Trabalhadores de aplicativos chegam a quase 2 milhões no Brasil
O trabalho mediado por plataformas digitais continua avançando no Brasil. Em 2025, cerca de 1,96 milhão de pessoas trabalharam por meio de aplicativos, segundo dados divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira, 4 de setembro, na PNAD Contínua.
O contingente representava 1,9% da população ocupada. Entretanto, os números mostram que a expansão das plataformas não significa necessariamente melhores condições de trabalho. Os profissionais ligados aos aplicativos trabalham mais horas, recebem menos por hora e apresentam elevada informalidade.
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Trabalhadores por aplicativo
Aplicativos se consolidam no mercado de trabalho
Considerando apenas quem utilizava plataformas digitais no trabalho principal, o país tinha aproximadamente 1,8 milhão de trabalhadores plataformizados em 2025. Esse número cresceu 36,8% em relação a 2022.
O transporte de passageiros concentra boa parte desse universo. Cerca de 1,2 milhão de pessoas utilizavam aplicativos dessa categoria. Além disso, aproximadamente 376 mil trabalhavam com entregas de alimentos e produtos, enquanto 313 mil utilizavam plataformas para serviços gerais ou profissionais.
Esse último grupo mostra, inclusive, que a plataformização já ultrapassou motoristas e entregadores. Designers, tradutores, consultores e outros profissionais também encontram clientes e prestam serviços por meio dessas ferramentas.
Mais horas de trabalho, mas praticamente a mesma renda
Um dos dados mais relevantes da pesquisa aparece quando jornada e rendimento são comparados.
Os trabalhadores de aplicativos cumpriam, em média, 44,7 horas semanais no trabalho principal. Entre os trabalhadores não plataformizados do setor privado, a média era de 39,3 horas.
Apesar das cinco horas adicionais de trabalho por semana, a renda mensal praticamente não apresentava diferença. Os plataformizados recebiam, em média, R$ 3.147 mensais, enquanto os demais trabalhadores recebiam R$ 3.148.
Consequentemente, a diferença fica mais evidente no rendimento por hora: aproximadamente R$ 16,20 para quem trabalhava por aplicativos e R$ 18,40 para os demais.
Portanto, trabalhar mais não estava significando ganhar proporcionalmente mais.
Trabalhadores por aplicativo
Autonomia continua sendo uma questão central
A flexibilidade apareceu como a principal razão para trabalhar por meio das plataformas, citada por 26,8% dos profissionais. Contudo, a dificuldade de encontrar outro trabalho ficou logo atrás, com 24,6%.
Entre motoristas de transporte particular, essa realidade se torna ainda mais clara: 33,4% apontaram a falta de outro trabalho como principal motivo para ingressar na atividade.
Assim, o discurso da autonomia precisa ser analisado com cautela. Poder escolher horários pode representar liberdade para alguns trabalhadores. Para outros, porém, a plataforma funciona como alternativa diante da falta de oportunidades no mercado formal.
Informalidade e Previdência preocupam
Outro indicador merece atenção. Em 2025, 72,1% dos trabalhadores plataformizados estavam na informalidade. Além disso, apenas 34% contribuíam para a Previdência Social.
A baixa cobertura previdenciária amplia uma questão que vai além do rendimento imediato. Sem contribuição, muitos profissionais ficam mais vulneráveis diante de afastamentos, acidentes, incapacidade para o trabalho e aposentadoria.
O aplicativo representa autonomia?
Os novos dados da PNAD Contínua ajudam a responder, mas não encerram essa pergunta.
As plataformas abriram novas possibilidades de geração de renda e facilitaram o acesso de trabalhadores a clientes. Ao mesmo tempo, jornadas maiores, menor rendimento por hora e pouca proteção social revelam os limites desse modelo.
Por isso, o debate sobre o trabalho por aplicativos no Brasil já não pode se restringir à quantidade de motoristas ou entregadores nas ruas. A questão central passa a ser que tipo de trabalho a economia digital está criando — e quais garantias acompanharão essa transformação.
Por Agnes Adusumilli

