Futebol dá lucro? A economia por trás do jogo e da paixão
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Futebol dá lucro? A pergunta ganhou força no Brasil a partir de 2021, quando a Lei da SAF colocou o modelo de clube-empresa no centro do debate esportivo. Desde então, torcedores, dirigentes e comentaristas passaram a associar automaticamente a entrada de investidores à ideia de lucro financeiro. No entanto, o episódio Meio de Campo, com Idelber Avelar e Diego Ambrosino, mostra que essa associação simplifica demais uma engrenagem econômica muito mais complexa.
Antes de qualquer conclusão, o programa propõe uma introdução clara à economia do futebol. Para isso, apresenta dados históricos, exemplos internacionais e comparações entre modelos de gestão. Além disso, os apresentadores destacam que o futebol movimenta volumes gigantescos de dinheiro, mas transforma grande parte dessa receita em custos operacionais para sustentar a competição esportiva.
Assim, a pergunta inicial se transforma em outra ainda mais relevante: se o futebol gera tanto dinheiro, por que tantos clubes têm dificuldade para apresentar lucro consistente? A resposta passa por salários, direitos de transmissão, estrutura de ligas e, sobretudo, pela lógica esportiva que prioriza vencer em campo, mesmo quando isso pressiona as finanças.
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Uma economia “ao revés”: quem fica com a maior fatia
Em primeiro lugar, o episódio chama atenção para um dado que contraria o senso comum. O futebol não segue o modelo clássico do capitalismo industrial, no qual donos ampliam seus ganhos enquanto trabalhadores perdem espaço. Pelo contrário, especialmente após 1995, com o caso Bosman, os jogadores, ao menos os da elite, passaram a concentrar uma parcela crescente das receitas.
Além disso, o programa explica que esse movimento se intensifica nas grandes ligas europeias. Premier League, Champions League, Bundesliga e Serie A italiana concentram uma mão de obra altamente qualificada e rara. Consequentemente, esses atletas conquistam poder de barganha elevado e negociam salários cada vez maiores, impulsionados pela expansão das receitas globais.
Para contextualizar, os apresentadores recorrem à história do futebol inglês. Desde 1885, os clubes ingleses atuam como empresas privadas. No entanto, para preservar a competitividade, o país adotou mecanismos regulatórios ainda no início do século XX. O limite de 5% para dividendos e a criação do salário máximo, em 1901, funcionaram como freios importantes. Durante 60 anos, o teto salarial conteve gastos e manteve equilíbrio. Mesmo assim, a pressão dos jogadores levou ao fim desse modelo em 1961.
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Clubes-empresa e clubes-associação: o mundo não é binário
Enquanto isso, no Brasil, o debate recente costuma se resumir a uma oposição simplista: ou o clube vira SAF ou desaparece. No entanto, o episódio demonstra que a realidade internacional apresenta múltiplos caminhos. A legislação brasileira já permitia clubes-empresa desde 1999, com a Lei Pelé. A SAF apenas ampliou incentivos e criou uma estrutura mais organizada, sem impor obrigatoriedade.
Por outro lado, a Inglaterra mostra um modelo distinto. Embora todos os clubes profissionais sejam empresas, o dono tradicionalmente atua como guardião da instituição, com forte vínculo comunitário. Assim, a lógica não gira em torno da extração de lucro, mas da preservação esportiva. Por isso, a compra do Manchester United pela família Glazer gerou tanta rejeição, já que rompeu com essa cultura histórica.
Na Argentina, o cenário se inverte. Os clubes funcionam como associações sem fins lucrativos, pertencentes aos sócios. Entretanto, o episódio ressalta que esse modelo frequentemente concentra poder em grupos internos, os chamados cartolas. Além disso, muitos clubes mantêm ligações políticas e econômicas no entorno dos estádios. Nesse contexto, a proposta de transformar clubes em sociedades anônimas esportivas provoca forte polarização no país.
De onde vem o dinheiro: três fontes e uma mudança decisiva
Para compreender o funcionamento financeiro do futebol, o programa organiza as receitas em três grandes fontes. Primeiramente, a receita do dia do jogo reúne bilheteria, consumo no estádio, estacionamento e publicidade local. Em segundo lugar, a receita comercial inclui patrocínios, venda de camisas e produtos licenciados. Por fim, os direitos de transmissão e as premiações esportivas formam a fonte mais robusta.
Entretanto, essa estrutura não existiu sempre. Até os anos 1980, os clubes dependiam majoritariamente do estádio. A grande virada ocorre em 1992, com a criação da Premier League. A nova liga passa a negociar coletivamente seus direitos de TV, separada das divisões inferiores. Como resultado, o futebol inglês se transforma em um produto global altamente valorizado.
Os dados apresentados no episódio reforçam essa mudança. Na Premier League, entre 45% e 55% da receita vem da televisão. Na França e na Itália, esse percentual chega a 60%. Já na Alemanha, oscila entre 35% e 45%. Na Championship, a dependência se torna ainda maior, alcançando até 80%. Por consequência, a receita de estádio perde protagonismo e representa hoje apenas 10% a 15% do total na elite inglesa.
Por que a Premier League virou potência e o Brasil travou na divisão
Além da capacidade de gerar receita, a Premier League se destaca pela forma como distribui o dinheiro. Metade dos recursos é dividida igualmente entre os clubes. Em seguida, uma parte recompensa o desempenho esportivo, enquanto outra considera a audiência televisiva. Dessa forma, a liga preserva competitividade e mantém o interesse do público ao longo da temporada.
Em contraste, o futebol brasileiro apresenta uma divisão muito mais concentrada. Segundo dados citados no episódio, o clube que mais recebe chega a ganhar cerca de sete vezes mais do que o que menos recebe. Esse desequilíbrio compromete a atratividade do campeonato e limita o crescimento coletivo do produto.
Por fim, o programa reforça que a receita não depende apenas do tamanho da torcida individual. A competição em si gera interesse, audiência e valor. Sem equilíbrio esportivo, o espetáculo perde força. Portanto, ao analisar se o futebol dá lucro, torna-se essencial olhar além das cifras e compreender a lógica estrutural que move o jogo.
Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa

