Mais dois espetáculos movimentaram a primeia semana da 48 edição do festival de Jazz de Marciac, na França.
Até o dia 5 de agosto serão 38 shows, com destaque para, entre outros Marcus Miller, Kool and The Gang, Diana Krall, Kenny Garrett, Paco de Lucia Legacy e Thomas Dutronc.
Entre quinta e sexta-feira se apresentam o nigeriano Keziah Jones e o americano Pat Metheny.
O guitarrista Pat Metheny é um dos músicos mais reconhecidos do universo jazzístico da atualidade. É dono de uma sonoridade marcante e única, desenvolvida em mais de 50 anos de carreira. Escudou lendas como Jaco Pastorius e Ornette Coleman e foi reconhecido com 30 Grammys, em 10 categorias diferentes.
Às 23h de sexta-feira ele sobe no palco príncipal do JIM vestindo ama de suas inconfundívelus camisas xadrez. Abre o concerto tocando um violão eletrificado, acompanhado apenas pelo percussionista Leonard Patton. E ali começa o despejo de melodias gourmets com as quais ele açucara os ouvidos das platéias de jazz desde 1974.
Não demora para a guitarra Gibson ES-175 entrar em cena, junto com os demais integrantes do grupo:
Chris Fishman (piano), Jermaine Paul (baixo) e Joey Dyson (bateria). A prineira hora do show vai se desdobrar sem aurpresas para os que conhecem o trabalho de Pat.
Diferentes correntes do jazz contemporâneo deslizam pelas mãos do guitartista de Kansas, se transformando numa torrente de melodias límpidas e de harmonias complexas. É aquele jazz que não perturba nem surpreende.
Ao contrário, dá uma boa acariciada na alma. A satisfação do público é evidente. A segunda música é “In on It”, faixa de seu último disco. Na suquência virão outras do récem-lançado “Side-Eye III+”, como “Urban and Western”, “Dont look down” e “Make a new world”.
A segunda hora do concerto, consegue ser levemente disruptiva, do ponto de vista do Pat, é claro. Tem mais participacão de Leonard no canto (lembra muito as vocalizações de Milton Nscimento), o que acrescenta uma atmosfera etérea ao espetáculo.
Em determinado momento, Pat troca a Gibson pour um velho violão eletrificado e começa a tirar dele distorções enquanto acompanha um longo solo do baterista Joey. “Cela je peux faire chez moi…!” (“Isso eu posso fazer na minha casa…”), grita alguém na platéia.
É o momento mais disruptivo desse concerto, que vai durar 2h30min no total, com muito espaço para escutarmos o mellotron e o synth, tocados por Chris; e o contrabaixo, executado por Jermaine.
Com pouco mais de duas horas de apresentação, Leonard capricha na interpretação vocal do clássico “Song for Bilbao” e é o fim.
Diante da unânime constatação de que trata-se do show de melhor qualidade técnica e artística mostrado até aqui no festival.
Os 1.500 presentes insistem para que o grupo volte. Voltam apenas Pat e um violão, ele toca “América the beautiful”e chama a banda. Tocam outro standart com direito a solos de cada músico. Vão embora sob intensa aclamação.
O público pede mais, o fominha guitarrista lá no back stage escuta e resurge em cena. Gasta nuito bem mais 10 minutos do nosso tempo executando “Last train home” e tudo se repete. Entra novamente a banda e não conseguimos sair do Chapiteux antes de 1h30 da manhã, quando soa o último acorde de “Are going with me”. Grande show, em todos os sensos.
Nesta madrugada, Pat sai venerado de Marciac. E o público bem contente.
Keziah Jones e Pat Metheny
A banda do Zé pretinho
Eu estava bem curioso para assistir o concerto do cantor, compositor e guitarrisata Keziah Jones. Achava interessante a história do cara: descoberto tocando no terraço de um café, na Londres dos 90’s.
Considerava, de certa forma, ousado a produção do JIM trazer um artista com uma história “mambembe” (também lançou discos com shows em estação de metrô).
Eles têm seus queridinhos aqui, pois Marciac é também um centro importante de formação inicial de músicos. E o perfil dos queridinhos, tal qual o saxofonista Emile Parisien, que tocou na segunda noite, não é exatamente o de Keziah.
Bem, não me decepcionei. A maioria das pessoas a quem pedi impressões sobre o concerto de Keziah, achou-o, no máximo, simpático! Mas eu adorei muito por conta, justamente, de sua espontaneidade. Já assisti mais de 150 concertos em Marciac e Keziah foi o único músico que vi se abaixar para regular um pedal aqui no palco do festival.
Keziah se apresena num grande palco como se tocasse na esquina.
A banda enxuta e competente (todos negros), com baixo, guitarra e uma cantora de apoio (o release informava que o teclado seria executado ou por Silvan Rabbath ou Alban Legoff, mas nenhum deles estava lá. Na única faixa com teclado o baixista Mo Pleasure fez duplo papel).
Ele não precisa de muito para se sentir à vontade e soltar em vôo livre uma mão direita incrivelmente suingada, numa guitarra furiosa onde se fazem evidentes as influências de Hendrix e Prince.
A sexta música “Beautiful Emily” faz lembrar muito Prince. E no bis tem a Dylanesca “All along the wachtower”, que Hendrix gravou.
É verdade que para a grande maioria do público sua mistura de blues e funk, batizada por ele de “Blufunk”, pode não ser lá de fácil assimilação. Ainda mais que há músicas cantadas na língua Iorubá, de seu país natal. Ritmicamente, ela pode seguir múltiplas direções, sempre atreladas à mão direita de Keziah (Mo e o baterista Josh McNasty suam bicas para acompanhá-lo).
Assim, canções com groove mais “definido” como “Supreme love” e “The Funderlying undermentals” dão ulguma âncora prá gente tentar acompanhar a desorientação ritmica que vem em seguida.
Keziah não se preocupa muito em agradar o público, embora não aparente egolatria. Com uma hora de show, inesperadamente, acena para a banda e todos se retiram. O Público pede mais, e o cantor volta só com sua guitarra. Toca três baladas com mensagens sobre as dificuldades de se viver num mundo hostil e cada vez mais racialmente limítrofe e dá seu adeus final.
Eu conheço Marciac. O público daqui adora esse tipo de auto-comiseração: a fragilidade das minorias.
Por cinco minutos insistem para que Keziah volte. É como se jogassem moedas dentro de seu chapéu. Inútil! Ele já deve estar pensando na próxima boca de metrô em que irá se apresentar.
Texto de Carlos Dias Lopes é músico e jornalista.
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