Caetano Veloso é homenageado no Clube do Choro - Cultura Alternativa

Caetano Veloso é homenageado no Clube do Choro

Caetano Veloso é homenageado no Clube do Choro

Tempo de Leitura – 7 minutos

Caetano Veloso é homenageado no Clube do Choro de Brasília em uma apresentação dedicada às diferentes fases da trajetória do compositor baiano. Realizado no sábado, 8 de agosto de 2026, às 20h30, o show teve como título “Eclipse Oculto” e aconteceu um dia depois de Caetano completar 84 anos.

Idealizado e produzido por Tita Lyra, o projeto reuniu músicos profissionais da cena brasiliense sob a direção musical de João Ferreira. O repertório, por sua vez, foi pensado para percorrer diferentes momentos da produção de Caetano e oferecer interpretações construídas especialmente para a apresentação.

O título faz referência à composição “Eclipse Oculto”, de Caetano Veloso, conhecida também pela gravação do Barão Vermelho nos anos 1980. A escolha, além disso, dialogou com a proposta de explorar diferentes dimensões do compositor, passando por momentos históricos, influências musicais e vertentes de uma obra desenvolvida durante mais de seis décadas.

Caetano Veloso e seis décadas de música

Caetano Emanuel Vianna Telles Veloso nasceu em Santo Amaro, na Bahia, em 7 de agosto de 1942. Sua projeção nacional ocorreu durante a década de 1960, período de profundas mudanças culturais no país. Nesse contexto, participou da construção do Tropicalismo ao lado de Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes e outros nomes.

O movimento aproximou elementos da cultura brasileira do rock, da psicodelia, das guitarras elétricas, da vanguarda e da cultura pop internacional. Caetano, entretanto, desenvolveu uma linguagem própria dentro desse ambiente de experimentação. Ao longo dos anos seguintes, transitou por samba, bossa nova, rock, música experimental e ritmos afro-brasileiros.

A ditadura militar também interferiu diretamente em sua biografia. Caetano e Gilberto Gil foram presos no final de 1968 e, posteriormente, partiram para Londres. O compositor permaneceu no exterior até o início dos anos 1970. Essa experiência, consequentemente, passou a integrar uma trajetória artística marcada por questões culturais, sociais, políticas e comportamentais.

A concepção musical de Eclipse Oculto

Tita Lyra idealizou a apresentação a partir do desejo de celebrar a obra de Caetano por diferentes perspectivas. A proposta não se limitou aos sucessos mais populares. O roteiro contemplou referências à Tropicália, ao período do exílio, à cultura nordestina, aos balanços da Bahia, ao romantismo e às influências internacionais absorvidas pelo compositor.

João Ferreira assumiu a direção musical, além do violão e da guitarra. Filho do compositor Clodo Ferreira, ele possui formação pela Universidade de Brasília e atuação como instrumentista, arranjador, produtor e professor. Sua trajetória, portanto, estabelece uma ligação direta entre o espetáculo e uma família com presença reconhecida na história musical de Brasília.

A extensão da produção de Caetano exigiu seleção e síntese. Algumas composições, desse modo, foram pensadas em fusões capazes de aproximar diferentes períodos. A solução ampliou as possibilidades do roteiro e permitiu aos arranjadores trabalhar conexões entre canções sem recorrer a uma apresentação estritamente cronológica.

Músicos profissionais reunidos no palco

Vavá Afiouni assumiu o baixo, enquanto Thiago Cunha ficou responsável pela bateria. Os dois músicos compartilham experiências anteriores e integraram o Passo Largo ao lado do guitarrista Marcus Moraes. O grupo desenvolveu trabalhos no campo do rock instrumental e também realizou releituras de compositores brasileiros.

Vavá construiu trajetória como baixista, compositor, cantor e produtor musical. Em sua carreira, além disso, trabalhou em projetos relacionados a artistas de diferentes vertentes. Thiago Cunha desenvolveu atuação como baterista na cena brasiliense, acumulando experiências que passam pelo rock e pela música instrumental.

Mari Coelho e Paulo Chaves assumiram os vocais, enquanto Fred Brasiliense participou como convidado especial. Radicado há décadas na capital federal, Fred possui trajetória ligada à música e à produção cultural da cidade. A reunião desses profissionais, assim, colocou diferentes experiências artísticas a serviço do repertório escolhido.

As muitas referências de Caetano

A música de Caetano tornou-se conhecida pela capacidade de estabelecer diálogos entre universos aparentemente distantes. Sua formação incorporou elementos da tradição baiana e da música popular brasileira, porém também absorveu referências estrangeiras. Os Beatles, por exemplo, aparecem entre as influências destacadas na concepção do show.

O Nordeste ocupa outro lugar fundamental nesse universo. Nascido no Recôncavo Baiano, Caetano levou para sua produção referências culturais de sua região e, posteriormente, aproximou-as de linguagens contemporâneas. Essa combinação ajudou a construir uma obra que não permaneceu vinculada a um único gênero.

As letras também contribuíram para ampliar o alcance de suas composições. Amor, identidade, comportamento, Brasil, memória e transformações sociais aparecem em diferentes momentos de sua produção. Por consequência, interpretar Caetano envolve lidar simultaneamente com melodia, ritmo, poesia e contexto histórico.

Clube do Choro e a música brasileira

O Clube do Choro de Brasília foi oficialmente fundado em 9 de setembro de 1977, embora sua origem esteja relacionada a encontros musicais realizados anteriormente na capital. Entre os personagens ligados à formação da instituição estão a flautista Odette Ernest Dias e Avena de Castro, seu primeiro presidente.

A instituição enfrentou períodos difíceis e iniciou uma fase de recuperação sob a presidência de Reco do Bandolim nos anos 1990. A programação ganhou força e passou a homenagear grandes personagens da música nacional. Em 2008, além disso, o Clube do Choro recebeu o registro de Patrimônio Cultural do Distrito Federal.

O atual Espaço Cultural do Choro tem projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer e abriga também a Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello. O local, portanto, oferece um contexto particularmente ligado à história da música nacional. Foi nesse ambiente que músicos de Brasília se reuniram para celebrar os 84 anos de Caetano Veloso.

Cultura Alternativa Opinião

O Cultura Alternativa gostou do espetáculo Eclipse Oculto. João Ferreira conduziu musicalmente a apresentação com segurança e organização, enquanto os instrumentistas mostraram entrosamento e domínio de suas funções. Os cantores, igualmente, enfrentaram com personalidade um repertório associado a interpretações que fazem parte da memória musical brasileira.

Os arranjos mereceram atenção porque buscaram caminhos próprios sem descaracterizar as composições. O espetáculo, além disso, conseguiu equilibrar a homenagem ao autor com a identidade dos profissionais presentes no palco. Essa característica evitou uma reprodução meramente nostálgica das gravações conhecidas.

A apresentação foi bem realizada, cuidadosamente conduzida e adequada ao ambiente do Clube do Choro. O resultado valorizou tanto as composições de Caetano quanto os músicos responsáveis por revisitá-las. Eclipse Oculto celebrou uma obra fundamental da música brasileira por meio de uma leitura profissional, respeitosa e musicalmente consistente.

Anand Rao
Editor Chefe
Cultura Alternativa