Denise Moraes - Cultura Alternativa

Denise Moraes une literatura, artes e memória capixaba

Denise Moraes une literatura, artes e memória capixaba

Tempo de Leitura: 12 minutos

Artista, escritora, professora e curadora construiu uma trajetória com mais de 180 exposições, projetos ambientais, publicações literárias e iniciativas de valorização cultural no Brasil e no exterior.

Denise Moraes transformou a literatura, a pintura e a preservação da memória capixaba em compromissos permanentes. Nascida em Vitória, no Espírito Santo, em 18 de outubro de 1956, a artista reúne experiências como professora, bancária, escritora, ilustradora e curadora. Ao longo de décadas, participou de mais de 180 exposições nacionais e internacionais e, além disso, publicou poemas, crônicas e desenvolveu projetos voltados à conscientização ambiental.

Sua formação em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) contribuiu para aproximar o ensino da criação artística. Professora de Português, Literatura e Inglês, encontrou na sala de aula oportunidades para estimular a sensibilidade estética e, consequentemente, ampliar o contato dos estudantes com diferentes manifestações culturais.

A vocação criativa, entretanto, surgiu antes da formação universitária. Ainda adolescente, descobriu na pintura e na escrita maneiras de expressar sentimentos e interpretar acontecimentos. Posteriormente, ampliou sua atuação para a ilustração de livros, organização de exposições e realização de oficinas.

Da literatura às bienais e exposições internacionais

A participação em salões artísticos abriu oportunidades para ilustrar publicações literárias. Entre os trabalhos, destaca-se o e-book Poemas à Flor da Pele. Em 2009, recebeu o convite de uma escritora paulista para ilustrar uma antologia apresentada na Bienal do Livro, no Riocentro, no Rio de Janeiro, consolidando, dessa forma, sua presença em diferentes segmentos da produção cultural.

Desenvolveu, paralelamente, atividades educativas em seu ateliê, ministrou oficinas durante eventos culturais e realizou intervenções públicas. Uma dessas experiências ocorreu no Shopping Norte Sul, em Jardim Camburi, Vitória, onde pintou diante dos visitantes e, por conseguinte, aproximou o processo criativo do cotidiano da população.

Ao comentar sua trajetória, a capixaba explica que não consegue escolher uma única exposição como a mais importante. Cada participação representou uma oportunidade de homenagear tradições, registrar acontecimentos históricos ou denunciar problemas sociais. Considera, portanto, as mais de 180 mostras capítulos de uma mesma história artística.

Paneleiras de Goiabeiras inspiraram poema educacional

A infância em Vitória permanece como referência fundamental de sua produção. Entre as lembranças mais marcantes estão as mulheres que fabricavam panelas de barro em Goiabeiras, atividade tradicional profundamente associada à identidade gastronômica espírito-santense e, sobretudo, à preservação dos saberes transmitidos entre gerações.

Naquele período, observava as artesãs sentadas no chão, modelando cuidadosamente as peças enquanto outras trabalhadoras cuidavam da queima. Inicialmente, enxergava a atividade com encantamento infantil. Com o amadurecimento, porém, compreendeu o esforço físico e as dificuldades enfrentadas pelas profissionais.

Essas recordações inspiraram o poema As Paneleiras de Goiabeiras, selecionado pela editora FTD para publicação em material destinado ao ensino fundamental. A literatura passou, assim, a contribuir diretamente para a transmissão de conhecimentos sobre o artesanato tradicional e a moqueca capixaba, fortalecendo, igualmente, o reconhecimento da identidade cultural regional.

Preservação ambiental virou livro e exposição-denúncia

A preocupação ecológica começou em 1980, quando escreveu seu primeiro poema dedicado ao meio ambiente. Durante o período em que morou em Volta Redonda, no Rio de Janeiro, acompanhou os efeitos da poluição industrial e do pó de minério sobre a vida da população, experiência que, posteriormente, influenciaria sua produção artística.

Decidiu, consequentemente, utilizar a criação artística como instrumento de alerta. Dessa experiência nasceu o livro Preservação é Conscientização, acompanhado de uma exposição homônima que apresentava pinturas sobre a devastação da natureza. As próprias telas ilustraram a publicação, incluindo sua capa, estabelecendo, desse modo, uma conexão entre expressão visual e linguagem literária.

Décadas depois, a autora continua defendendo a responsabilidade ambiental. Em suas obras, também experimentou o reaproveitamento de materiais, costurando lonas para produzir grandes painéis pintados a óleo. Alguns trabalhos receberam acabamento em macramê realizado por sua irmã, Celi Moraes Loyola, esposa do fotógrafo e jornalista Gildo Loyola. A artista reconhece, contudo, que a utilização de tinta a óleo não torna o processo integralmente sustentável.

Exposição ambiental recebeu aprovação em São Paulo

Um acontecimento significativo na trajetória do projeto Preservação é Conscientização ocorreu no estado de São Paulo. Segundo relato da artista, a Secretaria de Educação de São Paulo aprovou a exposição itinerante, ampliando, dessa maneira, o alcance educacional de uma iniciativa que combinava artes plásticas, literatura e conscientização ambiental.

A iniciativa contou, adicionalmente, com a curadoria de Sônia Fukuda, diretora de uma escola pública localizada no município de Registro, no interior paulista. Sua participação contribuiu para aproximar o projeto artístico do ambiente escolar e, simultaneamente, reforçou a proposta de utilizar manifestações culturais como instrumentos de reflexão sobre a preservação da natureza.

Como reconhecimento pela iniciativa, Denise recebeu um certificado relacionado à aprovação do projeto. A experiência em Registro tornou-se, portanto, outro marco de sua atuação, demonstrando a importância da integração entre instituições de ensino, artistas e projetos culturais dedicados à educação ambiental.

Grupo Água e a curadoria de exposições pelo Brasil

A experiência como curadora começou com a organização das próprias exposições e ganhou, progressivamente, dimensão coletiva. Entre os trabalhos, destaca-se a curadoria de mostras do artista multimídia Tchello d’Barros, realizadas na Aliança Francesa e na Estácio de Sá, em Vitória.

Outro capítulo importante foi a atuação no Grupo Água, criado em 2007 a partir de discussões pela internet. O coletivo reuniu 19 artistas de oito estados brasileiros, promovendo exposições itinerantes dedicadas a questões sociais e ambientais. Suas atividades terminaram em 2015, após uma última performance no Bia Ateliê, em Macaé, no Rio de Janeiro, encerrando, assim, um ciclo de colaboração artística.

Durante essa experiência, a curadora assumiu responsabilidades que incluíam a proteção de aproximadamente 50 obras, transporte, negociação de espaços, divulgação, palestras e atividades com estudantes. Segundo seu relato, os participantes custearam as iniciativas com recursos próprios, sem patrocínio institucional. Ainda assim, mantiveram as atividades motivados pelo compromisso com a arte.

Amazônia, Biafra e encontros entre artistas

A defesa da natureza também aproximou a escritora do projeto A Amazônia é Nossa, desenvolvido por integrantes do grupo Artes e Artistas. Criado em 2006, o coletivo reuniu profissionais de diferentes estados brasileiros e de Portugal em torno da preservação da floresta amazônica, fortalecendo, dessa forma, uma rede de colaboração cultural.

A iniciativa contou com uma composição temática do cantor Biafra. A colaboração artística entre ambos também aparece em painéis nos quais Denise combina pinturas, colagens, registros de suas trajetórias e poemas autorais do músico, celebrando, ao mesmo tempo, quatro décadas de carreira.

Ela convidou, igualmente, o cantor para participar de suas exposições por meio de composições poéticas. Essa aproximação demonstra como a artista procura integrar música, literatura e artes visuais em projetos que ultrapassam os limites de uma única linguagem e, consequentemente, ampliam as possibilidades de comunicação com diferentes públicos.

Selmo Vasconcellos e a literatura em Rondônia

Um dos acontecimentos decisivos de sua carreira literária ocorreu quando um amigo escritor a incentivou a divulgar poemas anteriormente guardados. O estímulo surgiu na comunidade virtual Poesia Mostra a Sua Cara, fortalecendo sua presença no ambiente digital e, sobretudo, sua confiança na divulgação das próprias criações.

Estabeleceu, posteriormente, amizade com Selmo Vasconcellos, escritor, poeta, colunista e, conforme seu relato, diretor da Biblioteca de Rondônia. Sobrinho do escritor José Mauro de Vasconcelos, ele contribuiu para divulgar suas produções no Jornal Alto Madeira, em Rondônia, e abriu espaço para sua participação na Coluna Lítero Cultural.

A circulação digital ampliou, por outro lado, o alcance de seus trabalhos. Atualmente, a escritora utiliza seu blog, plataformas como Pinterest, publicações eletrônicas, transmissões ao vivo e redes de escritores para divulgar textos, ilustrações e projetos artísticos. Essa transformação também dialoga com o debate sobre a leitura profunda em tempos de telas, especialmente diante das mudanças nos hábitos culturais contemporâneos.

