Dois Olhares sobre o Ciúme - Site Cultura Alternativa

Dois Olhares sobre o Ciúme. Qual é o seu?

Dois Olhares sobre o Ciúme. Qual é o seu?

A peça “Paris Rio” da companhia franco-brasileira Teatro no Forte nos instiga a refletir sobre como lidamos com o ciúme.


Entrevista de Carlos Dias Lopes com os produtores da Violino Filmes, o casal franco-brasileiro Hissa de Urkiola e Guy Fouché, para Cultura Alternativa


Assisti a estreia da temporada em abril e o encerramento em outubro. Se tornou nítido o constante trabalho da companhia.

O ciúme, sentimento universal denso e por vezes incontrolável, ganha forma na intrigante adaptação cênica de dois textos teatrais: Pela Janela, de Georges Feydeau, e Uma Noite em Claro, de Artur Azevedo. O espetáculo apresenta um jogo cênico que transita entre a comédia francesa e a comédia de costumes brasileira.

Dois olhares distintos sobre a perda de controle provocada pelo ciúme, com a concepção de Hissa de Urkiola, direção de Dionis Tavares e Hissa de Urkiola e Ruan Calheiros no elenco.

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Carlos Lopes: Por que será que Feydeau escolheu como personagem estrangeira, justamente uma brasileira, para ir à casa de um parisiense?

Hissa de Urkiola: Suponho que foi porque Feydeau, se inspirou na versão revisada da Opereta ”La Vie Parisienne” ( A Vida Parisiense ) de Offenbach,  que estreou em Paris quando Feydeau tinha 13 anos. Nessa Opereta vemos o personagem de um rico brasileiro excêntrico, que canta a ária “J’aI de l’Or” (Tenho Ouro).

Em plena Belle époque em Paris, o Brasil era visto como um país exótico, que tinha ricos excêntricos. Imagino que Feydeau assistiu essa Operetta, antes de criar a divertida e exótica personagem de Emma, brasileira, que mora em Paris com o marido, um velho rico. Emma acusa o marido de ciumento. Decidida a se vingar do marido, ela vai até a casa do desconhecido vizinho que mora em frente, com o intuito de fazer com que seu marido Alcibíades a veja pela janela com outro homem e morra de ciúmes.

Esse é seu plano de vingança. Estabelecendo um paralelo com a peça Don Juan de Molière, que também faz parte do repertório da companhia, Emma incorpora a ingenuidade e simplicidade das camponesas Mathurine e Charlotte.

Já o vizinho, filhinho de mamãe autoritária, que tenta em vão agradar as mulheres, desprovido de astúcia, parece uma versão sofisticada de Sganarello, medroso e com pouca iniciativa própria.

Dois Olhares sobre o Ciúme

Carlos Lopes: Notei um elemento que certamente foi uma criação, um misterioso livrinho vermelho. O que está por trás dele?

Hissa de UrkiolaEsse livrinho é uma criação nossa sim, é o elemento de conexão, que passa pela mão de todas personagens que leem o título: “O ciúme Envenena quem o Bebe”, “La Jalousie Empoisonne qui la Boit”. Cada personagem interpreta o título do livrinho à sua maneira, o que leva o público a refletir sobre suas escolhas pessoais sobre o tema. No rápido intervalo entre as peças para troca de figurino e cenário, Guy Fouché apresenta uma reflexão instigante sobre o ciúme de Feydeau e uma de Artur Azevedo.

Guy Fouché:  Sim no intervalo eu leio a frase de Feydeau “O maior perigo do ciúme não é a traição, é a imaginação, sempre mais criativa que a realidade.”

Hissa de Urkiola: Tudo acontece pela janela e principalmente pelo que as personagens imaginam ver pela janela.

Guy Fouché:  Na trama de “Pela Janela”, o parisiense Georges Feydeau revela o talento que o levaria a estar em cartaz em Paris. Desde que ele escreveu essa sua primeira peça curta em 1881 aos 19 anos, até os dias de hoje, suas peças ficam em cartaz, completando mais de um século de sucesso.

Essa peça esteve em cartaz no Festival Avignon Off deste ano, interpretada por uma companhia francesa. Aliás nossa companhia também se apresentou no Festival Avignon OFF deste ano com nossa peça contemporânea autoral “A Filha do Pai”, um sucesso de público e de crítica.

Mas voltando para “Pela Janela” publicamos nossa tradução, com o patrocínio pela Lei do ISS.

Carlos Lopes: Qual foi a escolha da interpretação das personagens de Artur Azevedo em contato com o “livrinho do ciúme”?

Hissa de Urkiola: “O Ciúme Envenena” quem o bebe para a personagem feminina, representa um lembrete de não ficar imaginando o pior. Já o personagem masculino se esquiva, literalmente evitando beber desse veneno. 

Em “Uma Noite em Claro” Artur Azevedo, apresenta personagens bem brasileiros, sedutores e deliciosos. Os dois desconhecidos se veem juntos trancados num quarto de hotel, sendo que ambos têm cônjuges ciumentos.

É claro que eles passam a noite em claro, num jogo de sedução intenso. As personagens lembram “A Vida Como Ela É” de Nelson Rodrigues, pois diante da situação inusitada revelam seus desejos, nuances e jogo de sedução.

