JAZZ COM SABOR DE MARACATU, por Paulo Lima

Pianista pernambucano Amaro Freitas

O Pianista pernambucano Amaro Freitas é um assombro. Fico me perguntando como só fui conhecê-lo graças à sua apresentação apoteótica no Sesc Consolação, em mais uma edição do Sesc Instrumental. Como nunca soube antes de sua existência, desse milagre brasileiro?

Sendo para mim uma novidade, imaginei que tipo de som sairia daquele piano dominando o palco. Entre as infinitas possibilidades do instrumento, tudo seria possível.

Mas minha surpresa foi infinitamente maior. Na extensa constelação de grandes virtuoses pianísticos que o Brasil tem, Amaro Freitas atingiu a façanha de desenvolver um estilo próprio. E sendo ainda tão jovem.

Seu piano tem uma base jazzística, com toda a potência e influências inerentes a esse gênero. No entanto, o que distingue o som de Amaro Freitas é a exploração percussiva do instrumento, num universo, como o brasileiro, em que se destaca uma expressão mais dada ao lírico e ao melódico. Pense, por exemplo, em todas as bossas da Bossa Nova e na alma intrínseca ao nosso cancioneiro popular.

Pianista pernambucano Amaro Freitas

Se a estrutura musical de Amaro tem como eixo o jazz, a essência está impregnada da tradição pernambucana. De toda a riqueza do Maracatu, do frevo e da ciranda, entre outros andamentos, ele extrai as camadas rítmicas, produzindo um sabor particular e peculiar.

E essa travessia é feita no ilimite da criatividade e das potencialidades. À moda do vanguardismo e do experimentalismo de John Cage, Amaro persegue sonoridades, alterando o som do piano mediante a manipulação das cordas. Os experimentos formais se refletem também no eco de gigantes como Thelonius Monk e Hermeto Pascoal, referências confessas de Amaro.

Debruçado sobre o interior do instrumento, é como se ele tocasse com o corpo inteiro, e não vai aí nenhuma metáfora. Ele chega a usar os cotovelos no teclado, não com intenção performática, mas para conseguir o máximo de expressividade.

Com apenas dois discos gravados (“Sangue negro”, de 2016, e “Rasif”, de 2019), mas já acumulando apresentações em palcos internacionais, como o Festival de Jazz de Montreaux, Amaro conta com os excepcionais músicos Jean Elton, no baixo acústico, e Hugo Medeiros, na bateria, formando o Amaro Freitas Trio.

O show histórico foi concluído pernambucanamente com um frevo, seguido de bate papo mediado pela jornalista Patrícia Palumbo e intervenções da plateia. Amaro falou de sua trajetória e aprendizado, que começou quando ele ouviu um disco de Chick Corea. “Foi ali que me perdi”, disse. Quando pensamos nas horas de conservatório a que se dedicou para atingir seu atual estágio, Amaro dá uma informação desconcertante: estudou sozinho.

Eu não poderia concluir sem mencionar o que presenciei ao final do show. Estando bem próximo ao palco, vi quando Amaro mostrou as mãos a Jean Elton. Alguns dedos sangravam. Nada além da paixão que esse músico fenomenal dedica ao piano, proporcionando acontecimentos gloriosos como o do Sesc Instrumental.

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