Bienal bate recorde e mostra que o livro virou também experiência cultural
A Bienal do Livro de São Paulo terminou em 13 de setembro com cerca de 760 mil visitantes, o maior público de sua história.
O número superou a expectativa inicial de 700 mil pessoas e, além disso, veio acompanhado de crescimento nas vendas de editoras e livrarias.
O resultado, porém, levanta uma questão mais interessante do que o próprio recorde: se o brasileiro lê pouco, por que tanta gente se mobiliza em torno dos livros?
Talvez o Brasil não esteja deixando de gostar de livros. Talvez esteja mudando a maneira de chegar até eles.

Bienal do Livro de SP
O brasileiro lê pouco ou estamos medindo a leitura de forma limitada?
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou, em sua edição mais recente, que 47% dos brasileiros foram classificados como leitores. O dado preocupa porque representa queda em relação a levantamentos anteriores.
Ainda assim, medir leitura apenas pelo número de livros lidos em determinado período não revela toda a relação contemporânea com o universo literário.
Hoje, leitores descobrem títulos em vídeos curtos, acompanham autores nas redes sociais, participam de clubes de leitura, escutam audiolivros, frequentam feiras e compartilham recomendações em comunidades digitais.
Nesse contexto, a Bienal ajuda a mostrar uma transformação importante: o livro deixou de ocupar apenas a estante e passou também a integrar experiências sociais e culturais.
Comprar livro é o mesmo que ler?
Não necessariamente.
Uma pessoa pode comprar vários livros e não concluir nenhum deles. Da mesma forma, participar de uma Bienal não transforma automaticamente alguém em leitor frequente.
Por outro lado, o aumento das vendas indica que o interesse não ficou restrito ao passeio pelo evento. Editoras relataram crescimento expressivo de faturamento em comparação com 2024, sinal de que parte do público também levou livros para casa.
A questão, portanto, está no que acontece depois.
O grande desafio do mercado editorial não é apenas vender durante dez dias de feira. É transformar o entusiasmo momentâneo em hábito de leitura ao longo do ano.
Bienal do Livro de SP
Redes sociais estão ajudando a formar leitores?
Em parte, sim.
TikTok, Instagram e YouTube mudaram profundamente a descoberta de livros. Além disso, fenômenos como o BookTok ajudaram a transformar romances, fantasias e títulos juvenis em assuntos compartilhados por milhares de pessoas.
Essa dinâmica cria algo que a leitura tradicional nem sempre oferecia: sensação de pertencimento.
O leitor já não conversa apenas com o livro. Ele conversa também com outros leitores, autores e influenciadores.
Ao mesmo tempo, as redes podem recuperar obras antigas. Clássicos que durante décadas circularam principalmente em escolas voltam a ganhar atenção quando alguém apresenta essas histórias de maneira acessível e emocional.
Por isso, o digital não precisa ser visto como inimigo da leitura. Em muitos casos, ele funciona como porta de entrada.
Por que alguns gêneros mobilizam multidões?
Fantasia, romance, suspense, terror, mangás e literatura jovem conquistaram comunidades particularmente engajadas.
Além da narrativa, esses gêneros oferecem identificação, fandoms e interação constante. Leitores comentam personagens, produzem vídeos, criam teorias e esperam lançamentos como acontecimentos culturais.
Na Bienal, essa força aparece nas filas para autógrafos, nos encontros com escritores e nos títulos que se esgotam rapidamente.
Os clássicos, por outro lado, muitas vezes chegam ao público associados à obrigação escolar. Portanto, a dificuldade talvez não esteja apenas na obra, mas também na maneira como ela é apresentada.
Bienal do Livro de SP
O livro virou experiência cultural
A Bienal de 2026 também deixou evidente uma mudança de comportamento.
O visitante não vai apenas para comprar livros. Ele participa de palestras, encontra autores, fotografa cenários, acompanha lançamentos, produz conteúdo para redes sociais e convive com pessoas que compartilham interesses semelhantes.
Em outras palavras, o livro tornou-se o centro de uma experiência mais ampla.
Essa transformação ajuda a explicar por que eventos literários conseguem atrair multidões mesmo em um país que registra índices modestos de leitura.
Recorde da Bienal não significa necessariamente mais leitores
O sucesso também trouxe problemas. Mesmo com espaço ampliado, houve relatos de superlotação, filas e dificuldades de circulação.
Ainda assim, 760 mil visitantes reunidos em torno de livros não podem ser tratados como um dado irrelevante.
O recorde não prova que o brasileiro passou a ler mais. Contudo, mostra que existe interesse cultural, afetivo e social pelo universo literário.
Por fim, talvez a pergunta mais produtiva não seja apenas “quantos livros o brasileiro lê?”, mas também “como ele chega até eles?”.
Se eventos, redes sociais e comunidades digitais conseguirem transformar curiosidade em hábito, a experiência cultural pode ser justamente o primeiro passo para formar leitores duradouros.
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