Farmácias e UBS podem ajudar o Brasil a prever surtos respiratórios
Dados produzidos diariamente por farmácias e Unidades Básicas de Saúde podem ajudar o Brasil a identificar surtos respiratórios antes do aumento das internações.
Um estudo realizado com informações nacionais mostrou que esses registros anteciparam parte das elevações hospitalares com uma a três semanas de antecedência.
A pesquisa, publicada na revista npj Digital Public Health, do portfólio Nature, analisou atendimentos da atenção primária, vendas de medicamentos sem prescrição e hospitalizações registradas no Brasil.
Portanto, os resultados oferecem um caminho concreto para fortalecer a vigilância epidemiológica e ampliar o uso da saúde digital no Sistema Único de Saúde.
Comece por aqui
- Farmácias e UBS podem ajudar a prever surtos respiratórios no Brasil ao analisar dados sobre atendimentos e vendas de medicamentos.
- Estudo mostra que os dados antecipam hospitalizações em até três semanas, com 59,5% das elevações identificadas a partir da atenção primária.
- Mudanças nas vendas de medicamentos podem indicar aumento de circulação viral, mas devem ser complementadas por outros dados epidemiológicos.
- Integrar informações do comércio farmacêutico e atendimentos médicos pode fortalecer a vigilância epidemiológica e permitir respostas mais rápidas aos surtos.
- O Brasil possui uma ampla rede de atenção primária e farmácias, mas enfrenta desafios como a necessidade de padronizar dados e garantir a proteção das informações.
Como a pesquisa foi realizada
Os pesquisadores avaliaram dados semanais de 510 regiões brasileiras entre novembro de 2022 e junho de 2025.
Ao todo, o levantamento reuniu mais de 62 milhões de atendimentos relacionados a sintomas gripais, cerca de 689 milhões de unidades de medicamentos vendidas e 2,29 milhões de hospitalizações por doenças respiratórias.
Em seguida, modelos estatísticos identificaram alterações fora do padrão esperado em cada série de informações.
Dessa forma, os cientistas verificaram se o crescimento das consultas e das vendas ocorria antes das elevações nas internações.
Os dados da atenção primária anteciparam 59,5% dos 746 aumentos hospitalares identificados no período. Por sua vez, as vendas de medicamentos sem prescrição anteciparam 56,6% desses eventos. Em ambos os casos, os alertas surgiram entre uma e três semanas antes.
Vigilância epidemiológica
Por que farmácias podem funcionar como alerta
Muitas pessoas compram antitérmicos, antialérgicos ou medicamentos para sintomas gripais antes de procurar atendimento médico.
Por isso, uma mudança repentina nas vendas pode indicar maior circulação de vírus em determinada região.
O estudo acompanhou substâncias associadas ao tratamento de sintomas semelhantes aos da gripe, entre elas paracetamol, loratadina, ácido ascórbico e fenilefrina. Contudo, o aumento das vendas não confirma, sozinho, a existência de uma epidemia.
Promoções comerciais, mudanças climáticas e hábitos locais também podem alterar o consumo.
Portanto, os dados das farmácias devem complementar outras fontes, e não substituir exames, notificações e investigações epidemiológicas.
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UBS oferecem sinais mais próximos da comunidade
As UBS ocupam uma posição estratégica porque recebem pacientes ainda nas fases iniciais das doenças. Além disso, os registros da atenção primária incluem informações sobre o motivo da consulta e o município onde o atendimento ocorreu.
Na pesquisa, esses dados apresentaram desempenho ligeiramente superior ao das vendas de medicamentos.
Ainda assim, os autores observaram diferenças entre as regiões brasileiras, influenciadas pelo acesso aos serviços, pela qualidade dos registros e pelas características populacionais.
Consequentemente, um sistema nacional precisaria considerar as particularidades locais. Um indicador eficiente no Centro-Oeste, por exemplo, pode exigir ajustes antes de ser aplicado da mesma forma no Nordeste.
Vigilância epidemiológica
O que o SUS poderia fazer com três semanas de antecedência
Um alerta precoce não impede a circulação de um vírus. Entretanto, ele oferece tempo para organizar a resposta dos serviços públicos.
Com uma previsão mais rápida, gestores podem reforçar equipes, revisar estoques, preparar leitos e ampliar os horários das unidades com maior demanda.
Além disso, campanhas de vacinação e orientações sobre prevenção podem ser direcionadas às regiões onde os primeiros sinais aparecem.
Dessa maneira, a vigilância epidemiológica deixa de observar apenas o crescimento das internações e passa a acompanhar comportamentos que surgem antes dos casos mais graves.
Saúde digital exige integração e proteção de dados
O Brasil possui vantagens para desenvolver essa estratégia. O SUS mantém uma extensa rede de atenção primária, enquanto o país conta com mais de 100 mil farmácias privadas.
Além disso, os atendimentos públicos geram registros utilizados pelo Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica.
Por outro lado, ainda existem obstáculos. Bases públicas e privadas precisam utilizar padrões compatíveis, enquanto os dados dos cidadãos devem permanecer agregados e protegidos.
Também será necessário reduzir desigualdades na qualidade das informações. Caso contrário, áreas com registros incompletos poderão receber alertas menos precisos.

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Vigilância epidemiológica
Uma oportunidade para prevenir, não apenas reagir
A principal contribuição do estudo está no uso de informações que já são produzidas diariamente. Assim, farmácias e UBS podem atuar como sensores complementares de mudanças na saúde da população.
Os resultados não autorizam previsões infalíveis, pois o modelo também emitiu falsos alertas e perdeu parte dos aumentos hospitalares.
Mesmo assim, a pesquisa mostra que integrar atenção primária, comércio farmacêutico e internações pode tornar a vigilância epidemiológica brasileira mais rápida.
Portanto, o desafio agora é transformar dados dispersos em decisões públicas responsáveis. Com tecnologia, transparência e análise regional, o Brasil poderá ganhar semanas importantes para enfrentar futuros surtos respiratórios.
Fontes
Nature Portfolio. Anticipating influenza-like illness outbreaks via syndromic surveillance using over-the-counter drug sales and primary health care data. Publicado na revista npj Digital Public Health em 29 de abril de 2026.
- Nature. Estudo sobre previsão de surtos respiratórios com dados da atenção primária e vendas de medicamentos.
- Ministério da Saúde. Vigilância em Saúde e transformação digital no SUS.
- Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Vigilância epidemiológica e doenças respiratórias.
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
REDAÇÃO SITE CULTURA ALTERNATIVA
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