Bienais, antologias e reconhecimento literário

A trajetória inclui participações nos Salões de Arte da ABD, concursos literários e iniciativas promovidas por diferentes entidades. Entre os reconhecimentos, a autora destaca a conquista do primeiro lugar com uma crônica em concurso da AFEMIL, além de menções honrosas, medalhas, comendas, troféus e votos de louvor, demonstrando, igualmente, a diversidade de sua atuação.

Sua produção também circulou por projetos como Revista Cultura, ACLAPCTC, Poemas à Flor da Pele, Sarau Florescer NIT, Letras Virtuais e Rede Sem Fronteiras. Nesta última, participou de encontros virtuais com a presidente e entrevistadora Dyandreia Portugal, inclusive durante atividades relacionadas à Feira do Livro de Lisboa, ampliando, desse modo, sua participação em iniciativas internacionais.

No cenário internacional, menciona participações em antologias e eventos em Lisboa, além de uma atividade no local identificado em seu relato como Palácio de Klengston. No Brasil, registra presença em iniciativas associadas à Bienal de São Paulo, à Bienal do Rio de Janeiro e à Câmara Municipal de Vitória, consolidando, portanto, uma trajetória que ultrapassa as fronteiras estaduais.

Mulheres transformadoras e poesia para mudar o mundo

Entre as publicações coletivas, destaca-se a antologia Mulheres Transformadoras, vinculada à Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, seccional Espírito Santo (AJEB–ES). A participação fortaleceu sua presença em projetos dedicados à produção intelectual feminina e, simultaneamente, ampliou o intercâmbio com outras escritoras.

Outro trabalho significativo foi a antologia digital Poesia para Mudar o Mundo, idealizada pela escritora Leila Míccolis no portal Blocos Online. A publicação dialoga diretamente com a concepção de literatura defendida pela capixaba: uma manifestação capaz de sensibilizar leitores e, acima de tudo, estimular transformações sociais.

Sua atuação também recebeu divulgação na imprensa espírito-santense, incluindo a coluna de Hélio Dórea, Maurício Prates e veículos como A Gazeta e A Tribuna. Esses registros contribuíram para ampliar a visibilidade de suas iniciativas culturais e, consequentemente, fortalecer o reconhecimento de seu trabalho artístico e literário.

Instituições culturais e formação de leitores

A escritora integra a Academia Feminina Espírito-Santense de Letras (AFESL) e a Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB–ES). Também participa do Clube da Leitura, com mediação de Elizete Caser, valorizando o intercâmbio intelectual e, principalmente, o contato com outros autores.

Na educação, sua experiência demonstra a importância de aproximar a linguagem escolar da expressão artística. Para a professora, a Língua Portuguesa ultrapassa a aprendizagem das normas gramaticais e oferece instrumentos para compreender experiências humanas, preservar lembranças e desenvolver a criatividade, contribuindo, dessa maneira, para uma formação cultural mais abrangente.

Sua atuação como ilustradora, curadora e escritora reforça, da mesma forma, a defesa de espaços culturais acessíveis. A artista considera que encontros, oficinas, exposições e publicações coletivas permitem estabelecer vínculos duradouros entre criadores e público, promovendo, sobretudo, a democratização do conhecimento artístico.

O legado de Denise Moraes para as próximas gerações

Aos 70 anos, completados em outubro de 2026, a artista observa sua trajetória com sentimento de realização, embora demonstre preocupação com o avanço dos problemas ambientais. Em sua avaliação, governos, empresas e sociedade ainda precisam assumir compromissos mais efetivos com a preservação da natureza, especialmente diante das consequências das mudanças climáticas.

Apesar das dificuldades, mantém o desejo de desenvolver novos projetos literários e visuais. Sua principal expectativa é que filhas, netos e futuras gerações encontrem nas obras um registro sensível das paisagens, tradições e experiências que marcaram sua infância. A preocupação com o futuro também se relaciona à discussão sobre arte e calor extremo, tema que aproxima criação artística e emergência climática.

Ao sintetizar o significado de décadas dedicadas à criação, ela afirma: “Olho para a minha trajetória com a certeza de missão cumprida, movida por um amor profundo pela arte.” A declaração expressa, portanto, o sentimento de quem encontrou na produção cultural uma maneira de registrar acontecimentos e defender valores.

Para Denise Moraes, preservar a cultura significa impedir que a memória desapareça. Sua produção procura oferecer algo além dos registros fotográficos: a interpretação afetiva da história por meio da pintura, da poesia e da literatura. Nesse contexto, a reflexão sobre a preservação das tradições entre gerações também encontra espaço no jornalismo cultural, reforçando, finalmente, a importância de manter vivas as referências que constituem a identidade brasileira.

Anand Rao
Editor Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa