Pat Metheny emociona com a expansão sonora de Side-Eye III+
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Pat Metheny Side-Eye III+ é daqueles discos que justificam uma audição integral, atenta e, sobretudo, sem pressa. Lançado em 27 de fevereiro de 2026, o trabalho reúne oito composições originais e aproximadamente 64 minutos de música. Trata-se, além disso, do primeiro grande álbum de estúdio do guitarrista com conjunto em seis anos e, ao mesmo tempo, da estreia de seu selo Uniquity Music.
A proposta nasceu do Side-Eye, projeto criado por Metheny para trabalhar com músicos de gerações mais jovens. Desta vez, entretanto, o núcleo formado pelo guitarrista, pelo tecladista Chris Fishman e pelo baterista Joe Dyson cresceu consideravelmente. Ao entrar no estúdio, Metheny percebeu, por sua vez, que as novas composições exigiam uma formação maior e acrescentou outros 15 instrumentistas e cantores. Daí surgiu, consequentemente, o sinal de “+” no título.
O resultado nos emocionou sob todos os aspectos. Há virtuosismo, evidentemente, mas a técnica nunca se transforma em demonstração gratuita. Há delicadeza, vigor rítmico, silêncio, explosões coletivas, melodias extremamente líricas e, sobretudo, uma extraordinária sensação de movimento. Metheny revisita elementos que acompanharam sua trajetória e, simultaneamente, evita simplesmente reproduzir o passado.
Tabela de conteúdos
O universo musical de Pat Metheny
Nascido em 12 de agosto de 1954, em Lee’s Summit, Missouri, Pat Metheny começou no trompete aos oito anos e passou para a guitarra aos 12. Aos 15, já tocava, inclusive, com músicos de jazz de Kansas City. Depois, integrou o grupo do vibrafonista Gary Burton e, em 1975, gravou Bright Size Life, álbum que, posteriormente, se tornaria uma referência de sua trajetória.
Ao longo de mais de cinco décadas, o norte-americano aproximou jazz, rock, música brasileira, folk, experimentação eletrônica e composição contemporânea. Colaborou, além disso, com artistas tão distintos quanto Ornette Coleman, Herbie Hancock, Steve Reich, Jim Hall, Milton Nascimento e David Bowie. Sua carreira contabiliza 20 Grammy Awards em dez categorias diferentes e, paralelamente, mais de 20 milhões de discos vendidos.
Side-Eye III+, contudo, não funciona como retrospectiva. Ao contrário, o álbum olha para a frente. A Uniquity Music, criada em parceria com a Primary Wave e a Green Hill Music, passa, desse modo, a abrigar os novos projetos do músico. Assim, aos 71 anos no momento do lançamento, Metheny inaugura outra etapa de uma carreira que continua, sobretudo, marcada pela inquietação artística.
Oito faixas e uma viagem de 64 minutos
“In On It”, com 7min56s, abre o álbum com energia, mudanças harmônicas e a guitarra imediatamente reconhecível do compositor. Fishman constrói, ao mesmo tempo, a sustentação harmônica enquanto Dyson impulsiona a composição. “Don’t Look Down”, por sua vez, estende-se por 11min16s e apresenta uma arquitetura episódica na qual o piano ganha destaque antes da entrada, posteriormente, de novas camadas instrumentais e vocais.
“Make a New World”, com 10min05s, mistura intimidade melódica, pulsações brasileiras e sucessivas transformações harmônicas. Depois, “Urban and Western”, com 7min23s, aproxima referências do gospel e da música norte-americana. James Francies participa, nesse contexto, ao órgão, enquanto o conjunto vocal dirigido por Mark Kibble amplia a dimensão espiritual da composição. Metheny explicou que procurou uma sonoridade relacionada à tradição gospel, porém preservando, ao mesmo tempo, sua própria identidade harmônica e melódica.
“SE-O”, com 6min51s, acelera novamente o percurso por meio de uma pulsação latina e de frases sincopadas. “Our Old Street”, com 5min23s, muda, em contrapartida, o ambiente e oferece um momento contemplativo, com guitarra de cordas de nylon, piano, percussão, pratos e harpa. Em seguida, “Risk and Reward”, com 9min59s, cresce como uma pequena suíte, atravessando, gradualmente, texturas próximas do folk, do jazz contemporâneo e de uma escrita quase cinematográfica.
“So Far, So Good”, finalmente, encerra a obra em 5min46s. A guitarra surge sem urgência, acompanhada inicialmente pela delicadeza da bateria, até que o arranjo, aos poucos, se expande e depois volta a recolher-se. É, portanto, um encerramento sereno e profundamente lírico. As oito peças, desse modo, não parecem episódios desconectados: formam uma narrativa que alterna intensidade, contemplação, complexidade e emoção.

Chris Fishman e Joe Dyson formam o coração do Side-Eye
Chris Fishman é músico e artista multidisciplinar de Los Angeles. Começou a tocar bateria e piano aos quatro anos e, aos sete, já se apresentava no sul da Califórnia. Além de Metheny, trabalhou, posteriormente, com nomes como Flying Lotus, Louis Cole e Mac DeMarco. No Side-Eye, porém, sua importância vai muito além do acompanhamento: piano, teclados e órgão ajudam, sobretudo, a estabelecer boa parte da arquitetura harmônica do conjunto.
Joe Dyson nasceu em Nova Orleans e começou a tocar na igreja de sua família quando ainda era criança. Estudou no New Orleans Center for Creative Arts e recebeu, posteriormente, uma Presidential Scholarship para estudar na Berklee College of Music. Ao longo da carreira, tocou, entre outros, com artistas como Ellis Marsalis, Donald Harrison, Jon Batiste, Nicholas Payton e Dr. Lonnie Smith.
Metheny encontrou nesses dois instrumentistas uma combinação especialmente fértil. Fishman consegue executar linhas de baixo com a mão esquerda nos teclados, característica, aliás, importante na concepção inicial do Side-Eye como uma espécie de trio de órgão do século XXI. Dyson, enquanto isso, combina linguagem contemporânea com a tradição rítmica de Nova Orleans. O álbum, contudo, pediu mais vozes, timbres e instrumentos.
O “+” transforma o trio em um universo
Entre os convidados aparece Daryl Johns no baixo, além de Jermaine Paul, também creditado no instrumento. Brandee Younger acrescenta, por sua vez, a harpa; Luis Conte participa na percussão; Vincent Peirani surge no acordeão; James Francies toca órgão em “Urban and Western”; e Leonard Patton participa, ainda, vocalmente de “SE-O”.
A dimensão vocal recebe contribuição decisiva de Mark Kibble, integrante do premiado grupo Take 6, responsável pela liderança e pelos arranjos do conjunto de vozes. Os créditos incluem, igualmente, Natalie Litza, Kim Fleming, Kim Mont, Dan Franklin, Stephanie Hall, Joel Kibble, Terry White e Armand Hutton. Assim, Metheny utiliza a voz não apenas como canto, mas também como textura, cor e elemento harmônico dentro da construção instrumental.
Na produção, o próprio Pat Metheny assume o comando, com Steve Rodby como produtor associado. Pete Karam responde, entretanto, pela engenharia e mixagem, enquanto Ted Jensen aparece nos créditos de masterização. O disco foi gravado principalmente em Woodstock, no estado de Nova York. Dessa maneira, a expansão instrumental não destrói a identidade do trio original; pelo contrário, envolve Fishman, Dyson e Metheny numa paisagem sonora muito mais ampla.
Um trabalho que nos emocionou
Talvez a maior virtude de Side-Eye III+ esteja justamente no equilíbrio. Metheny poderia apoiar-se confortavelmente em uma carreira monumental, mas prefere, em vez disso, trabalhar com jovens instrumentistas, experimentar formações e continuar compondo. O passado aparece na linguagem, naturalmente, enquanto a execução, por outro lado, aponta para novos caminhos.
O álbum nos emocionou sob todos os aspectos porque sua complexidade não elimina a sensibilidade. Há passagens que exigem, certamente, atenção aos detalhes rítmicos e harmônicos; entretanto, existem melodias capazes de atingir imediatamente o ouvinte. Em determinados momentos sentimos a energia histórica do universo do Pat Metheny Group; em outros, porém, ouvimos algo que pertence claramente a esta nova formação e a 2026.
Side-Eye III+, acima de tudo, mostra um músico que continua curioso. Aos 71 anos quando lançou o álbum, Pat Metheny não precisou abandonar sua identidade para procurar o novo. Pelo contrário, colocou sua assinatura musical em diálogo com outra geração e, consequentemente, ampliou seu próprio vocabulário sonoro. Para nós, o resultado é envolvente, sofisticado e profundamente humano: um trabalho que nos tocou pela composição, pelos arranjos, pela excelência dos músicos e, principalmente, pela emoção que permanece depois da última nota.
Entrevista no Canal do Metheny
Ouça
Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa

