Uma bola laranja sob os céus de Hiroshima

Céus de Hiroshima

Céus de Hiroshima – 75 anos da bomba

Pontes e rios

Em agosto de 2016, enquanto caminhava pela ponte Aioi, senti um vento frio atravessar a minha jaqueta, pensando em presságio de chuva, olhei para o céu azulado de início de primavera e deixei que suaves raios de Sol me tocassem a face.

Definitivamente não eram chuvas chegando. Por alguns segundos continuei fitando os céus e fiquei imaginando que há 71 anos, todo aquele azul fora transformado em um pesado manto alaranjado intenso desabando sobre a terra.

Em uma fração de segundos a humanidade iniciaria uma nova era, testando ao máximo toda sua capacidade de letalidade e de autodestruição.

Caminho da escola

Eram 08h15 da manhã, hora de entrada das crianças e adolescentes nas escolas. Grupos de pais e alunos caminham apressadamente pelas ruas, nos portões de entrada meninos e meninas, de quatro a doze anos, carregando mochilas de lona e merendeiras penduradas a tiracolo com seus rostinhos sonolentos.

Os mais velhos puxam pelas mãos o “trenzinho” dos irmãos para o caminho da escola, outros são trazidos pelas mães zelosas.

Midori deixou Kyoshi na porta da escola, ajeitou a gola de seu uniforme, virou-o em direção a porta de entrada e deu uma tapinha das costas como que o empurrando carinhosamente para que se apressasse.

No auge de seus oito anos, o menino caminhou com seus passinhos hesitantes em direção ao grupinho de amigos que já o aguardava. O quadro de avisos na parede do corredor marcava a data: 06 de agosto de 1945, cidade de Hiroshima.

Kyoshi integrou a lista de mais de 120 mil pessoas que perderam suas vidas naquele dia, destas, mais de 40 mil nunca foram sequer encontradas, estima-se que mais 250 mil morreram em consequência dos ferimentos e efeitos colaterais da radiação nos meses posteriores.

O museu da paz em Hiroshima guarda resquícios do que foi aquele dia; unhas, cabelos, restos de uniformes escolares, marmitas, lápis e cadernos foram tudo o que sobrou. A maior parte das vítimas foram crianças e mulheres que estavam nas ruas desprotegidas justamente por ser horário escolar.

Céus de Hiroshima

Um dia como outro qualquer

Naquele dia, tudo aparentava normalidade. Apesar da guerra, Hiroshima não era considerada um alvo estratégico, a não ser por algumas fábricas e um campo de prisioneiros norte-americanos a alguns quilômetros dali. Mais tarde, o exército aliado publicou que a cidade abrigava uma importante base de fuzileiros da Real Marinha Japonesa.

Era comum que aviões aliados sobrevoassem a região em direção a outros alvos. A guerra estava terminando, as famílias esperavam por notícias de seus parentes, amigos, filhos e maridos que em breve retornariam dos campos de batalha.

Primeiros sinais

Mas por volta das 06h30 da manhã, algo diferente aconteceu; observadores olhando para o céu avistaram um grupo de bombardeiros, provavelmente americanos, lançando pequenas capsulas metálicas por paraquedas sobre a região.

Não podiam imaginar que eram equipamentos de medição de temperatura, velocidade de ventos e de radiação, lançados para registrar o experimento científico, político e militar que estava por vir.

Às 08h00 as sirenes começam a tocar, as pessoas olharam para cima, poderia ser mais uma revoada de bombardeiros, uns procuram abrigos nas marquises, outros apertam o passo pelas ruas, as crianças entram na escola, um silêncio toma conta de todos, mães mesmo apreensivas, esforçam-se para manter a normalidade e não assustar ainda mais as crianças.

E os céus desabam em chamas

De repente, um grande estrondo e uma gigantesca bola de fogo laranja irrompem a 600 m de altura do solobem no centro da cidade. Uma explosão equivalente a 15.000 toneladas de dinamite libera uma onda de choque que destrói praticamente todas as edificações pulverizando os frágeis corpos humanos que encontra pelo caminho.

Simultaneamente, uma onda de calor na ordem de milhões de graus Celsius faz pessoas, literalmente sublimarem (passar do estado sólido para o gasoso) em questões de milésimos de segundos, derretendo tudo e incinerando as peles alvas das pessoas que estavam mais distantes.

A seguir, um sopro quente e um grande deslocamento de ar inverso na velocidade de 1600 km/h arremessa para o infinito o que restou dos sobreviventes. Hiroshima passava para a história como a primeira cidade do mundo a sofrer um ataque nuclear. Dias depois, seria a vez de Nagasaki.

Decisão

Os Estados Unidos alegavam que a bomba apressaria a rendição japonesa, poupando vidas e recursos aliados, mas o fato é que as duas bombas foram consequências de um conjunto de decisões que envolveram cientistas, políticos e militares.

Para os cientistas, um misto de curiosidade acadêmica, redenção, egos inflados e a necessidade de uma conclusão prática sobre os efeitos reais de um experimento que iniciara muitos anos antes, desde que se descobriu que através da fissão nuclear, uma grande quantidade de energia era liberada em um curto intervalo de tempo.

Para os políticos, Hiroshima e Nagasaki passaram a ser o pretexto necessário para mover as peças no grande tabuleiro de xadrez que virou a disputa pelos espólios de guerra.  Americanos e Russos disputavam cada palma deste valioso espólio.

A URSS liderada por Stalin teve papel decisivo na frente Leste para a derrota alemã, seus tanques avançavam em direção a Europa Ocidental depois da invasão de Berlim. O alerta foi aceso em Washington durante a Conferência de Potsdam, quando a União Soviética não demonstrou a intenção de parar o avanço de suas tropas em direção a Europa Central.  Truman sabia que era necessário intimidá-los.

Era preciso deter o rolo compressor russo. A decisão final de jogar as bombas atômicas sobre a ilha do Japão foi tomada durante a conferência.

Os norte-americanos tiveram perdas significativas de pessoal e material durante a Guerra contra o Império Nipônico. E muitos ranços relacionados aos crimes de guerra infringidos dos dois lados, ainda traziam consequências mesmo no final do conflito.

O ataque japonês sobre Pearl Harbour ainda era uma ferida aberta no orgulho americano. As grandes batalhas no Pacífico causaram grandes perdas como a tomada de Oknawa, Iwojima, Midwai, Guadalcanal e outras que dizimaram milhares de vidas da elite militar dos Estados Unidos.                                                                                                                                       

Além disso, um novo panorama na estratégia militar mundial se apresentava, o Alto Comando das Forças Armadas sabia que o que pouparia esforços de guerra nos conflitos do futuro, seria a supremacia do poderio militar e tecnológico e neste contexto, entravam as armas inovadoras e de grande poder de destruição como ferramentas fundamentais.

Todas as peças do processo decisório estavam completas: Política, militarização e feitos científicos nunca vistos. Os destinos de Hiroshima e Nagasaki estavam selados.

Mil Tsurus

Sadaku Sasaki tinha dois anos de idade naquele fatídico dia. Sua família morava a quase dois quilômetros no epicentro da explosão da bomba, o efeito sopro destruiu a casa e arremessou a menina pela janela, sua mãe a encontrou no quintal ilesa e sem ferimentos aparentes.

Com Sadaku no colo, ela se juntou a procissão de horror de centenas de milhares de pessoas pelas ruas em uma busca inútil por socorro médico e abrigo. Cerca de 30 minutos após a explosão, uma chuva negra encharcou as pessoas de matéria radioativa, causando necrose nos ferimentos e contaminando todos que ficaram expostos.

Sadaku e sua família sobreviveram, mas em novembro de 1954, quando a menina tinha 12 anos, ela desenvolveu inchaços no pescoço e atrás das orelhas. Em janeiro de 1955, manchas roxas tinham se formado nas pernas. Posteriormente, ela foi diagnosticada com leucemia, sua mãe referiu-se como “uma doença da bomba atômica”.

No hospital, um amigo a levou a conhecer a história da magia do tsuru: ele a presenteou com a dobradura de origami e contou-lhe uma lenda segundo a qual quem fizesse mil tsurus poderia ver os seus desejos realizados.

Foi assim que começou a saga de Sadako. Com afinco, ela dobrou centenas de tsurus diariamente.  Ela faleceu em 25 de outubro de 1955 aos 12 anos de idade.

Os amigos da escola da pequena Sadako continuaram dobrando e enterraram 1000 tsurus com ela. Com isso, eles criaram um grupo com o objetivo de erguer um monumento em homenagem à Sadako e a todas as crianças vítimas da bomba.

Em 1955, em Hiroshima, ficou pronta a estátua de Sadako Sasaki segurando no ar um tsuru dourado. Todos os anos, no dia 6 de agosto, o monumento recebe tsurus de diversos países.

Primeiro fotógrafo da era nuclear

Às 08h15 do dia 6 de agosto de 1945 em Hiroshima, Yoshito Matsushige (1913-2005), fotógrafo do jornal local “Chugoku”, estava em casa, a 2.700 metros do impacto da bomba.

Naquele dia, tirou apenas cinco fotos com sua Mamiya 6. Na ponte Miyuki, os corpos machucados e as roupas rasgadas de um grupo de estudantes ainda vivos são uma das imagens mais conhecidas do ataque.

“Tive que esperar 20 minutos até ter forças para fotografá-los. Quando eu e outros fotógrafos chegamos ao epicentro fomos incapazes de registrar qualquer imagem, tão dramático era tudo o que víamos.

Hoje, eu me arrependo de não o ter feito”, diz Matsushige em entrevista para Christine Cibertda France Presse.

Nagasaki, triste acaso.

Se em Hiroshima havia o pretexto de ter uma base de fuzileiros japoneses que justificassem a escolha, em Nagasaki, nem isso. A cidade nunca foi um alvo primário. Por ser cercada de montanhas, os cientistas calcularam que os efeitos da bomba, mesmo sendo mais poderosa do que a jogada em Hiroshima, poderiam ser amenizados.

Por isso escolheram Kokura, que seria atacada em 11 de agosto. Mas devido a espessa fumaça nos céus, causada por bombardeios convencionais no dia anterior e condições de mal tempo meteorológico, optou-se pelo alvo alternativo. Nagasaki entrava para a história como a última cidade a sofre um ataque nuclear.


Texto de Andre Trindade