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Senado Memorável: Gloria RP e seu legado

Senado Memorável: Gloria Maria Ribeiro Pinto de Almeida e seu legado

Tempo de Leitura: 9 minutos

Profissional de Relações Públicas relembra projetos, cerimônias históricas e ações de cidadania desenvolvidas durante sua trajetória no Senado Federal.

Formação e chegada ao Senado

Senado Memorável: Gloria RP e seu legado apresenta a trajetória de Gloria Maria Ribeiro Pinto de Almeida, profissional que transformou a comunicação institucional em serviço público. Filha de militar, ela viveu em diferentes regiões do Brasil durante a infância. Após a morte do pai, fixou residência no Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio Paulo de Frontin e concluiu sua formação no Instituto de Educação.

Casada há 59 anos com Luiz César Pinto de Almeida, servidor do antigo Centro de Informática e Processamento de Dados do Senado Federal, o Prodasen, Glória retornou a Brasília aos 22 anos. O casal, naquele momento, já tinha dois filhos pequenos. Ela trabalhou na Confederação Nacional da Indústria e, paralelamente, cursou Relações Públicas no Centro de Ensino Unificado de Brasília, atual UniCEUB.

A carreira no Senado começou em 15 de março de 1979, inicialmente como secretária parlamentar do senador Jarbas Passarinho. Depois, conforme recorda, ela passou pelos gabinetes dos senadores Leite Chaves, Álvaro Dias, Ronan Tito e Wilson Martins. Além disso, trabalhou com a senadora Eunice Michiles, primeira mulher eleita para o Senado Federal. A instituição registra seu ingresso em 1979 e sua aposentadoria em 24 de abril de 1996.

Relações Públicas nos grandes momentos

Glória dirigiu, em três períodos, a então Subsecretaria de Relações Públicas do Senado. Um ato assinado pelo presidente José Fragelli, em março de 1985, confirmou sua nomeação para o cargo. Posteriormente, ela também trabalhou durante gestões presididas por Humberto Lucena e José Sarney. A servidora, portanto, participou de momentos decisivos da redemocratização brasileira.

Uma de suas primeiras missões ocorreu após o falecimento de Tancredo Neves. Ela precisou, ainda no começo da experiência como diretora, organizar o deslocamento dos senadores para o sepultamento em São João del-Rei, com passagem por Belo Horizonte. Embora enfrentasse uma situação delicada, conduziu a operação com segurança e aprendeu, naquele episódio, a importância do planejamento institucional.

A profissional também participou das posses de Humberto Lucena e José Sarney, além da cerimônia de Fernando Henrique Cardoso, realizada em 1º de janeiro de 1995. O trabalho, entretanto, acontecia principalmente nos bastidores. Ela coordenava espaços, equipes, recepção, segurança e infraestrutura para que cada solenidade transcorresse conforme o protocolo do Congresso Nacional.

Autoridades, símbolos e representação

Durante sua carreira, Gloria recebeu autoridades internacionais como o presidente francês François Mitterrand e sua esposa, Danielle Mitterrand. Também acompanhou visitas de Aníbal Cavaco Silva, então primeiro-ministro de Portugal, além de representantes da Romênia e da Lituânia. O presidente peruano Alberto Fujimori, o líder palestino Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin igualmente aparecem em suas lembranças.

A visita de Yasser Arafat, em outubro de 1995, exigiu um esquema de segurança que a impressionou. Helicópteros sobrevoavam a região, enquanto equipes controlavam a rampa e os acessos ao Congresso. A dirigente de Relações Públicas, desse modo, precisava recepcionar autoridades internacionais e garantir que cada etapa seguisse as normas de segurança e protocolo.

Glória também propôs uma mudança simbólica nas cerimônias. Um grande arranjo de flores, chamado tecnicamente de corbeille, cobria as Armas da República instaladas abaixo da mesa da Presidência. Ela, então, sugeriu a divisão das flores em duas partes laterais. Dessa forma, o símbolo nacional permaneceu visível, e a disposição passou a integrar as solenidades seguintes.

Comunicação, visitação e cidadania

Outra iniciativa surgiu da necessidade de representar os estados brasileiros dentro do Senado. Gloria idealizou vitrines para a exposição de peças de artesanato, cartazes de festas e manifestações culturais. Como o projeto alterava espaços concebidos por Oscar Niemeyer, ela precisou obter a autorização do arquiteto. Inicialmente reticente, Niemeyer compreendeu a proposta e desenvolveu 24 vitrines.

Com a nova configuração federativa, o Brasil passou a ter 26 estados e o Distrito Federal. Glória, contudo, evitou desmontar a estrutura existente. Com o apoio do primeiro-secretário Enéas Faria, organizou um sistema de rodízio. Assim, cada unidade da Federação ganhou um período para mostrar suas tradições, sua produção artística e seus elementos culturais.

A falta de sinalização interna também a incomodava. Inspirada pela comunicação visual da Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, ela buscou uma solução para orientar servidores e visitantes. Além disso, realizou uma pesquisa sobre o alcance de A Voz do Brasil. O levantamento mostrou que o programa continuava relevante, sobretudo em localidades distantes dos grandes centros.

O projeto Conheça o Senado

A contribuição que Gloria considera mais importante foi o projeto Conheça o Senado. A iniciativa apresentava ao público o funcionamento da instituição, os espaços legislativos e a história parlamentar. Depois das visitas, as equipes reuniam os participantes em salas de comissões, onde explicavam as atribuições da Casa e respondiam às perguntas.

O trabalho exigiu que os servidores estudassem continuamente. Afinal, eles precisavam apresentar informações corretas sobre o Parlamento. O projeto, posteriormente, integrou-se à visitação do Congresso Nacional. A iniciativa recebeu o Quinto Prêmio em Ideias em Relações Públicas, categoria Institucional, em 1996.

A profissional também recebeu um grupo de pessoas em acompanhamento de saúde mental. Como esses cidadãos tinham direito ao voto, ela solicitou ao Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal uma urna para treinamento. A ação, portanto, permitiu que os participantes aprendessem a votar sem constrangimento ou insegurança durante as eleições.

Relações Públicas como utilidade pública

Gloria defendia que as Relações Públicas deveriam atender tanto o público externo quanto os servidores. Por isso, disponibilizou um ramal, provavelmente o 4444, para receber demandas internas. A iniciativa aproximou os funcionários da administração e ajudou a solucionar problemas que ultrapassavam as atividades formais de comunicação.

Em determinada ocasião, uma servidora do Prodasen não conseguiu amamentar o filho. Glória procurou Maria Rondon, então diretora de Pessoal, e pediu a relação de funcionárias em licença-maternidade. A mobilização, desse modo, encontrou uma doadora de leite para o bebê. Maria Rondon dirigiu a área de recursos humanos do Senado durante décadas e deixou uma contribuição reconhecida pelos servidores.

Pedidos por doação de sangue também chegavam ao setor. Ela, então, acionava assessores parlamentares militares e buscava doadores de tipos sanguíneos raros. Para Glória, a essência da profissão estava justamente em aproximar quem precisava de ajuda de quem podia oferecê-la.

Servidores, preservação e memória

Ao representar os antigos integrantes de sua equipe, Gloria destacou Givon Siqueira Machado Filho, seu braço direito na primeira gestão; Luiz Antônio Perácio Monteiro, importante colaborador no segundo período; e Mônica Cocos, cuja participação foi essencial na posse de Fernando Henrique Cardoso. Ao recordar esses profissionais, ela também homenageou todos os servidores que contribuíram com seu trabalho.

Ela também defendeu a abertura de vagas específicas para profissionais de Relações Públicas em concurso público. Entre as aprovadas estava Ilana Trombka, que posteriormente assumiu a Diretoria-Geral do Senado. A iniciativa, por conseguinte, fortaleceu o reconhecimento da profissão e permitiu a formação de um quadro permanente de especialistas na instituição.

A preservação histórica igualmente ocupou seu trabalho. Gloria protegeu o antigo plenário do Palácio Monroe, ajudou a encaminhar peças ao Espaço Cultural Senador Petrônio Portella e procurou relíquias guardadas em salas administrativas. Entre elas estavam desenhos originais de Oscar Niemeyer. Essas ações, dessa maneira, contribuíram para a formação e a valorização do Museu do Senado.

História do Brasil preservada

Glória ainda participou da comissão responsável pela obra O Senado na História do Brasil. Na ocasião, ajudou o fotógrafo Rui Faquini a registrar o quadro de Gustavo Hastoy sobre a assinatura do projeto da primeira Constituição republicana. Como a pintura era escura, a equipe montou uma iluminação especial para revelar detalhes pouco visíveis.

Além disso, ela articulou a autorização para a realização de fotografias aéreas do Congresso Nacional. Como a região integra uma área de segurança nacional, o voo de helicóptero exigia contatos e procedimentos específicos. Seu trabalho, portanto, garantiu a infraestrutura necessária para que fotógrafos, pesquisadores e demais profissionais realizassem suas atividades.

A atuação nos bastidores não diminuiu sua presença institucional. Ao contrário, Gloria tornou-se conhecida porque respeitava as atribuições de cada setor e valorizava o trabalho coletivo. Ela buscava quem dominava determinado assunto e, em seguida, criava as condições para que a proposta se tornasse realidade.

Orgulho, família e continuidade

A entrevistada dedicou seu depoimento aos filhos Luiz Cesar Junior, Marcelo Henrique e Paulo Eduardo; aos netos Helena, Rafael, Pedro, Beatriz, Carolina, Andre e Bernardo; e aos netos de coração Pedro e Theo. A homenagem reforça um dos principais objetivos do Senado Memorável: preservar histórias para filhos, netos, antigos colegas e futuras gerações.

Em um encontro profissional com uma pessoa identificada por ela como Parisi, assinou uma pergunta como “Gloria RP de Almeida”. A expressão chamou a atenção dos participantes e, desde então, tornou-se sua identidade pública. O apelido, portanto, uniu seu nome à profissão que marcou toda a sua vida.

Para Glória RP, os parlamentares cumprem seus mandatos, enquanto os servidores preservam a continuidade administrativa. Por isso, ela pede aos novos funcionários que conheçam a história da instituição e compreendam sua responsabilidade diante da democracia. Seu legado, enfim, reúne comunicação, cidadania, memória, respeito e orgulho pelo serviço prestado ao Senado Federal.

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Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa
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