Encontro percorre infância, trabalho, racismo, literatura e quase uma década do projeto Música para Todx
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O Sarau Cultura Alternativa 2026 recebeu Joel de Oliveira para uma conversa em que poesia, música, memória e questões sociais se encontraram durante mais de uma hora. Ao lado de Anand Rao, o escritor e produtor cultural percorreu episódios de uma trajetória de mais de oito décadas e, além disso, falou sobre família, trabalho, racismo, solidariedade e produção artística.
A abertura revelou imediatamente o caráter afetivo do encontro. Anand musicou “Reencontro de Amigos”, poema escrito por Joel especialmente para o programa e, dessa forma, transformou os versos em uma parceria construída para o sarau. O texto parte do reencontro de dois amigos e, ao mesmo tempo, aborda esperança, problemas sociais e a necessidade de recuperar o amor nas relações humanas.
O programa alternou entrevista, declamações e música e, por isso, afastou-se do formato convencional de perguntas e respostas. As lembranças conduziram naturalmente a outras histórias e, consequentemente, experiências individuais abriram espaço para reflexões mais amplas sobre preconceito, envelhecimento, família, cultura e sociedade brasileira.
Tabela de conteúdos
Infância, pobreza e os ensinamentos dos pais
Nascido no Rio de Janeiro, Joel cresceu no bairro de Monteiro, em Campo Grande, na Zona Oeste. Filho de Odete de Oliveira e João Caetano de Oliveira, integra uma família de 13 irmãos e, atualmente, conforme contou durante o programa, apenas três deles estão vivos.
A família enfrentava dificuldades financeiras, porém Joel recorda uma infância marcada por valores que considera fundamentais em sua formação. Dignidade, ética, respeito e gratidão aparecem constantemente quando fala dos pais e, apesar da pobreza, as limitações materiais não impediram a construção de um ambiente familiar afetivo.
Seu pai trabalhava na companhia de bondes do Rio de Janeiro e, paralelamente, exercia uma liderança reconhecida na comunidade. Embora não tivesse formação acadêmica, conquistava respeito pela maneira como se relacionava com as pessoas. A mãe trabalhava como doméstica e, da mesma maneira, é lembrada pelo espírito de acolhimento.
Entre as memórias mais significativas estão os momentos em que os filhos esperavam biscoitos ou pequenos presentes. Quando não havia dinheiro, o pai encontrava explicações capazes de preservar a esperança das crianças e, posteriormente, essa experiência influenciou a maneira como Joel passou a compreender as datas comemorativas. Para ele, afinal, carinho não precisa obedecer ao calendário.
Do serviço público à Petrobras
A trajetória profissional começou por caminhos modestos. Depois de servir ao Exército no Campo de Provas da Marambaia, Joel trabalhou no serviço público e, nesse período, chegou a limpar banheiros em uma escola.
Posteriormente, fez um curso de auxiliar de enfermagem e trabalhou na área durante três anos. Durante o sarau, classificou essa experiência como uma das melhores de sua vida profissional porque, no atendimento aos pacientes, percebeu concretamente uma condição de igualdade entre pessoas negras e brancas.
Depois veio a Petrobras. Aprovado em concurso, trabalhou como operador na Refinaria de Duque de Caxias, a Reduc, no Rio de Janeiro. Mais tarde, entretanto, recebeu convite para integrar a Portobras e, com apenas uma semana de casado, mudou-se para Brasília, iniciando outro capítulo de sua trajetória profissional e familiar.
A luta dos trabalhadores da Portobras
Em 1990, a extinção da Portobras durante o governo Fernando Collor atingiu milhares de trabalhadores. Joel também perdeu seu posto e, diante daquela situação, decidiu reunir colegas que enfrentavam o mesmo problema para buscar coletivamente uma solução.
O movimento ganhou dimensão nacional e, posteriormente, estabeleceu interlocução com o governo federal. Durante a gestão de Itamar Franco, Joel participou das negociações e, entre outros episódios, esteve em reunião com o então ministro da Justiça Maurício Corrêa como um dos representantes dos trabalhadores.
A mobilização pela anistia contribuiu, segundo seu relato, para a recuperação de milhares de postos de trabalho e, assim, tornou-se uma referência importante em sua trajetória. A experiência também demonstra uma característica presente em diferentes períodos de sua vida: diante de um problema individual, Joel frequentemente procura uma resposta coletiva.
Racismo atravessa mais de oito décadas
Um dos momentos mais contundentes do sarau ocorreu quando a conversa chegou ao racismo. Aos 81 anos e oito meses na ocasião da gravação, Joel afirmou que a discriminação continua presente em sua vida e, entretanto, procura não permitir que o preconceito determine sua identidade ou sua relação com a sociedade.
