Harmonia, união e compreensão em tempos de polarização
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Anand Rao reflete sobre convivência, diálogo e respeito e encontra em pesquisas recentes sinais de que a maioria dos brasileiros não está nos extremos
As redes sociais podem transmitir a impressão de que o Brasil está dividido em dois blocos incapazes de conversar. Os dados, entretanto, revelam uma realidade mais complexa. Pesquisas realizadas em 2025 e 2026 mostram que parcelas expressivas da população estão fora da polarização política mais intensa e valorizam o diálogo, a convivência e a busca de soluções em comum.
Esse cenário serviu de ponto de partida para o programa “Harmonia, União e Compreensão”, apresentado por Anand Rao. Durante o bate-papo, ele defende uma escolha pessoal pela convivência respeitosa e questiona, ao mesmo tempo, a predominância de conflitos, radicalização e agressividade no debate público e nas redes sociais.
A reflexão parte de uma ideia simples. É possível discordar sem transformar uma conversa em confronto. Para Anand, sobretudo aos 65 anos, selecionar ambientes e pessoas com quem seja possível trocar experiências de maneira respeitosa passou, portanto, a fazer parte de sua qualidade de vida.
Tabela de conteúdos
Maioria está fora da polarização afetiva
Uma pesquisa divulgada em junho de 2026 pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) oferece um dado expressivo. O estudo nacional aponta que 69% dos brasileiros não se enquadram na chamada polarização afetiva estrita. O resultado, dessa forma, contrasta com a percepção de uma sociedade inteiramente dividida em campos antagônicos.
Esse conceito não significa simplesmente ter uma posição política. A polarização afetiva ocorre quando a identificação positiva com determinado grupo vem acompanhada de forte rejeição ao grupo adversário. O resultado sugere, portanto, que a maior parte da população não se encontra nessa combinação extrema de adesão e hostilidade.
Outro estudo chegou a uma conclusão semelhante em 2025. “O Brasil Invisível”, realizado pela More in Common em parceria com a Quaest, identificou que 54% dos brasileiros pertencem aos grupos denominados Desengajados e Cautelosos, considerados fora dos polos mais militantes. O levantamento, além disso, identificou um terreno comum entre brasileiros que podem apresentar posições políticas distintas.
A pesquisa traz números ainda mais diretamente relacionados à proposta de união. 75% dos brasileiros acreditam ter mais coisas em comum do que diferenças e 90% querem que os partidos políticos trabalhem juntos para resolver os problemas do país. Esses resultados mostram, por consequência, que a disposição para a cooperação pode ser maior do que o ambiente de confronto sugere.
Diálogo aparece como valor
Outro levantamento citado no programa foi realizado pelo Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis), em parceria com a Quaest, e divulgado em julho de 2026. Embora o estudo trate especificamente da educação e da violência contra crianças e adolescentes, 91% dos brasileiros afirmam que conversar é a forma ideal de educar. O diálogo aparece, assim, como um valor amplamente reconhecido pelos entrevistados.
O resultado não pode ser interpretado como uma pesquisa geral sobre tolerância política. Ainda assim, mostra a dimensão atribuída ao diálogo quando os brasileiros são questionados sobre relações familiares e educação. A compreensão, nesse sentido, ultrapassa o debate político e alcança situações da vida cotidiana.
Na área da diversidade, uma pesquisa da B3 com o Instituto Locomotiva, divulgada em abril de 2026, também apresenta um dado relevante. Entre os entrevistados, 39% associaram espontaneamente diversidade à palavra “diferenças”, enquanto apenas 1% fez associações negativas ao conceito. Os números indicam, portanto, uma ampla aceitação da ideia de diversidade, embora o levantamento também revele desafios existentes no combate ao preconceito.
Polarização produz tristeza, cansaço e medo
Se uma parcela significativa da população está fora dos extremos, os efeitos emocionais da polarização também aparecem nas pesquisas. O ambiente de confronto, entretanto, pode produzir consequências mesmo entre aqueles que não se identificam com posições radicalizadas.
