Chico O Outro de Kelly Vianna - Cultura Alternativa

Kelly Vianna apresenta Chico, O Outro e seus novos olhares

Kelly Vianna apresenta Chico, O Outro e seus novos olhares

Tempo de Leitura: 8 minutos

Escritora transforma pesquisa de doutorado em publicação que investiga a sensibilidade, a diversidade humana e os personagens presentes na produção artística de Chico Buarque.

Uma nova interpretação de Chico Buarque

Kelly Vianna apresenta Chico, O Outro, obra nascida de sua tese de doutorado na Universidade de Brasília (UnB), que propõe uma interpretação singular do universo criativo de Chico Buarque. A professora, pesquisadora e escritora participou do programa Entrevista Cultura Alternativa, conduzido pelo jornalista Anand Rao, em 2 de novembro de 2026.

Durante a conversa, a convidada explicou como investigou as relações entre música, literatura, imagens e experiências humanas. Nesse percurso, destacou a alteridade, conceito associado ao reconhecimento das diferenças individuais, como fundamento de sua investigação. Além disso, demonstrou como a expressão artística amplia nossa capacidade de compreender outras realidades.

A publicação, intitulada Chico, O Outro – E se eu pudesse entrar na sua vida, chega ao público pela Editora Diálogo Freiriano. Dessa maneira, um trabalho desenvolvido no ambiente universitário alcança novos leitores e, consequentemente, estimula reflexões sobre convivência, identidade e responsabilidade coletiva.

O artista visto por diferentes perspectivas

O primeiro capítulo apresenta aspectos da trajetória de Chico Buarque, incluindo sua participação em festivais, o reconhecimento como compositor e sua atuação literária. Entretanto, a autora ultrapassa os acontecimentos biográficos e, simultaneamente, examina como distintas linguagens dialogam dentro desse repertório cultural.

Na sequência, utiliza o caleidoscópio como metáfora para explicar a multiplicidade de interpretações. Assim como o instrumento revela novas figuras a cada movimento, uma composição permite descobrir sentimentos, personagens e significados conforme o observador modifica sua perspectiva. Por conseguinte, nenhuma análise esgota as possibilidades de compreensão.

Essa abordagem valoriza a intermidialidade, relação estabelecida entre diferentes meios de expressão. Por exemplo, uma canção pode inspirar pinturas, fotografias e manifestações audiovisuais. Nesse processo, cada releitura acrescenta elementos ao universo originalmente apresentado pelo músico e, ao mesmo tempo, estabelece conexões entre diferentes públicos.

A literatura revela personagens invisíveis

Um dos capítulos recebe o título Tarja Preta nos Olhos: Sobre Ver e Ser Visto. Nele, a pesquisadora examina personagens frequentemente submetidos à exclusão social. Entre eles aparecem órfãos, indivíduos em situação de pobreza, imigrantes e grupos que enfrentam discriminação. Nesse contexto, a narrativa procura evidenciar trajetórias pouco reconhecidas.

A expressão escolhida remete às imagens jornalísticas que escondem a identidade de pessoas vulneráveis. Contudo, segundo a entrevistada, a criação cultural pode retirar simbolicamente essa barreira e, dessa forma, permitir o reconhecimento de histórias individuais sem transformar seus protagonistas em objetos de exposição.

A música Iracema Voou exemplifica questões relacionadas à migração e à procura de melhores condições de existência. Por sua vez, outras composições abordam desigualdades, conflitos cotidianos e experiências afetivas. Assim, o repertório oferece caminhos para compreender realidades que, muitas vezes, permanecem distantes da atenção pública.

O feminino e a diversidade humana

A representação das mulheres ocupa espaço importante na investigação. Conforme explicou Kelly, o compositor constrói personagens femininas a partir de sua própria posição no mundo. Isso não significa substituir experiências particulares, mas oferecer uma perspectiva capaz de dialogar com outros pontos de vista e, sobretudo, ampliar interpretações.

Para desenvolver esse raciocínio, a professora utiliza o conceito de exotopia. Em outras palavras, cada indivíduo percebe aspectos que outra pessoa não consegue observar integralmente. Portanto, o encontro entre olhares distintos pode enriquecer a compreensão da própria identidade e, igualmente, favorecer relações baseadas no respeito.

A análise também contempla personagens LGBTQIA+ e pessoas trans. Nesse sentido, interessa compreender como a linguagem poética questiona estereótipos e estimula a empatia. Além disso, a abordagem procura reconhecer existências historicamente marginalizadas, evitando classificações simplificadoras e interpretações que reforcem preconceitos.

