Sarau Cultura Alternativa Erick Dourado e Anand Rao - Cultura Alternativa

Erick Dourado: música e educação aproximam culturas

Erick Dourado: música e educação aproximam culturas

Tempo de Leitura: 6 minutos

A trajetória de Erick Dourado reúne formação musical, experiência em orquestras e uma busca por caminhos que aproximem arte e diversidade cultural. Convidado do Sarau Cultura Alternativa 2026, apresentado por Anand Rao, o instrumentista relatou como o encontro com artistas indígenas transformou sua relação com a criação. Atualmente, segundo contou, atua com educação indígena na Diretoria de Direitos Humanos da Secretaria de Educação do Distrito Federal, onde, dessa maneira, aproxima sua experiência artística de novas possibilidades profissionais.

A entrevista surgiu por indicação de Joel de Oliveira, homenageado na abertura com um poema musicado pelo anfitrião. O encontro percorreu, assim, lembranças da infância, mudanças profissionais e projetos futuros. Entre apresentações e reflexões, a conversa destacou o respeito às diferenças e, ao mesmo tempo, a possibilidade de construir experiências coletivas por meio dos sons.

Da infância à formação musical

Nascido no Rio de Janeiro em 1990, o convidado mudou-se ainda criança para Guarulhos, em São Paulo. Seu pai, militar e oboísta, foi a primeira referência instrumental dentro de casa. O interesse surgiu, portanto, na convivência familiar, enquanto acompanhava os estudos paternos e tentava compreender como funcionava aquela linguagem. O violino tornou-se, nesse contexto, seu primeiro instrumento.

As aulas iniciais aconteceram com o próprio pai, mas a disciplina exigida provocou resistência. O menino interrompeu os exercícios e, algum tempo depois, retomou a prática escondido, aproveitando os períodos em que o responsável estava trabalhando. A mãe acompanhava esse movimento; posteriormente, ao descobrir o interesse renovado, o pai ofereceu aulas particulares, permitindo, dessa forma, uma nova etapa de aprendizado.

A participação em uma igreja evangélica ampliou as oportunidades de tocar. Como havia muitos violinistas e nenhum violista, decidiu, então, estudar viola de arco. Seguiram-se o conservatório, a mudança para Fortaleza aos 18 anos e, mais adiante, o ingresso na Aeronáutica como músico percussionista. De volta ao Rio, frequentou a Universidade Federal do Rio de Janeiro e conciliou, paralelamente, estudos com apresentações orquestrais.

Arte, trabalho e segurança financeira

A rotina dividida entre serviço militar e atividades artísticas abriu espaço para uma discussão sobre sustento. O entrevistado explicou que o salário mensal permitiu adquirir instrumentos, manter bons encordoamentos e participar de festivais. A estabilidade representava, dessa maneira, uma condição concreta para investir na própria formação, embora, naquele período, sentisse dificuldades para acompanhar o cotidiano dos colegas universitários.

O apresentador também compartilhou sua experiência como servidor público aposentado. Segundo relatou, essa renda ajuda a financiar equipamentos, transmissões e colaboradores do Cultura Alternativa. A reflexão trouxe, além disso, uma orientação aos jovens: considerar as condições materiais necessárias para desenvolver uma carreira, reconhecendo, ao mesmo tempo, os desafios enfrentados por iniciativas independentes.

O instrumentista ressaltou que sente vulnerabilidade quando não dispõe de remuneração regular. Procurou, por esse motivo, organizar as transições profissionais antes de deixar os postos anteriores. A conversa abordou, assim, uma tensão recorrente entre criação e sobrevivência, sem apresentar uma fórmula universal. Cada percurso exige, nesse sentido, escolhas compatíveis com as necessidades e possibilidades de quem o constrói.

Uma mudança de direção

Durante a pandemia, a interrupção dos concertos provocou questionamentos sobre o sentido de tantos anos dedicados ao repertório orquestral. Em conversas com amigos, o músico passou a desejar, cada vez mais, maior proximidade com expressões brasileiras. Surgiu, nesse contexto, o convite para participar da formação da Orquestra da Força Aérea Brasileira, em Brasília.

A mudança trouxe encontros profissionais importantes, mas não resolveu todas as inquietações. Conforme explicou, desejava aprofundar uma pesquisa cultural que ultrapassava sua atuação naquele conjunto. Ingressou, posteriormente, por concurso na Secretaria de Educação e trabalhou na Escola de Música de Brasília. A nova etapa, entretanto, também apresentou dificuldades de adaptação e de acolhimento das propostas que pretendia desenvolver.

Nesse período, a convivência com artistas do povo Huni Kuin ampliou sua compreensão da musicalidade. Ele relatou que encontrou, por meio dessas relações, outras maneiras de cantar, compartilhar e estabelecer vínculos. Após deixar a escola e chegar à sede da secretaria, surgiu, então, a oportunidade de trabalhar com a pauta indígena na Diretoria de Direitos Humanos.

Aprendizado e criação coletiva

Ao falar sobre o presente, Dourado destacou a importância de conhecer diferentes formas de interpretar a existência. Para ele, o aprendizado envolve escuta, alimentação, intuição e convivência, além dos conhecimentos habitualmente valorizados na formação acadêmica. Sua atuação busca, nesse sentido, contribuir para uma educação que respeite a autonomia e a autodeterminação dos povos indígenas, valorizando, dessa maneira, diferentes modos de compreender o mundo.

O nome artístico também está ligado a essa transformação. Segundo contou, a escolha nasceu do contato com uma narrativa sobre o “povo dourado”, associada à união entre povos. A imagem representa, para o convidado, uma consciência de pertencimento compartilhado. Foi justamente uma apresentação inspirada nessa história que proporcionou, posteriormente, seu encontro com Joel, responsável pela indicação ao sarau.

Para o futuro, o educador deseja criar um espaço cultural, talvez uma escola de música, voltado à experimentação. A proposta pretende, sobretudo, reunir pessoas para inventar e tocar juntas. Sua bagagem teórica poderia contribuir com novos instrumentos, enquanto os participantes compartilhariam os próprios saberes. O objetivo é favorecer, portanto, uma construção coletiva, alimentada pela troca entre diferentes experiências.

Assista à Live

A entrevista completa apresenta essas passagens com detalhes, além de registros musicais e reflexões sobre identidade artística. O diálogo evidencia, ao longo do encontro, como mudanças profissionais e descobertas pessoais podem reorganizar projetos e, consequentemente, abrir possibilidades de atuação.

Assista ao Sarau Cultura Alternativa 2026 com Erick Dourado e Anand Rao:

. Conheça, também, os sonhos e aprendizados compartilhados pelo convidado durante a conversa.

Inscreva-se na TV Cultura Alternativa, ative as notificações, deixe seu like e comente. Compartilhe, ainda, o vídeo e divulgue o canal para ampliar, dessa forma, a circulação de encontros dedicados à arte, à memória e à diversidade.

Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa
culturaalternativa.com.br