Os radicais estão de todos os lados por Zildenor Dourado

 _ “Você é um radical”. (depois, em muitos casos, seguem-se alguns palavrões e xingamentos entre os interlocutores)

 

No meio dessa guerra incessante de opiniões provocada pelo clímax da nossa crise política, quando o processo do impeachment da atual presidente vai se aproximando da catarse esperada, o que a gente mais ouve dos debatedores são acusações de que os adversários são “radicais” (muitas vezes  acompanhadas de ofensas pessoais) por não acatarem os argumentos daqueles que se opõem aos  pontos de vista dos que se julgam detentores da verdade. Obviamente, que não me excluo dessa epidemia de radicalismo verbal.

O curioso é a pecha de “radical”, como um tiro de revólver, é geralmente disparada de ambos os lados. E o ressentimento isola ainda mais aqueles que tentam inutilmente convencer os que defendem ideias opostas. Na maioria dos casos, agravam-se ainda mais as divergências…

Em virtude desse conflituoso muro ideológico que separam as pessoas, uma das questões que mais complicam o diálogo entre os interlocutores é que nenhum dos dois lados aceita que está assumindo posições de radicalismo. Cada lado só enxerga radicalismo do outro, com poucas exceções.

O debatedor acredita, assim, que seu posicionamento é que está fundamentado no equilíbrio e em conformidade com a democracia vigente, enquanto o do outro está contaminado pelo radicalismo insano, emocional, exacerbado.

Nesta análise simples e despretensiosa,  cabe destacar a forte emocionalidade radical  que envolve os discursos dos  “mortadelas” (não vou chamá-los de petralhas, para não ser tachado de radical)  e dos “coxinhas” _entre os quais acabei sendo um modesto guerreiro, nos campos virtuais de batalhas do facebook.

Já fui excluído naquela rede social maluca por dezenas de ex-amigos ( nem tanto amigos assim), que esperavam de mim parcimônia, condescendência com o mundo do crime. Também já mandei para o espaço pessoas próximas que descobri se tratarem de imbecis radicais. Não disse que os radicais sempre atacam seus adversários chamando-os de radicais?

Acredito que, o sempre esperado bom senso, requer a necessidade de   negociação para a  busca de soluções positivas para os graves conflitos sociais,  como agora. Mas é difícil evitar que os líderes “radicais” não sejam os  protagonistas (todos queremos ser heróis e não vilões) das disputas políticas que se tornam cada vez mais ferrenhas. Será que é possível se pensar que posições intermediárias sejam acatadas em nome da utópica paz social?

Na nossa militância política como cidadãos há momentos em que o excesso de tolerância com criminosos, corruptos e políticos farsantes se transformam num perigoso exercício de covardia e submissão. Nesse contexto, mais uma vez o radicalismo ganha espaço em relação aos moderados defensores da permanência do status vigente.

No caso do desfecho da guerra pelo impeachment da atual presidente Dilma Rousseff é pouco provável que os radicais em conflito se conformem com a vitória do lado oposto. Por mera ilustração: alguém imagina que os   sindicalistas cutistas e os numerosos militantes do Movimento dos Sem Terra (MST) irão se conformar em ver outro comandante no poder (“da direita golpista”, incluindo o vice Temer que elegeram) a não ser aquela mulher “sofredora” que alegam estar sendo alvo de uma grande injustiça?

Por outro lado, é também improvável que os militantes dos grupos sociais organizados de luta contra o governo (estes, por exemplo, que ocupam a Avenida Paulista e vaiam até políticos de oposição) abram mão da punição rigorosa de todos os políticos bandidos flagrados nas operações da Polícia Federal, como a Lava Jato, o Petrolão, incluindo o  farsante chefão da máfia petista.

Ao aceitarmos como válida a premissa de que não se sai de uma crise ampla e profunda, como agora, sem mudanças de rumo na complexa e viciada estrutura de poder, torna-se quase obrigatória a aceitação de ocupação de mais espaço de atuação por aqueles radicais  da moralidade pública _ os que sonham com a observância fiel  das normas constitucionais, o  fim do clientelismo, moderação no assistencialismo eleitoreiro e outros pecados dos  populistas travestidos de revolucionários.

Se no nosso passado recente os radicais condenados pelos nossos pensadores políticos eram as opressoras forças de segurança e aqueles que agiam fora das leis, inclusive com práticas de guerrilha, muitos consideram que os radicais do momento são aqueles chatos como eu que insistem em defender o uso correto dos recursos públicos, a prisão de governantes irresponsáveis que manipulam o orçamento da República como se fosse o dinheiro pessoal que se gasta numa feira da esquina.

Falta pouco, provavelmente, para que saibamos quem serão os radicais vitoriosos na luta política travada nas ruas, parlamentos, tribunais. Quem insistir em fica de fora dessa briga quase obrigatória, assistindo a tudo de camarote, certamente poderá achar que nada ganhou ou nada perdeu. Mas também vai ser muito injusto reclamar daquilo que foi decidido.

Como fazer omelete sem quebrar os ovos? Eu ainda não descobri uma saída alternativa.

Zildenor Dourado é jornalista e cronista, assumidamente radical coxinha