O pequeno poder que seduz Brasília – por Ediney Santana.

O pequeno poder que seduz Brasília, Passeio turístico em Brasília.

Carros que custam mais de 100 mil reais estacionados nas calçadas, carros que passam rapidamente por poças de lamas em dias de chuva molhando que caminha pelas ruas, olhar agressivo em resposta a quem não fez absolutamente nada de errado.

Falta de cultura, soberba, agressividade, necessidade de mostrar que se tem poder que se presume ter, o pequeno poder é cartão de visita de quem se afirma não por ser gente, mas pelos bens ou cargo que possui, no entanto o pequeno poder não é tão somente uma questão financeira ou política, é também de demência emocional.

O pequeno poder assume com prazer o papel de neo- capitão do mato. Ao olhar-se no espelho sente-se como um imperador do mundo, ele não é ele, mas as coisas que têm, não uma pessoa, é um sistema, um amontoado de bens materiais, mesquinho como lombriga em barriga doente.

O pequeno poder é uma aberração sociológica, pensa que tem as coisas, mas são as coisas que o tem, vive para o estômago, não tem cérebro, tudo que faz e comandado pelo estômago, é truculento, sua truculência serve para esconder suas fraquezas, é corrupto, é a negação da democracia, intolerante e sem compaixão, é a síntese da indiferença, da falta de espiritualidade, mesmo que ande com livros religiosos embaixo dos braços, a religião do pequeno poder é o dinheiro.

O pequeno poder é perigoso porque é o intervalo entre bom senso e a razão, vala escura, ralo podre da sociedade, mesquinharia, falta de ternura. Tem desprezo por pobres, tem desprezo por tudo que não refletir sua imagem no turvo espelho do seu egoísmo. O pequeno poder é a xenofobia, o ódio geográfico, a eterna crucificação do amor, é de direita e esquerda, é da conveniência.

O pequeno poder é a ferrugem da sociedade, o barrão da casa grande, o feitor do Estado, o sepulcro aberto, é um estado de espírito, pode-se ser pobre e ser pequeno poder, cada grupo social tem seus cafetões do poder, suas elites mesquinhas e podres. O pequeno poder é o ódio, contradição do discurso, entre os seus é uma pessoa do “bem”, longe dos seus ameaça pessoas, cospe na cidadania alheia.

O pequeno poder se apossa de qualquer ideia, é o socialismo, capitalismo, cristianismo, e todos os ismos somados para fazer do mundo um lugar trágico. Falam em amor, mas seus olhos são de ódio, suas palavras de guerra, intolerantes a qualquer visão de mundo que não sejam deles, traidor e seu punhal pode ser cravado nas costas de qualquer um.

O pequeno poder desconhece ética ou moral, sua ética e moral e formada a cada circunstância, muda como o vento, o é a manipulação emocional, o temor no lugar do respeito, a condenação do suspeito. O pequeno poder é quem se defende dos crimes cometidos comparando-se a outros criminosos. O pequeno é a serpente do paraíso, é forte para os fracos e fraco para os fortes, o pequeno poder é gigolô da impunidade.

O pequeno poder é a doença de Brasília, para mim Brasília não é só o Plano Piloto, porque não existem cidades satélites, isso foi uma invenção do poder central, invenção xenófoba e racista, Vicente Pires e todas outras “cidades”, são bairros de Brasília, cidades satélites foi o nome elegante que escolheram para batizar o muro de Berlim que nos separa, tudo isso é útero e berço do pequeno poder, do centro para preferia o pequeno poder se afirmou, agressivo e violento, segregando pessoas, em especial os pobres. Nas cidades satélites o pequeno poder é cruel e tão pervertido quanto nos corredores palacianos de Brasília.

Contra o pequeno poder a reação primeira é afirmar nossa cidadania, ninguém pode nos julgar pela nossa pobreza, pela cor da nossa pele, pelo lugar do nosso nascimento, pela condição sexual ou política. Deixo para reflexão de vocês os versos do poeta Jorge Portugal: “Eu sou parte de você mesmo que você me negue”.

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Por Ediney Santana, para o Cultura Alternativa

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