Açúcar de cana com absorção mais lenta: o que muda na inovação criada no Brasil
Pesquisadores brasileiros desenvolveram um açúcar de cana com absorção mais lenta, capaz de provocar uma resposta glicêmica menor sem alterar de forma significativa o sabor do produto.
O estudo reúne cientistas da Universidade Estadual de Campinas, da Universidade de São Paulo e do Instituto de Tecnologia de Alimentos.
A inovação chama atenção porque tenta responder a um desafio atual da indústria de alimentos: oferecer ingredientes mais compatíveis com uma alimentação equilibrada sem abandonar produtos que já fazem parte da rotina do consumidor.
Ainda assim, é importante compreender o alcance da descoberta. O novo ingrediente continua sendo açúcar. Portanto, menor impacto sobre a glicemia não significa consumo sem limites.
SAIBA ➕ MAIS
- Pesquisadores brasileiros desenvolveram um açúcar de cana com baixo índice glicêmico, visando reduzir a resposta glicêmica sem alterar o sabor.
- O novo açúcar incorpora compostos naturais de resíduos de café e amendoim, melhorando sua estrutura por cocristalização.
- Os primeiros testes mostraram que o açúcar apresenta uma resposta glicêmica mais lenta em relação ao açúcar convencional.
- Apesar de seu baixo índice glicêmico, o açúcar não deve ser consumido em excesso, pois continua sendo açúcar.
- A tecnologia já teve pedido de patente, mas ainda precisa passar por avaliações antes de ser comercializada.
Como os cientistas modificaram o açúcar de cana
Para desenvolver o produto, os pesquisadores utilizaram compostos naturais presentes em resíduos do café verde e na película que envolve o amendoim.
Esses materiais são ricos em compostos fenólicos, conhecidos pela ação antioxidante. Em seguida, a equipe incorporou os extratos aos cristais de sacarose por meio de uma técnica chamada cocristalização.
De forma simplificada, o processo reorganiza a estrutura do açúcar para permitir a incorporação dessas substâncias.
Além disso, os pesquisadores conseguiram ampliar significativamente a quantidade dos compostos adicionados, sem comprometer as características do produto.
Açúcar de cana com baixo índice glicêmico
O açúcar realmente reduz o pico de glicose?
Os primeiros testes em humanos apresentaram resultados promissores.
Durante o estudo, 25 voluntários consumiram diferentes formulações em seis dias distintos. Depois disso, os pesquisadores acompanharam a glicemia dos participantes durante duas horas.
A combinação dos extratos de café e amendoim produziu a melhor resposta. Segundo os resultados divulgados, o índice glicêmico da sacarose passou da categoria média para baixa.
Isso significa que a glicose tende a chegar ao sangue de maneira mais lenta. Consequentemente, o aumento da glicemia pode ocorrer de forma menos rápida quando comparado ao açúcar convencional.
Baixo índice glicêmico significa açúcar saudável?
Não necessariamente.
O índice glicêmico mede a velocidade com que um alimento aumenta a glicose no sangue. Entretanto, ele não informa sozinho a quantidade de calorias, de açúcar consumido ou o efeito geral da alimentação sobre a saúde.
Até agora, os pesquisadores ainda não estabeleceram se o novo produto apresenta valor energético diferente da sacarose tradicional. Inicialmente, a expectativa é que as calorias sejam semelhantes.
Por isso, a descoberta não transforma o açúcar em um alimento de consumo irrestrito. O principal avanço está na forma como o organismo responde à sua ingestão.
Essa distinção é especialmente importante porque expressões como “baixo índice glicêmico” podem levar o consumidor a interpretar determinado produto como automaticamente mais saudável.
SAIBA ➕ MAIS
- Saiba como substituir o açúcar branco no dia a dia
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Açúcar de cana com baixo índice glicêmico
Por que café e amendoim entraram na fórmula?
Além da questão metabólica, a pesquisa apresenta um componente de sustentabilidade.
Os cientistas utilizaram café verde considerado fora do padrão comercial e a película do amendoim, materiais que normalmente apresentam menor valor econômico ou podem virar resíduos.
Dessa forma, o projeto cria uma possível aplicação para subprodutos da cadeia agrícola brasileira. Ao mesmo tempo, aproxima inovação alimentar e economia circular.
O estudo integra uma plataforma de pesquisa dedicada ao desenvolvimento de ingredientes mais saudáveis a partir de matérias-primas nacionais.

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Quando esse açúcar poderá chegar ao supermercado?
Ainda não existe previsão.
A tecnologia já teve pedido de patente depositado e poderá ser licenciada para empresas interessadas. Porém, antes de chegar ao consumidor, o produto precisará passar por novas avaliações, etapas industriais e exigências regulatórias.
Além disso, os pesquisadores pretendem estudar como o ingrediente pode interagir com a microbiota intestinal.
Portanto, o novo açúcar brasileiro deve ser visto como uma inovação em desenvolvimento, e não como uma solução pronta para substituir imediatamente o açúcar convencional.
Ainda assim, a pesquisa abre uma discussão relevante. Em vez de apenas retirar ingredientes dos alimentos, a indústria também começa a investigar formas de modificar sua resposta no organismo. Nesse sentido, ciência, saúde e sustentabilidade passam a ocupar o mesmo laboratório.
Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa
Fontes: Agência FAPESP, Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS) e Metrópoles.
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