Poesia e crueza, ferramentas para crescer em ‘Big Jato’

Novo filme de Cláudio Assis, baseado no romance de Xico Sá, fala de amadurecimento num Brasil arcaico

De todo crescimento, marcado por ritos de passagem, faz parte uma dose importante de sofrimento e outra de aventura. Big Jato – o mais recente longa-metragem do cineasta pernambucano Cláudio Assis, agora em cartaz nos cinemas brasileiros – prefere se concentrar na segunda para retratar os passos, rumo à vida adulta, de um adolescente curioso que cresce na secura do sertão de Pernambuco.

O filme, descrito como uma versão mais leve do radicalismo criativo de Assis, famoso por obras como Amarelo Manga, Baixio das bestas e Febre do rato, é baseado no romance autobiográfico e homônimo de Xico Sá, jornalista e colunista deste EL PAÍS. Em 2015, recebeu cinco prêmios no último Festival de Cinema de Brasília, entre eles o de melhor filme e de melhor ator para Matheus Nachtergaele, e passeia narrativamente o tempo todo entre a matemática e a poesia. É suave, sem deixar de lado o dom de Assis de provocar.

Como o protagonista do romance, o adolescente também se chama Xico. De um dos lados que o influenciam sua caminhada, está seu pai, matuto, conservador e fiel ao suor do trabalho que lhe permite ganhar a vida, que o filho apesar de tudo admira e respeita. Com ele, Xico roda os arredores da cidade onde moram, a fictícia Peixe de Pedra, participando do trabalho de desentupir as fossas alheias e lidar com o dejeto humano. Na ponta oposta, fica o tio, uma radialista ocioso, sua referência mais próxima de modernidade, por quem ele sente grande afeto e que o incita a se aventurar. Ambos personagens ganham vida na atuação maestra Nachtergaele. “Matemática dá dinheiro. Poesia, só calo na tua imaginação”, diz o pai, contrariando os impulsos que brotam no filho. Ele representa a fórmula – e uma fórmula desgastada; enquanto o tio concentra tudo o que desconhece regras e Xico, um garoto responsável porém criativo, terá que decidir o que resulta dessas matrizes. E ele o fará, sem rancor e sem medo.

A história (contemporânea) nasce da experiência pessoal que compartilham Cláudio Assis e Xico Sá. Ambos cresceram no sertão nordestino (o primeiro em Caruaru, em Pernambuco, e o segundo no Cariri, no Ceará) e, jovens, deixaram suas cidades para batalhar outras realidades longe de casa. “Quem não reage, rasteja”, diz o para-choque do caminhão que dá nome ao filme e, não por acaso, é uma frase frequentemente dita na vida por Cláudio Assis. Para o diretor, que se lembra de ter dado sua “primeira entrevista querendo ser cineasta para Xico Sá querendo ser jornalista”, “o sertanejo forte é o que parte, não o que fica” – outro mote de Big Jato. Os dois foram amigos na universidade, em Recife, e Sá é padrinho do filho de Assis, que por sinal atua no filme (é Xico aos 10 anos).

Ainda que fale de amadurecimento e se apresente como “uma fábula sobre ir em busca dos sonhos”, nas palavras do próprio diretor, o longa problematiza um Brasil que se moderniza sem romper com suas forças mais retrógradas e tampouco com a pobreza mais dura. A Peixe de Pedra chega um tipo de progresso que torna o caminhão limpa-fossas obsoleto e aposenta à força o pai de Xico, mas nunca aquele que melhora a qualidade de vida das pessoas. Lá estão os celulares, que não funcionam como tal, porque não há sinal telefônico, e terminam servindo como meros reprodutores de música e máquinas de selfies.

Xico, no entanto, não se ressente. Escuta a música de Os Betos e The Beatles, se inicia no sexo com uma prostituta mas se enamora de uma menina recém-chegada à cidade, vai à escola tradicional e, apesar dela, sente puro tesão ao recitar Camões num programa de rádio. É o sertão onde tudo faz falta, menos a imaginação de um garoto.

Fonte brasil.elpais