Viajar para um lugar ainda pouco exibido nas redes sociais começa a ganhar valor entre os brasileiros.
Em vez de repetir fotografias, restaurantes e roteiros popularizados por influenciadores, parte dos turistas procura destinos com identidade própria, menor concentração de visitantes e experiências que não pareçam previamente organizadas pelo algoritmo.
Em março de 2026, o Kayak divulgou um guia com 20 destinos brasileiros considerados subestimados. O levantamento reuniu localidades como Garanhuns, Guaramiranga, Ilha do Mel, Teresópolis, Poços de Caldas e Rio das Ostras.
Entretanto, o aspecto mais relevante não está na lista, mas no comportamento que ela ajuda a revelar: o viajante demonstra sinais de cansaço diante da padronização das viagens.
Comece por aqui
- O interesse dos brasileiros por destinos menos populares cresce, refletindo um cansaço com a padronização das viagens.
- Uma pesquisa do Kayak mostrou que a Geração Z e Millennials preferem experiências únicas e menos conhecidas do que as vistas nas redes sociais.
- Destinos alternativos podem rapidamente ficar saturados, exigindo planejamento em transporte e infraestrutura para evitar problemas de turismo em massa.
- Viajar fora do algoritmo significa buscar experiências autênticas e espontâneas, em vez de seguir apenas influências digitais.
- O planejamento consciente, incluindo interações com locais e eventos regionais, ajuda os turistas a personalizar suas viagens.

O algoritmo transformou destinos em produtos repetidos
As redes sociais ampliaram o acesso à informação turística. Hoje, um vídeo curto pode apresentar uma praia, pousada ou restaurante a milhões de pessoas em poucas horas.
Por outro lado, essa visibilidade costuma concentrar visitantes nos mesmos endereços, mirantes e horários.
Consequentemente, diferentes viagens passam a produzir imagens semelhantes. O turista chega sabendo onde deverá fotografar, qual prato pedir e até como enquadrar a paisagem.
A experiência, portanto, corre o risco de se transformar em uma reprodução do conteúdo visto na tela.
Nesse contexto, escolher um destino menos óbvio representa uma tentativa de recuperar a descoberta.
Não significa rejeitar lugares conhecidos, mas buscar uma relação mais espontânea com o território, a cultura local e os moradores.
Destinos fora do algoritmo
Exclusividade já não significa luxo
Durante muito tempo, uma viagem exclusiva esteve associada a hotéis sofisticados ou serviços personalizados.
Agora, a exclusividade também pode surgir da ausência de multidões, do contato com tradições regionais e da possibilidade de caminhar sem disputar espaço com grandes grupos.
O relatório de tendências do Kayak para 2026 apontou que 87% dos entrevistados da Geração Z e 83% dos Millennials desejam conhecer lugares onde nunca estiveram e viver experiências diferentes daquelas que já dominam seus feeds.
Embora o dado venha de uma empresa do setor, ele reforça uma mudança perceptível: o desconhecido voltou a funcionar como atrativo turístico.
A busca por silêncio, natureza e menor exposição digital acompanha esse movimento. Segundo conteúdo divulgado pelo Ministério do Turismo, 36% dos brasileiros demonstram interesse por viagens associadas ao contato com a natureza e à desconexão das telas.
Destinos alternativos também podem ficar saturados
No entanto, chamar um lugar de “secreto” ou “escondido” produz uma contradição.
Quando um destino alternativo viraliza, ele pode receber rapidamente um fluxo para o qual não possui infraestrutura adequada. Assim, o que inicialmente parecia uma solução para o turismo de massa pode apenas deslocar o problema.
Por isso, cidades menores precisam planejar transporte, saneamento, conservação ambiental e qualificação profissional antes de ampliar sua promoção.
Da mesma forma, viajantes devem observar a capacidade dos territórios, respeitar comunidades e contratar serviços locais.
Também vale ponderar que parte das localidades classificadas como subestimadas já possui forte movimento em feriados e temporadas. Pipa, Capitólio, Canela, Itacaré e Ouro Preto, por exemplo, dificilmente são desconhecidas.
A expressão “fora do algoritmo”, nesse caso, descreve menos a ausência de turistas e mais uma alternativa aos destinos que concentram a maior exposição nacional.

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Destinos fora do algoritmo
Como viajar sem seguir apenas as redes sociais
Para encontrar experiências diferentes, o planejamento pode começar por festivais regionais, rotas ferroviárias, patrimônios culturais, parques estaduais, mercados públicos e pequenas cidades próximas a destinos consolidados.
Além disso, conversar com moradores, consultar calendários culturais e viajar fora da alta temporada ajuda a construir um roteiro mais pessoal.
Dessa maneira, o turista deixa de seguir somente aquilo que aparece primeiro na busca e passa a considerar o que combina com seu ritmo, orçamento e interesses.
No fim, viajar fora do algoritmo não exige descobrir um lugar completamente desconhecido. Exige, sobretudo, recuperar a autonomia de escolher por que, como e para onde viajar.
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
Fontes: Kayak, Ministério do Turismo e Mercado & Eventos. O ranking do Kayak utilizou buscas de hospedagem realizadas entre maio de 2025 e fevereiro de 2026, para viagens previstas entre julho de 2025 e junho de 2026.
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