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Carlos Lopes: Nos fale um pouco sobre as escolhas de figurinos e cenário

Hissa de Urkiola: As escolhas do diretor Dionis Tavares e da diretora de arte Bia Del Negro contrastam cores fortes, propositalmente escolhidas para a espalhafatosa personagem da peça francesa, com a paleta de cores de tons em torno da cor sépia, meticulosamente escolhida pelo diretor para a peça brasileira.  A “janela” e o “espelho” — objetos-símbolos centrais em cada história revelam, respectivamente, o olhar dos personagens voltado para fora e o olhar voltado para dentro.

Carlos Lopes: Sendo entrada franca, como o trabalho da Companhia se mantém?

Guy Fouché: A companhia franco-brasileira Teatro no Forte, proporciona desde 2013, com o apoio institucional do Museu Histórico do Exército e Forte de Copacabana, um programa mensal variado gratuito ao público. Várias temporadas contaram com o patrocínio pelas leis de incentivo Rouanet e Lei do ISS.

Em 2025 foi a vez da Sociedade dos Amigos da Cultura, patrocinar nosso trabalho, que engloba como contrapartida Social a Oficina de francês, que coordenamos desde 2023, com a participação de franceses e brasileiros voluntários, para crianças da Escola Solar Meninos de Luz das comunidades Cantagalo e Pavão-Pavãozinho.

Carlos Lopes: Um aspecto relevante e inovador que me surpreendeu, é o uso de legenda eletrônica por inteligência artificial, recurso inédito em companhias brasileiras. Da onde veio essa ideia?

Guy Fouché:  Soubemos que o diretor da escola francesa Lycée Molière usa esse recurso em suas reuniões com os pais. Tivemos mais desafios por serem dois atores em cena e por conta da distância entre os microfones dos atores e o computador. 

Além de produtor cultural sou engenheiro em informática formado em Paris. Foram vários meses de testes até conseguirmos “fazer funcionar” as legendas por IA. Apesar de ocasionais falhas de sincronia, a tecnologia dá mais liberdade aos atores, tornando o espetáculo acessível ao público francês. Trata-se de uma aposta ousada que aponta para o futuro do teatro acessível e tecnológico.

Carlos Lopes: Você é a idealizadora além de ser a produtora das Temporadas e da Companhia?

Hissa de Urkiola: Sim, desde que criei o conceito de programa variado em Paris, onde ficamos dois anos em cartaz, com o Sarau da Hissa, assino a curadoria de pesquisa e escolha do repertório. Se trata de um trabalho de pesquisa contínuo, muitas das peças encontrei apenas datilografadas na Biblioteca da Funarte. Resgatar esse patrimônio cultural é uma de nossas missões. Mas já incluímos uma peça contemporânea na Temporada 2024, outras virão.

A companhia franco-brasileira é extremamente afinada, pois trabalhamos juntos desde 2013, quando estreamos a montagem de “Uma Noite em Claro”, sob direção da portuguesa Mafalda Rodiles. Bia Del Negro assina a direção de arte desde a primeira montagem. Dionis Tavares passou de ator a diretor, desde que se mudou para São Paulo.

Os ensaios da companhia são majoritariamente on-line, legado dos tempos de pandemia, quando a companhia não parou e se reinventou, através dos 25 episódios do “Minuto Corona”, expandindo limites de tempo e espaço. Os episódios continuam disponíveis no canal youtube Curta com Teatro.

Dois Olhares sobre o Ciúme

Carlos Lopes: Qual é a sua rotina como atriz?

Hissa de Urkiola: Incluo na rotina a parte musical de treino de canto, violino e piano.  Sempre me atualizo fazendo algum curso novo todos os anos. Mas o feijão com arroz diário, consistente e persistente é o coach. Há 10 anos comecei um trabalho de coach presencial com a preparadora de elenco Bárbara Evelyn.

Esse trabalho foi a base essencial para podermos trabalhar agora, 10 anos mais tarde, 100% online, com Bárbara morando em São Paulo e eu no Rio de Janeiro. Amo o trabalho com Bárbara, baseado na rasa indiana, nela o ator é treinado para ser um “atleta das emoções”.

O trabalho de Bárbara complementa perfeitamente a direção de Dionis Tavares, que tem uma sensibilidade cativante, que deixa nós atores muito a vontade, com seu trabalho de direção baseado em gráfico de emoções.

Carlos Lopes: Quais são os planos para a Temporada 2026?

Hissa de Urkiola e Guy Fouché:

A montagem de Rio Paris sobre o tema da “Sorte ou Azar”? A montagem reúne a peça curta brasileira “Como me Diverti”de Artur Azevedo e a francesa “Amor e Piano “de Georges Feydeau. Temos um novo membro na companhia, Florian Tomazini diretor de conteúdo para as redes sociais. Florian é um francês apaixonado pelo Rio de Janeiro onde se estabeleceu há quatro anos. 

O videomaker e fotógrafo muito criativo e talentoso Flo, como o chamamos, trouxe uma dinâmica de qualidade às redes sociais da companhia. E vem aí uma nova fase! A companhia vai dar início ao “Teatro na Tela” em 2026. Vamos continuar as montagens teatrais e expandir para o lançamento de um filme por ano. Teatro na Tela tem previsão de lançamento em setembro de 2026 com o filme da montagem da temporada de 2025.

Vamos deixar um legado de filmes sobre as montagens de peças de época e peças contemporâneas com legendas em vários idiomas.  O teatro é um evento único e efêmero, o Teatro na Tela vai proporcionar memória ao teatro expandindo mais uma vez nossas fronteiras de tempo espaço.

Acompanhem pelo instagram @teatronoforte