Torcer, gritar e se emocionar quando o futebol vira desabafo - Cultura Alternativa

Torcer, gritar e se emocionar: quando o futebol vira desabafo

Torcer, gritar e se emocionar: quando o futebol vira desabafo

Tempo de Leitura: 8 minutos

Em live, Anand Rao relata como a paixão pelo esporte ajuda a enfrentar momentos de solidão, extravasar tensões e construir memórias afetivas. Pesquisas científicas sobre pertencimento, vocalização, sensibilidade e compartilhamento emocional dialogam com a experiência.

Torcer por um clube pode representar muito mais do que esperar por uma vitória. Para Anand Rao, editor-chefe do Cultura Alternativa, acompanhar futebol tornou-se também companhia, convivência e espaço para exteriorizar sentimentos. Na live “Torcer, Gritar, Se Emocionar e Se Livrar”, ele parte de experiências pessoais para refletir sobre quatro verbos presentes na vida de milhões de apaixonados pelo esporte.

A reflexão surge de uma situação cotidiana. A partir das 19h, quando sua esposa costuma dormir, Anand permanece acordado e encontra nas partidas uma maneira de preencher a noite. Embora esteja fisicamente sozinho diante da televisão, ele participa de um grupo com mais de dez pessoas, troca mensagens e comenta diferentes jogos. A conversa, além disso, ultrapassa os gramados e chega a temas econômicos, sociais e ao próprio negócio do futebol.

Essa convivência virtual modifica a experiência de assistir sozinho. O torcedor, nesse sentido, pode estar distante dos amigos e, simultaneamente, sentir-se acompanhado por uma comunidade que compartilha códigos, expectativas, alegrias, decepções e histórias.

Torcer fortalece a sensação de pertencimento

“Torcer é fundamental para mim, porque sana a questão da minha solidão”, afirma Anand durante o programa. O futebol, entretanto, é apenas um dos exemplos. Ele lembra que durante anos acompanhou Roger Federer no tênis e, atualmente, direciona sua torcida ao brasileiro João Fonseca.

A própria memória familiar aparece nessa relação com o esporte. Anand recorda a mãe profundamente envolvida quando assistia às partidas de vôlei. Torcer, portanto, atravessa modalidades e gerações, enquanto permite que atletas, equipes e competições ocupem lugares particulares na memória afetiva.

Essa percepção encontra respaldo na pesquisa “Do pertencimento aos faccionalismos – dinâmicas políticas na produção de associações pelas torcidas brasileiras”, de Vinícius Teixeira Pinto e Arlei Sander Damo, publicada em 2025 na Revista de Antropologia da Universidade de São Paulo. O estudo analisa agrupamentos de torcedores brasileiros e mostra, entre outros aspectos, como o vínculo clubístico produz sentimentos coletivos de pertencimento e formas de associação social.

O clube, dessa maneira, não representa somente uma instituição esportiva. Seus símbolos, suas cores e sua história ajudam a formar uma identidade compartilhada e, consequentemente, aproximam pessoas que talvez jamais se encontrassem fora daquele universo.

Gritar para colocar a tensão para fora

O segundo verbo da live é gritar. Anand descreve o gesto como uma espécie de descarga emocional, porém ressalta uma característica importante: não se trata de dirigir agressividade contra outra pessoa. O grito acontece diante do jogo e funciona, em sua experiência, como oportunidade para liberar tensões acumuladas.

Problemas cotidianos, preocupações financeiras, contrariedades e situações desagradáveis podem acompanhar uma pessoa durante horas. Surge um gol, entretanto, e aquela comemoração permite exteriorizar momentaneamente o que estava represado. Anand descreve a sensação posterior como tranquilidade e leveza.

Uma pesquisa publicada em 2025 ajuda a compreender a relação entre vocalização e percepção da dor. O estudo “O que a fala pode nos dizer sobre a dor?”, realizado por pesquisadores ligados à Universidade de Melbourne e publicado na PAIN Reports, submeteu adultos saudáveis a estímulos dolorosos enquanto eles permaneciam em silêncio ou produziam diferentes formas de vocalização.

