao longo das conversas que terei com vários artistas que aventuram-se nesta senda, talvez este ponto de vista mostre-se completamente equivocado, inválido, mesmo. Mas é para isto que inicio esta série de conversas: para desanuviar o horizonte na tentativa de esclarecer, aos protagonistas desta história e aos futuros personagens que dela farão parte, este mundo onde exercem sua expressão de vida: o mundo da música.

Na próxima terça-feira, dia 02 de dezembro, publico a “ata” da minha primeira entrevista, com Rodolpho Bittencourt, ou Rodox, para os íntimos, músico da banda Samba Grego, de Porto Alegre, que trabalha com MPB, onde abordamos o que foi dito nesta introdução e muito mais.

Até lá, então.

E segue a pauta.

 

P.S.: Enquanto isso, vocês podem ir curtindo o trabalho do Samba Grego. Aqui estão alguns locais, na internet, onde pode-se encontrá-los:

No Facebook: https://www.facebook.com/samba.grego

No site da banda: http://sambagrego.com/