Parte dessa postura nasceu dentro de casa. Seu pai reconhecia a existência do racismo, mas, ao mesmo tempo, procurava impedir que ele destruísse a autoestima dos filhos. Joel herdou essa forma de enfrentamento e, ainda hoje, reage quando considera necessário, embora procure transformar determinadas situações também em oportunidades de reflexão.
Para ele, formação acadêmica não significa necessariamente formação humana e, nesse sentido, títulos não impedem comportamentos discriminatórios. Uma pessoa pode possuir elevado grau de escolaridade e, ainda assim, reproduzir racismo e intolerância. O preconceito, portanto, é tratado pelo escritor sobretudo como uma questão ética e de caráter.
Anand acrescentou à conversa experiências relacionadas à obesidade. Contou que chegou a pesar 154 quilos e, durante muitos anos, enfrentou rejeição na infância, nos relacionamentos e no ambiente profissional. A conversa, desse modo, aproximou experiências diferentes de discriminação sem tratar fenômenos distintos como se fossem equivalentes.
Poesia, doação de órgãos e Zumbi
A produção literária ocupou espaço importante no encontro. Além de “Reencontro de Amigos”, Joel apresentou um poema escrito para confortar uma amiga após a morte da mãe e, por meio de versos simples e afetivos, abordou amizade, ausência, sofrimento e permanência do amor.
Em seguida, declamou “Eu Doador”, dedicado à doação de órgãos. O poema percorre dúvidas relacionadas à morte, espiritualidade e medicina e, gradualmente, chega à defesa do desprendimento. Fígado, rins, baço, olhos e coração aparecem, dessa maneira, como possibilidades de prolongar outras vidas depois da morte do doador.
A música também dialogou com a temática racial quando Anand apresentou uma composição dedicada a Zumbi dos Palmares. A canção reúne referências a Oxalá, Xangô, Ogum, Omulu e Oxóssi e, consequentemente, estabelece uma ponte entre música, ancestralidade afro-brasileira e as discussões sobre racismo desenvolvidas durante o programa.
Música para Todx
Joel também falou sobre o projeto Música para Todx, iniciativa que se aproxima de uma década de existência. O trabalho nasceu no Feitiço das Artes, espaço cultural que sucedeu o Feitiço Mineiro, e, desde então, atravessou mudanças de locais, colaboradores e diferentes etapas de organização.
Atualmente, a proposta é desenvolver os encontros na Vila Planalto, em Brasília, às segundas-feiras. O princípio do projeto, entretanto, permanece essencialmente o mesmo: oferecer espaço para pessoas que desejam cantar ou declamar, independentemente de experiência profissional ou domínio técnico.
Não é necessário ser cantor profissional nem possuir experiência artística e, inclusive, erros e interrupções são tratados com naturalidade. Segundo Joel, a banda pode parar uma música caso o participante fique inseguro, esqueça a letra ou simplesmente queira interromper a apresentação. O Música para Todx, portanto, procura eliminar julgamentos e transformar o palco em espaço de acolhimento.
Pessoas de diferentes gerações participam da iniciativa e, recentemente, um homem de 92 anos subiu ao palco para cantar. Para Joel, experiências como essa justificam a continuidade do trabalho e, ao mesmo tempo, demonstram que a expressão artística não deve possuir limite de idade.
Uma vida transformada em ação cultural
No encerramento, Joel agradeceu às pessoas que participam de sua caminhada e fez referências especiais à família. Citou a esposa, Ângela Lúcia Gomes de Oliveira, a filha Luana Mara Gomes de Oliveira e o filho Kwame Fatumbi Gomes de Oliveira e, dessa maneira, reforçou a importância dos vínculos familiares em sua trajetória.
Também utilizou humor para falar sobre características de sua aparência e sobre os olhares preconceituosos que ainda encontra. Em vez de assumir uma posição de conformismo, entretanto, transformou as próprias marcas físicas em uma afirmação de identidade, espiritualidade e autoestima.
Depois de mais de oito décadas, sua história reúne trabalho, conflitos, mobilização social, poesia e ação cultural e, sobretudo, revela uma disposição contínua para criar espaços de convivência. Joel permanece produzindo cultura enquanto incentiva outras pessoas a ocuparem o palco, independentemente da idade ou da experiência artística.
O Sarau Cultura Alternativa 2026 registrou, portanto, mais do que uma entrevista biográfica. Entre música, poemas, lembranças e discussões sociais, o encontro apresentou a trajetória de um homem que atravessou diferentes períodos do Brasil e que, ainda hoje, utiliza palavra, arte e convivência como instrumentos de resistência, acolhimento e transformação.
Assista o Sarau
Fernando Araújo e equipe
Cultura Alternativa