Os resultados indicaram que falar durante o estímulo reduziu de maneira consistente a intensidade percebida da dor. O monólogo, além disso, apresentou efeito maior do que uma vocalização simples. A experiência científica não estudou torcedores comemorando gols, mas demonstra que usar a voz pode interferir na maneira como uma experiência dolorosa é percebida.

Se emocionar também constrói memória

A terceira dimensão abordada é se emocionar. Chorar, rir, levantar repentinamente da cadeira ou comemorar de maneira inesperada são manifestações comuns durante uma partida decisiva. Anand recorda um confronto contra um grande rival no qual seu clube marcou no último minuto. Tomado pela euforia, jogou sobre a própria cabeça a cerveja que estava bebendo.

Anos depois, permanece a história. A emoção, nesse caso, transformou alguns segundos de futebol em memória pessoal. Situações semelhantes ajudam a explicar por que determinados gols são lembrados juntamente com o lugar onde a pessoa estava, quem estava ao seu lado e até pequenos detalhes daquele dia.

O programa cita a pesquisa “Relações da sensibilidade de processamento sensorial com criatividade e empatia em adultos”, publicada em 2025 na Frontiers in Psychology. O trabalho analisou 296 adultos e encontrou associações entre maior sensibilidade de processamento sensorial e empatia afetiva e cognitiva, criatividade e menor desconexão emocional.

Isso não significa que uma pessoa se torne automaticamente mais empática porque se emociona diante de uma partida. O estudo, contudo, oferece elementos para compreender as relações existentes entre sensibilidade, emoção, criatividade e conexão com os outros.

Se livrar não significa apagar os problemas

O quarto verbo escolhido por Anand é “se livrar”. A expressão não significa eliminar dificuldades concretas, mas aliviar temporariamente o peso emocional carregado durante o cotidiano. Depois de torcer, gritar e se emocionar, ele relata sentir uma espécie de descompressão.

A ciência também investiga o efeito de compartilhar aquilo que incomoda. Uma metanálise publicada em 2024 na revista Clinical Psychology & Psychotherapy, da Wiley, reuniu 105 estudos e 110 resultados para examinar a relação entre compartilhar dificuldades e sofrimento psicológico.

Intitulada “O contexto importa em ‘um sofrimento compartilhado é um sofrimento dividido’: metanálise da relação entre compartilhar sofrimento e sofrimento psicológico”, a pesquisa encontrou associação entre o compartilhamento comum das dificuldades e menor sofrimento psicológico.

Existe, entretanto, uma ressalva relevante. Compartilhar sentimentos não é o mesmo que permanecer indefinidamente preso à repetição dos aspectos negativos de um problema. A chamada corrumeação apresentou resultados distintos, portanto o modo como a experiência é dividida com outras pessoas também importa.

Futebol como companhia e espaço de expressão

As quatro ideias apresentadas na live se encontram justamente na experiência cotidiana de Anand. Torcer aproxima, gritar exterioriza, emocionar-se cria lembranças e compartilhar sentimentos pode aliviar parte da carga psicológica. Nenhuma das pesquisas citadas demonstra que assistir futebol substitua psicoterapia ou tratamento profissional, tampouco existe um único estudo que tenha testado conjuntamente esses quatro comportamentos.

O relato, ainda assim, revela uma dimensão frequentemente esquecida quando o futebol é reduzido ao resultado da rodada. Há amizades, conversas, rituais, recordações e manifestações espontâneas que sobrevivem ao apito final.

Quando chega a noite, portanto, a televisão ligada não representa apenas uma tela mostrando 22 jogadores. As mensagens começam a circular, alguém comenta uma jogada, outro reclama do árbitro e todos aguardam o próximo lance. Anand pode estar sozinho no escritório, mas, naquele instante, sente-se integrado a algo maior.

É justamente aí que o título da live encontra seu sentido. Torcer, gritar, se emocionar e se livrar descrevem uma maneira particular de experimentar o esporte e, ao mesmo tempo, de transformar algumas horas do cotidiano em convivência, memória e desabafo.

Assista à Live

Assista à íntegra de “Torcer, Gritar, Se Emocionar e Se Livrar”, com Anand Rao, na TV Cultura Alternativa.

Link da live:


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Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa