Aline Albernaz - Cultura Alternativa

Aline Albernaz destaca força da cultura no serviço público

Aline Albernaz destaca força da cultura no serviço público

Tempo de Leitura – 7 minutos

A valorização das experiências culturais começa a ganhar espaço em instituições públicas brasileiras que buscam ampliar o diálogo humano dentro de ambientes tradicionalmente técnicos. Na Seção Judiciária do Distrito Federal, a historiadora da arte e psicanalista Aline Albernaz coordena uma iniciativa que aproxima servidores, magistrados, estudantes, artistas e integrantes da comunidade externa por meio do cinema, da literatura e da escuta compartilhada.

Além disso, o Clube de Cinema & Literatura da SJDF consolidou-se como uma proposta inovadora ao transformar encontros culturais em experiências de convivência, reflexão e pertencimento. Desenvolvido no Espaço Renata Rios de Arte & Cultura, o projeto promove sessões gratuitas mensais que unem exibição de filmes, debates literários e rodas de conversa conduzidas em formato horizontal.

Segundo a coordenadora da Comissão de Arte e Cultura da Justiça Federal do Distrito Federal, a proposta nasceu da percepção de que ambientes voltados à produtividade também necessitam de locais destinados à troca afetiva e ao fortalecimento das relações interpessoais. A idealizadora observa que muitas pessoas compartilham o mesmo cotidiano institucional durante anos sem oportunidades reais de interação humana fora das demandas profissionais.

Arte e sensibilidade ampliam a experiência coletiva

A trajetória da presidente da Comissão de Arte e Cultura reúne referências da história da arte, da psicanálise e da comunicação institucional. Essas áreas passaram a dialogar diretamente na construção do Clube, sobretudo na escolha das obras debatidas e na maneira como os encontros são conduzidos.

Por outro lado, a formação em história da arte contribuiu para desenvolver uma percepção voltada ao simbolismo das narrativas audiovisuais e literárias. Já a atuação clínica na psicanálise trouxe elementos ligados à escuta, aos afetos e à interpretação subjetiva das experiências despertadas pelos conteúdos apresentados.

A comunicação institucional, por sua vez, ajudou a transformar a iniciativa em um espaço acessível e acolhedor para diferentes perfis sociais. Dessa maneira, a curadoria deixou de privilegiar apenas produções consideradas clássicas e passou a priorizar trabalhos capazes de provocar identificação, reflexão e aproximação entre os participantes.

Diversidade de trajetórias fortalece os debates

Os encontros promovidos pelo Clube reúnem pessoas de gerações, profissões e vivências distintas. Participam magistrados, aposentados, estudantes universitários, integrantes da comunidade cultural e servidores públicos de diferentes setores da Justiça Federal.

Consequentemente, cada roda de conversa ganha múltiplas perspectivas sobre os temas abordados nos livros e filmes selecionados. Em muitos momentos, uma observação feita por determinado participante modifica completamente a interpretação apresentada por outra pessoa, ampliando a riqueza do diálogo coletivo.

Existe ainda um aspecto considerado especialmente valioso pela coordenação do projeto: a possibilidade de aproximar indivíduos que talvez jamais se encontrassem em outros ambientes. Assim, o Clube passou a funcionar também como espaço de convivência, acolhimento e construção de vínculos humanos duradouros.

Escuta compartilhada transforma o ambiente cultural

A chamada “escuta coletiva” tornou-se um dos pilares centrais da iniciativa cultural da SJDF. Entretanto, a proposta não funciona como palestra tradicional nem segue o formato rígido de debates acadêmicos convencionais.

Os participantes são incentivados a falar em primeira pessoa, respeitar o silêncio do outro e compartilhar percepções sem interrupções. Portanto, o ambiente favorece conversas mais profundas e menos competitivas, permitindo que cada pessoa participe no próprio ritmo.

Frequentemente, os encontros acabam ultrapassando os limites das obras discutidas. Questões relacionadas a envelhecimento, maternidade, identidade, relações afetivas, luto e pertencimento surgem naturalmente ao longo das conversas. Em razão disso, muitos participantes relatam continuar refletindo sobre os debates mesmo dias após as sessões.

Cultura presencial desacelera a rotina digital

Aline Albernaz acredita que a sociedade contemporânea atravessa um período marcado pelo excesso de estímulos e pela fragmentação das relações humanas. Embora as pessoas permaneçam conectadas o tempo inteiro, nem sempre conseguem desenvolver experiências reais de presença e atenção.

Nesse cenário, cinema e literatura assumem uma função importante ao criar pausas dentro da rotina acelerada. As atividades promovidas pelo Clube estimulam concentração, escuta e disponibilidade emocional para o contato humano presencial.

O cofundador do projeto, Marconi Martins, resume essa percepção ao afirmar que o Clube representa “um espaço para o espanto” e para o encantamento despertado pelas obras artísticas. Segundo ele, a experiência só acontece plenamente quando as pessoas conseguem reservar tempo para ouvir umas às outras.

Obras despertam emoções e reflexões profundas

Ao longo da programação já realizada, determinados títulos provocaram repercussões especialmente intensas entre os participantes. O livro Hamnet, por exemplo, abriu discussões sensíveis sobre ausência, maternidade e criação artística. Já o filme A Pior Pessoa do Mundo incentivou reflexões relacionadas às escolhas contemporâneas e à sensação de deslocamento emocional.

Ainda assim, a idealizadora do projeto destaca que a força dos encontros não depende exclusivamente da relevância das obras escolhidas. Muitas vezes, o impacto surge das experiências compartilhadas coletivamente durante as conversas.

Após uma das sessões, uma participante escreveu que “às vezes podemos revelar um pouco do outro pela nossa percepção”. Outra relatou continuar “sob o efeito incrível” da experiência dias depois do encontro. Esses depoimentos demonstram a dimensão afetiva construída pelo projeto cultural da SJDF.

Iniciativa inspira novos modelos no setor público

O crescimento do Clube de Cinema & Literatura passou a despertar interesse de outras instituições públicas interessadas em desenvolver experiências semelhantes. O projeto utiliza estrutura simples, aproveita espaços já existentes e estabelece parcerias culturais de baixo custo operacional.

Além disso, editoras, cinemas, autores e organizações culturais começaram a colaborar com as atividades promovidas pela iniciativa. Essas conexões ampliaram a circulação de ideias e fortaleceram a criação de uma rede colaborativa voltada à formação cultural e humana.

Com programação prevista até dezembro de 2026, a organizadora pretende ampliar as parcerias, promover sessões especiais e expandir algumas atividades para outros ambientes institucionais. Ainda assim, a responsável pelo projeto reforça que o principal objetivo permanece o mesmo desde o início: preservar um espaço genuíno de encontro, convivência e troca em torno da arte, da literatura e do audiovisual.

Cultura Alternativa Agradece

O portal Cultura Alternativa agradece à Aline Albernaz pela gentileza, atenção e profundidade das informações compartilhadas nesta entrevista exclusiva. O projeto desenvolvido na Justiça Federal do Distrito Federal demonstra como arte, literatura, cinema e escuta humana podem fortalecer vínculos e ampliar experiências coletivas dentro das instituições públicas.

Agradecemos também ao assessor geral Fernando Araújo e à equipe de Criação & Arte do Cultura Alternativa pelo trabalho de produção, edição e desenvolvimento editorial desta reportagem especial.

Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa