Poeta, jornalista, professor e pesquisador percorre mais de cinco décadas de produção cultural, relembra a geração mimeógrafo e apresenta uma obra marcada pela relação entre palavra, Brasília, Cerrado e cotidiano.
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O Sarau Cultura Alternativa 2026 recebeu Luiz Martins da Silva para uma conversa com Anand Rao sobre poesia, jornalismo, Brasília, memória, universidade, natureza e transformação tecnológica. O encontro, ao mesmo tempo, recuperou episódios de uma geração que ajudou a construir a identidade cultural da capital federal e mostrou como aquela produção permanece conectada ao presente.
O anfitrião abriu o programa destacando sua admiração pelo convidado e lendo o “Soneto da Chuva”. O poema, portanto, funcionou como porta de entrada para uma conversa construída entre lembranças pessoais e história coletiva. Aos 76 anos, o escritor revisitou seus muitos “ontens” e mostrou, sobretudo, como literatura, jornalismo e vida acadêmica acabaram se encontrando ao longo de sua trajetória.
Tabela de conteúdos
Da mala Eucatex à Brasília dos anos 1970
A narrativa voltou inicialmente à chegada à capital. Filho de uma família migrante do Ceará, o poeta recordou que seu pai e irmãos mais velhos trabalharam na construção de Brasília. Ele próprio, entretanto, chegou definitivamente à cidade em 1970, depois de estudar em Formosa, Goiás, trazendo uma pequena mala Eucatex e diferentes projetos para o futuro.
O jovem pretendia estudar e sonhava com fotografia e cinema. Brasília, contudo, reservou-lhe caminhos inesperados. Um deles surgiu através do fotógrafo Alfredo Beresnitsky, profissional que havia trabalhado em festivais de cinema no Uruguai e posteriormente se estabelecido na nova capital. O entrevistado contou, inclusive, uma história envolvendo fotografias de Juscelino Kubitschek e a permanência do fotógrafo na cidade.
Seu primeiro emprego em Brasília nasceu desse universo. A fotografia, entretanto, não seria seu destino profissional definitivo. Depois de ingressar na Universidade de Brasília, aproximou-se cada vez mais do jornalismo. Antes mesmo de concluir o curso, começou a trabalhar na área e, posteriormente, passou por diferentes coberturas, incluindo economia, Itamaraty e Presidência da República.
Poesia marginal, mimeógrafos e resistência cultural
A memória do convidado ganhou especial força quando a conversa chegou à década de 1970. Brasília vivia, naquele momento, um movimento de jovens autores que buscavam alternativas para publicar e fazer circular seus textos. O mimeógrafo, assim, transformou-se em instrumento de produção cultural e independência editorial.
O escritor participou da chamada geração mimeógrafo brasiliense e relembrou antologias, folhetos, encontros em bares e apresentações em escolas. A publicação de Águas Emendadas, em 1977, aparece, nesse contexto, como um dos registros daquele período de efervescência poética. O título dialogava simbolicamente com Brasília, ponto geográfico de onde águas seguem para diferentes regiões brasileiras.
A produção, porém, não se restringia aos livros tradicionais. Poetas criavam publicações artesanais, objetos e experiências gráficas. O professor mostrou, por exemplo, Merenda Escolar, confeccionado em mimeógrafo, além de recordar o folheto Saideira. Os autores, dessa maneira, assumiam diversas etapas da criação: escreviam, imprimiam, financiavam, distribuíam e apresentavam suas próprias obras.
O termo “marginal”, naquele contexto, não significava ausência de elaboração intelectual. Tratava-se, principalmente, de uma posição à margem das grandes editoras e dos circuitos tradicionais de publicação. A poesia também estabelecia, naquele período, relações com contestação política, liberdade comportamental e resistência durante o regime militar.

Da universidade aos poemas-objeto
A carreira jornalística dividiu espaço, posteriormente, com a universidade. O entrevistado tornou-se professor, pesquisador e orientador, atuando em ensino, pesquisa e extensão. A produção acadêmica, entretanto, não eliminou sua relação com a experimentação poética. Pelo contrário, diferentes linguagens continuaram atravessando sua obra.
Durante o sarau, o autor mostrou poemas-objeto construídos em suportes incomuns, entre eles caixas de fósforos e uma cabaça. A palavra, desse modo, ultrapassa a página e passa a dialogar com a materialidade dos objetos. Essa liberdade criativa acompanha uma geração que experimentou intensamente novas possibilidades de expressão.
Outro exemplo apresentado foi O Assassinato das Folhas, escrito no início dos anos 1980. O trabalho incorporava, já naquele período, uma preocupação ecológica. Décadas depois, entretanto, natureza e observação ambiental continuam ocupando espaço relevante em sua poesia.
Raikwadra, aquarela e a reinvenção da forma
O poeta apresentou também uma criação particular: a “Raikwadra”. Inspirada no espírito do haicai, mas relacionada às quadrinhas brasileiras e à própria organização urbana de Brasília, a proposta substitui as três linhas tradicionais por quatro versos. O nome, além disso, brinca diretamente com as quadras e superquadras da capital.
Essa experiência aparece em obras como Realejo. Durante a pandemia, por sua vez, poesia e artes visuais ganharam outra aproximação em Raikais, Raigas e Outras Percepções. O autor passou a relacionar poemas e aquarelas, construindo um diálogo entre palavra, imagem, isolamento e contemplação.
A natureza tornou-se, nesse processo, uma espécie de laboratório permanente. Morando na região da Rota do Cavalo, no Distrito Federal, o escritor acompanha árvores, insetos, aves, secas e chuvas. O Cerrado, portanto, deixa de funcionar apenas como paisagem e passa a participar diretamente da criação literária.
Assista à live
O encontro completo está disponível na TV Cultura Alternativa. Durante mais de uma hora, o público pode acompanhar histórias, poemas, livros, aquarelas e memórias de diferentes períodos da vida cultural brasiliense.
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O Cerrado transformado em poesia
Na parte final, o entrevistado voltou à observação da natureza e apresentou poemas inspirados nos ciclos ambientais. Em “Aonde estavam todos?”, questiona o reaparecimento de pequenos animais depois da longa estiagem. Em “Calendárvores”, por outro lado, transforma árvores e florações em marcadores naturais da passagem do tempo.
Brasília também aparece diretamente em “Lua de Poeta”, numa relação entre arquitetura, céu, pioneiros, modernidade e imaginação. O encontro terminou, assim, aproximando aquilo que atravessou toda a conversa: memória e presente, cidade e natureza, palavra e imagem.
O sarau revelou, finalmente, uma trajetória que não ficou aprisionada ao passado. Entre mimeógrafos, jornalismo, universidade, aquarelas, internet e estúdios virtuais, o poeta continua experimentando formas de observar e traduzir o cotidiano. O editor-chefe do Cultura Alternativa, por sua vez, reafirmou a proposta de ampliar esses encontros pela tecnologia, fazendo do projeto uma porta aberta para diferentes gerações, linguagens e histórias.
Anand Rao – Editor-Chefe
Fernando Araújo & Equipe
Colaboradores
Cultura Alternativa