Levantamento da Ipsos-Ipec, realizado em dezembro de 2025 com 2 mil pessoas de 131 municípios, perguntou qual sentimento melhor representava a reação dos entrevistados à polarização política. Tristeza foi mencionada por 19%, cansaço por 17% e medo por 16%. Somados, esses três sentimentos correspondem a 52% das respostas e revelam, dessa maneira, um desconforto significativo diante da divisão política.
Outra pesquisa Ipsos-Ipec, feita em agosto daquele ano, mostrou uma configuração que ultrapassava a simples divisão entre Lula e Bolsonaro. Enquanto 30% rejeitavam mais Bolsonaro e 29% rejeitavam mais Lula, 22% rejeitavam os dois igualmente e 18% não rejeitavam nenhum deles. Uma parcela relevante da população, portanto, não se encaixava integralmente na lógica de rejeição exclusiva a apenas um dos dois polos.
Os números ajudam a compreender uma das questões levantadas por Anand no programa. A enorme visibilidade dos embates nas redes sociais não significa, necessariamente, que toda a sociedade esteja organizada segundo a mesma lógica. O conflito pode ganhar maior exposição, enquanto posições moderadas aparecem com menos intensidade.
Redes sociais e a opção pela convivência
Anand relaciona essa discussão à própria experiência. No futebol, por exemplo, prefere conversar em um pequeno grupo, no qual diferentes opiniões podem circular sem que a paixão esportiva necessariamente se transforme em confronto. A convivência, dessa maneira, passa a ser mais importante do que a necessidade de vencer uma discussão.
A mesma lógica passou a orientar o Sarau Cultura Alternativa. Anteriormente, os encontros reuniam cinco ou seis convidados. Agora, Anand opta por receber uma pessoa de cada vez e amplia, assim, o espaço para ouvir sua história, suas ideias, sua poesia e sua música.
A divergência, nesse contexto, não precisa desaparecer. Ela pode existir sem desrespeito. Anand relata que procura, sobretudo, interlocutores capazes de ensinar alguma coisa e, simultaneamente, interessados em ouvir experiências diferentes das suas.
Aos 65 anos, uma escolha pela tranquilidade
Essa mudança também representa uma decisão sobre como utilizar o próprio tempo. Anand recorda que já realizou grandes jantares e reuniões em sua casa. Atualmente, entretanto, prefere encontros menores, cafeterias, restaurantes, saraus e conversas nas quais seja possível estabelecer uma relação de troca.
As transmissões pelas redes sociais acabaram se tornando parte desse processo. Nelas, apresenta seu ponto de vista, pesquisa previamente os assuntos e recebe, posteriormente, comentários e mensagens de pessoas que podem concordar ou discordar.
Há, porém, uma diferença fundamental. A divergência não precisa se transformar em agressão. O programa defende, justamente, a possibilidade de interromper o ciclo em que toda diferença de opinião parece exigir uma disputa.
Harmonia não significa pensar igual
Buscar harmonia não significa eliminar diferenças. As próprias pesquisas mostram, afinal, uma sociedade formada por diferentes grupos políticos, sociais e culturais. O desafio está em reconhecer essas diferenças sem transformar automaticamente o outro em inimigo.
O estudo “O Brasil Invisível” talvez apresente o número que melhor sintetize essa perspectiva: 75% dos brasileiros acreditam que têm mais em comum do que diferenças. Além disso, nove em cada dez desejam cooperação entre partidos para solucionar problemas concretos.
Ao terminar o programa, Anand resume sua posição em três palavras: harmonia, união e compreensão. Em uma época marcada pela abundância permanente de informações, opiniões e provocações no celular, escolher como conversar e com quem conversar também pode, consequentemente, representar uma forma de preservar a tranquilidade.
A proposta não é convencer todos a pensar da mesma maneira. É recuperar, acima de tudo, algo mais elementar: a capacidade de discordar, ouvir, aprender e continuar convivendo.
Assista
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Assista ao programa:
Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa

