Queimadas e saúde: fumaça aumenta custos hospitalares e internações

A fumaça das queimadas não prejudica apenas o meio ambiente.

Ela também prolonga internações, agrava doenças e aumenta os gastos hospitalares no Brasil. Portanto, combater incêndios florestais deve ser entendido como uma medida ambiental, econômica e de saúde pública.

Essa relação foi demonstrada por um estudo publicado em 7 de julho de 2026 na revista científica Nature Communications.

A pesquisa analisou 184,5 milhões de internações registradas no país e avaliou os efeitos das partículas finas produzidas especificamente pelos incêndios florestais.

Pequeno resumo

O que a fumaça das queimadas provoca no organismo

Um dos principais poluentes liberados pelo fogo é o PM2,5, nome dado às partículas com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros.

Como são extremamente pequenas, elas conseguem penetrar profundamente nos pulmões e estão associadas a problemas respiratórios e cardiovasculares.

Essas partículas podem permanecer suspensas no ar e ser transportadas pelo vento. Dessa maneira, a poluição não fica restrita à Amazônia, ao Cerrado ou ao Pantanal. Cidades localizadas a centenas de quilômetros dos incêndios também podem registrar piora da qualidade do ar.

Por consequência, mesmo pessoas que não vivem próximas aos focos de fogo podem apresentar tosse, irritação nos olhos, falta de ar ou agravamento de doenças preexistentes.

Custos hospitalares chegaram a US$ 755,6 milhões

Segundo o estudo, a exposição ao PM2,5 das queimadas esteve associada a aproximadamente US$ 755,6 milhões em custos hospitalares e a 30,8 milhões de dias de internação entre 2000 e 2019.

Para cada aumento de 1 micrograma por metro cúbico desse poluente, os pesquisadores identificaram crescimento de 0,36% nos custos hospitalares gerais. Entretanto, o impacto foi ainda maior nas internações por doenças respiratórias, com alta de 1,59%.

Ao mesmo tempo, os gastos relacionados às doenças cardiovasculares aumentaram 0,25%. Já os pacientes com problemas respiratórios permaneceram, em média, 1,72% mais tempo no hospital.

Em outras palavras, a fumaça não apenas leva mais pessoas aos serviços de saúde. Ela também torna o tratamento mais demorado e mais caro.

Crianças e pacientes crônicos enfrentam maior risco

Os efeitos foram mais intensos entre crianças e adolescentes de até 19 anos. Além desse grupo, idosos, gestantes e pessoas com asma, pneumonia, insuficiência cardíaca ou doença pulmonar obstrutiva crônica exigem atenção especial.

Da mesma forma, trabalhadores que permanecem ao ar livre podem enfrentar exposição prolongada durante os períodos de fumaça intensa.

Uma pesquisa anterior, também realizada no Brasil, mostrou que ondas de poluição associadas às queimadas elevaram em 23% as internações por doenças respiratórias e em 21% as hospitalizações por problemas circulatórios.

Pressão adicional sobre o SUS

Nesse contexto, as queimadas também pressionam o Sistema Único de Saúde. Durante a estação seca, hospitais e unidades básicas podem receber mais pacientes com crises de asma, bronquite, pneumonia e complicações cardiovasculares.

Aumentam a ocupação de leitos, o uso de medicamentos e a necessidade de acompanhamento médico. Além disso, internações mais longas reduzem a disponibilidade de vagas para outros atendimentos.

Por esse motivo, políticas de combate ao fogo precisam ser articuladas com ações de vigilância sanitária, monitoramento da qualidade do ar e preparação das redes municipais de saúde.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mantém uma plataforma que acompanha focos de queimadas por satélite e permite análises por estado, município e bioma.

Assim, os dados ambientais podem apoiar alertas e medidas preventivas antes que a fumaça alcance níveis mais perigosos.

Como reduzir a exposição à fumaça

Durante episódios de baixa qualidade do ar, recomenda-se evitar exercícios intensos em áreas abertas, manter portas e janelas fechadas nos horários de maior concentração de fumaça e aumentar a hidratação.

Além disso, pessoas com doenças respiratórias ou cardíacas devem seguir corretamente o tratamento indicado.

Caso surjam falta de ar intensa, dor no peito, confusão mental ou piora repentina dos sintomas, é necessário procurar atendimento.

Prevenir queimadas também significa proteger a saúde

Os resultados confirmam que queimadas e saúde são temas inseparáveis. Afinal, cada incêndio produz efeitos que alcançam os pulmões da população, os leitos hospitalares e o orçamento público.

Portanto, prevenir queimadas, responsabilizar práticas ilegais e ampliar o monitoramento da qualidade do ar significa reduzir doenças e gastos evitáveis.

Proteger as florestas, nesse sentido, também é proteger o SUS e a qualidade de vida dos brasileiros.

Agnes Adusumilli – Jornalista e Editora do Site Cultura Alternativa

Fontes

Nature Communications. Causal effects of wildfire PM2.5 on hospital costs and length of stay in Brazil. Publicado em 7 de julho de 2026.

Nature Communications. Health impacts of wildfire-related air pollution in Brazil. Publicado em 2021.

Organização Mundial da Saúde. Diretrizes globais sobre qualidade do ar e material particulado.

Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Programa Queimadas.

REDAÇÃO SITE CULTURA ALTERNATIVA