Ler as instruções de um aplicativo e não conseguir concluir um cadastro. Essa situação hipotética ajuda a compreender os desafios da alfabetização de adultos em um país que transfere atividades cotidianas para as telas.
Saber ler continua indispensável. Entretanto, exercer a cidadania com autonomia também exige interpretar informações, compreender números e utilizar ferramentas digitais.
Além disso, depende de instituições que ofereçam serviços acessíveis, orientação e alternativas de atendimento.
SAIBA ➕ MAIS
- A alfabetização de adultos envolve não apenas ler e escrever, mas também interpretar informações e usar ferramentas digitais.
- O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024 mostra que quase 30% dos brasileiros enfrentam o analfabetismo funcional, que exige habilidades práticas no uso da leitura e matemática.
- Dificuldades em concluir cadastros digitais refletem problemas de alfabetização e de design das plataformas, que precisam ser intuitivas e compreensíveis.
- A proposta educativa deve incluir tarefas práticas e valorização do conhecimento prévio dos adultos, sem infantilizá-los.
- Cidadania se mede pela capacidade de participar ativamente, e a digitalização precisa ser acessível para que todos consigam utilizar serviços digitais até o fim.
Reconhecer palavras não encerra o aprendizado
O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024 aponta que quase 30% dos brasileiros de 15 a 64 anos enfrentam o analfabetismo funcional.
Essa classificação reúne os níveis analfabeto e rudimentar, caracterizados por limitações no uso da leitura, da escrita e da matemática. O recorte não inclui pessoas com 65 anos ou mais.
Para entender o problema, é necessário distinguir conceitos. A alfabetização corresponde à aprendizagem da leitura e da escrita. Já o alfabetismo funcional envolve aplicar esses conhecimentos e a matemática em tarefas cotidianas.
Por sua vez, o letramento digital inclui utilizar tecnologias e avaliar criticamente informações nesses ambientes.
Na prática, reconhecer o valor de uma prestação não garante compreender o custo total da compra. Da mesma forma, ler um aviso não significa identificar o prazo e a providência exigida.

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Alfabetização de adultos
Do acesso ao atendimento concluído
Considere um formulário que solicita comprovante de residência. O usuário pode entender o pedido, mas desconhecer como localizar o arquivo no celular ou anexá-lo.
Nesse caso, a dificuldade envolve procedimentos digitais e não permite concluir, isoladamente, que existe alfabetização insuficiente.
O Inaf incorporou tarefas desse tipo à edição de 2024, incluindo preenchimento de cadastro, criação de senha e envio de arquivo. Também propôs avaliar a segurança de uma solicitação de pagamento.
Esses exemplos ajudam a perceber a distância entre abrir uma plataforma e resolver uma necessidade. Por isso, avaliar a inclusão apenas pelo acesso à internet deixa de lado uma pergunta: a pessoa consegue concluir o que precisa?
A responsabilidade também está nas plataformas
Menus confusos, mensagens de erro sem explicação e instruções incompletas podem dificultar o atendimento. Portanto, a resposta não deve se limitar a ensinar o cidadão a utilizar sistemas complicados.
Instituições precisam explicar cada etapa em linguagem simples, informar os documentos necessários e permitir a correção de erros. Ao mesmo tempo, atendimento humano e alternativas presenciais devem acompanhar a digitalização.
A ajuda de familiares pode resolver uma urgência. Contudo, depender constantemente de terceiros para acessar documentos e informações pessoais compromete a privacidade. O objetivo deve ser ampliar a capacidade de decidir e agir, respeitando quem ainda necessita de apoio.

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Alfabetização de adultos
Alfabetização de adultos com aplicação prática
Uma proposta educativa pode partir de tarefas próximas dos estudantes: interpretar uma conta, comparar preços, escrever uma solicitação e acompanhar sua resposta.
Além disso, atividades com celulares podem trabalhar o reconhecimento de links, a consulta a fontes e o preenchimento de formulários. Assim, leitura, matemática e aprendizagem digital se complementam.
Esse trabalho precisa valorizar os conhecimentos dos adultos, sem infantilizá-los. Para viabilizar a continuidade dos estudos, também merece atenção a compatibilidade das aulas com trabalho, deslocamentos e responsabilidades familiares.
No Distrito Federal, quem deseja retomar a escolarização pode consultar a oferta de Educação de Jovens e Adultos na Secretaria de Educação e buscar orientação pela Central 156, opção 2. É necessário verificar o calendário e a disponibilidade de vagas.
Cidadania se mede pela participação
A alfabetização de adultos deve ampliar possibilidades concretas: compreender uma cobrança, registrar uma reclamação, avaliar uma notícia e participar das decisões da comunidade.
Da mesma forma, o sucesso de um serviço digital precisa considerar quem consegue utilizá-lo até o fim. Quando uma pessoa abandona uma solicitação porque não entende a próxima etapa, a digitalização ainda tem uma tarefa a cumprir.
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
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