A responsabilidade de quem produz arte

Outro eixo da publicação aborda a responsabilidade individual diante da sociedade. Para desenvolver essa reflexão, a autora recorre ao pensamento de Mikhail Bakhtin, especialmente às discussões sobre o ato responsável e a singularidade da participação humana no mundo.

De acordo com a interpretação apresentada durante a entrevista, cada pessoa responde às circunstâncias que encontra a partir de sua posição única. Nesse sentido, Chico transforma percepções sociais em composições, poemas e narrativas que convidam à reflexão. Consequentemente, seu trabalho estabelece conexões entre criatividade e compromisso humano.

A canção Construção, por exemplo, oferece elementos para discutir o cotidiano dos trabalhadores e suas condições de existência. Desse modo, a produção musical ultrapassa o entretenimento e, paralelamente, abre espaço para questionamentos sobre dignidade, reconhecimento e justiça social.

Uma experiência que transformou a escritora

Ao comentar sua trajetória acadêmica, a convidada revelou que dedicou quatro anos à elaboração da tese durante o doutorado, além das etapas anteriores de preparação. Ainda assim, considera que o impacto dessa experiência ultrapassou a aquisição de conhecimentos especializados.

Segundo seu depoimento, a convivência prolongada com as composições modificou sua maneira de observar as pessoas. Ao mesmo tempo, as atividades desenvolvidas na UnB, a orientação da professora Sílvia Cintrão e sua trajetória na Secretaria de Educação contribuíram para o amadurecimento intelectual e pessoal.

Atualmente, a entrevistada desenvolve trabalhos ligados às artes visuais, produz pinturas e participa de publicações sobre altas habilidades, superdotação e educação inclusiva. Igualmente, mantém interesse pelas conexões entre cinema, linguagem escrita, manifestações sonoras e outras modalidades de comunicação criativa.

Lançamento e circulação da obra

O lançamento está marcado para 6 de novembro de 2026, às 18h30, no Ernesto Café, localizado na 108 Norte, em Brasília. Na ocasião, a escritora pretende conversar com os leitores e autografar exemplares. Assim, o encontro proporcionará contato direto entre a responsável pela publicação e os interessados em conhecer sua investigação.

Inicialmente, o volume está disponível em pré-venda pela Editora Diálogo Freiriano. Posteriormente, conforme informou a convidada, também poderá ser encontrado na Amazon. Além dessas alternativas, ela pretende ampliar a divulgação por meio das redes sociais e apresentações em ambientes acadêmicos.

Entre os compromissos anunciados está uma participação prevista para 11 de dezembro, na Universidade de São Paulo (USP), durante um evento relacionado à filosofia do ato responsável. Dessa forma, a pesquisadora busca aproximar discussões teóricas e diferentes públicos interessados nas relações entre pensamento, criação e sociedade.

A leitura como encontro permanente

No encerramento da entrevista, Kelly explicou que entregar um trabalho literário ao público significa aceitar novas interpretações. Afinal, cada leitor estabelece vínculos particulares com o conteúdo e, consequentemente, pode concordar, discordar ou descobrir significados que ultrapassam as intenções originais de quem escreveu.

Essa concepção aparece no capítulo final, denominado Coda: O Inacabamento do Sentido. Sob essa perspectiva, nenhuma interpretação encerra definitivamente uma experiência estética. Pelo contrário, a cada contato surgem perguntas, aproximações e possibilidades de compreender o universo humano sob diferentes ângulos.

Ao concluir sua participação, a professora agradeceu ao Cultura Alternativa e convidou todos a conhecerem a publicação. Por fim, destacou que a literatura proporciona trocas capazes de modificar nossa percepção da realidade. Assim sendo, o diálogo entre quem escreve, aquilo que se produz e quem acompanha permanece em constante construção.

Assista à Live

A entrevista completa com Kelly Vianna integra a programação da TV Cultura Alternativa, canal dedicado à divulgação de escritores, artistas, pesquisadores e personalidades ligadas à produção cultural brasileira.

Durante aproximadamente 38 minutos, a convidada apresenta os capítulos de seu trabalho e, ao longo da conversa, compartilha experiências pessoais. Além disso, explica como a investigação universitária modificou sua compreensão sobre a produção de Chico Buarque e suas relações com a diversidade humana.

Assista à entrevista:

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Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa
culturaalternativa.com.br