Um pouco de prudência, por favor

Notícias econômicas da semana

Notícias econômicas da semana

Nesta semana tivemos uma sequência de boas notícias econômicas sendo amplamente veiculadas pela mídia.

O resultado previsível foi: os apoiadores do governo exaltando os fatos, os opositores tentando minimizar, vários agentes de mercado revisando suas previsões para cima, e, os políticos tentando lucrar em cima dos fatos.

Resultado: pronunciamento do Excelentíssimo Senhor Presidente da República em rede nacional destacando o feito no dia 02 de junho de 2021. Tais movimentos são naturais, especialmente em um momento tão crítico para a humanidade, visto que as pessoas anseiam por boas notícias em todos os âmbitos.

Todavia, é essência termos prudência nos números indicados e é sobre esse fato que irei tratar nesta coluna de hoje.

Costumo afirmar que poucas coisas são tão nocivas ao mercado que a euforia, pois quando temos um movimento eufórico não são raras as vezes que vemos a formação de bolhas. Em economia é fundamental termos em vista, sempre, duas palavras: estrutura e conjuntura.

Quando vemos fenômenos conjunturais eles tendem a ser passageiros, quando vemos ações estruturais seus efeitos tendem a ser de longo prazo, para o bem ou para o mal. Um exemplo é o plano Real.

Ao alterar a estrutura monetária de nosso país, debelou a hiperinflação e nos forneceu uma moeda estável. Permanece desde 1994. A inflação acumulada no período é a mesma que tínhamos em um semestre no período imediatamente anterior ao Plano Real.

Já o auxílio-emergencial é uma medida conjuntural, existe em função de uma situação específica, e, seus efeitos são sentidos em um período específico.

A primeira informação positiva é o crescimento do PIB em 1.2% no primeiro trimestre de acordo com o IBGE. Não há dúvida que é uma notícia promissora, pois indica que a economia brasileira está em um processo de retomada.

No entanto, é fundamental perceber quanto do componente deste crescimento é vinculado ao auxílio-emergencial, a aumento de empregos, e, produção no país. Apenas desta forma iremos ter uma visão clara do crescimento real do país.

A segunda notícia importante foi a criação de novecentas mil vagas formais no mercado de trabalho. Esta é uma excelente notícia, pois afeta de forma direta no PIB, temos um claro aumento de produtividade, e, temos mais pessoas empregadas.

O que deve ser visto são duas questões: qual percentual destas vagas é recomposição do mercado de trabalho? e, qual percentual são, efetivamente, novas vagas?

As respostas a estas perguntas são fundamentais para visualizarmos o mapa do trabalho no país. Basta notar que, apesar da excelente notícia da criação de vagas formais, temos um aumento de informais ainda.

A terceira notícia de impacto foi o aumento do Investimento Estrangeiro Direto [IED] no país. Os efeitos se fizeram sentir rápido na economia, pois com a maior entrada de moeda estrangeira no país, tivemos uma substancial queda do valor do dólar e consequente valorização do real.

Este efeito também irá se fazer sentir na inflação, pois em decorrência do efeito pass through, os produtos que têm seu custo vinculado a variação cambial tendem a baixar o preço. Chamamos de efeito pass through, ao fenômeno de aumento/redução dos preços internos do país, que ocorre quando o dólar se valoriza/desvaloriza frente à moeda nacional. Agora, uma notícia que não foi bem explicada.

Outro motivo de comemoração foi o superávit primário realizado pelo Governo. No entanto, não ficou bem claro se o superávit foi obtido pela redução de gastos do Governo, altamente desejável, ou, se pelo aumento de arrecadação, o mais provável.

Como tivemos de fato um aumento de arrecadação no primeiro trimestre, é muito provável que este superávit se deu em decorrência deste fato, o que não é positivo. Aumento de arrecadação significa impostos, impostos destroem produção, a destruição de produção destrói empregos e sustentabilidade no longo prazo. É necessário atenção a esta informação.

A última informação foi a que diversos gestores projetaram um crescimento do PIB para 2021 variando entre 4% e 5.5%.

Apesar de positivo este otimismo, é essencial mantermos prudência neste tipo de projeção, pois existem uma série de fatores que podem afetar este resultado, dentre elas: a aprovação das reformas, administrativa que está avançando, e, a Tributária, que estancou até o momento.

A ampliação dos projetos de privatização, sem o tipo de “bombas-relógio” embutidas no projeto da Eletrobrás, a necessidade da vacinação se ampliar a toda população, e, a questão da estrutura energética que ressurgiu recentemente.

Ou seja, houve evolução no país, sim, mas ainda tem muita coisa a ser feita. Devemos comemorar as boas notícias, mas a euforia é péssima companheira para continuarmos neste percurso. Comemoremos sim, mas sem abandonar a prudência jamais.

Artigo – Sandro Schmitz dos Santos – Analista e Consultor Internacional, Doutorando em Economia pela SMC/Genebra, e, Sócio-Diretor da Austral Consultoria & Investimentos

✔ Por Sandro Schmitz , para o Cultura Alternativa

👉 acesse os – Artigos de Sandro Schmitz no Cultura Alternativa

📍 **Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha do Cultura Alternativa. 📍